Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Cenário eleitoral no Brasil é 'imprevisível e fragmentado', diz Fitch

Agência de classificação de risco manteve a nota de crédito do País em BB-, três graus abaixo do chamado grau de investimento

Gabriel Bueno da Costa e Ricardo Leopoldo, correspondente, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 14h13
Atualizado 01 Agosto 2018 | 15h08

SÃO PAULO E NOVA YORK - A Fitch manteve nesta quarta-feira, 1º, o rating soberano do Brasil em BB-, com perspectiva estável. De acordo com a agência, os fatores econômicos que impedem a elevação da nota de crédito são fraquezas estruturais nas finanças públicas e alto endividamento. A Fitch também avaliou o cenário eleitoral do País, afirmando que o ambiente político é "desafiador", em meio a uma corrida eleitoral "imprevisível e fragmentada".

Segundo a empresa de classificação de risco, não está claro quem pode chegar ao provável segundo turno e há incerteza sobre o ritmo, o escopo e a qualidade dos ajustes da política após a disputa nas urnas.

Outra incerteza citada pela agência é quanto à base no Congresso do vencedor, fator que será importante para garantir a governabilidade e o avanço nas reformas "necessárias para melhorar a perspectiva para as finanças públicas e o crescimento".

Sobre a nota, a agência afirmou que pesam ainda as perspectivas de crescimento "fracas" da economia, assim como um panorama político "desafiador" e dificuldades relacionadas à corrupção.

Por outro lado, o rating é não caiu já que a agência considera haver diversidade econômica e instituições civis consolidadas, com renda per capita mais alta que a mediana dos países do rating igual.

"A capacidade de absorver choques externos é apoiada por seu câmbio flexível, desequilíbrios externos pequenos, posição de reservas internacional robusta, uma posição externa líquida como credor externo soberano e por mercados domésticos desenvolvidos de dívida do governo, além de uma parcela pequena da dívida em moeda estrangeira no total da dívida do governo", afirma a Fitch.

Na opinião da agência, o Brasil passa por uma recuperação "moderada" em 2018, com previsão de crescimento de 1,5%. A greve nos caminhoneiros, as condições de financiamento externo mais apertadas e as "contínuas" incertezas políticas relacionadas ao ciclo eleitoral contêm a retomada, aponta a Fitch. Entre 2019 e 2020, ela prevê que o crescimento do País fique em média em 2,5%.

Déficit de 8% do PIB

Na avaliação da agência, o déficit fiscal do Brasil segue grande e deve recuar apenas gradualmente, o que aumenta a vulnerabilidade a choques. Segundo ela, o déficit fiscal do governo deve seguir elevado, em cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, bem pior que a mediana de 3% dos países com rating BB.

A dívida do governo deve atingir 77,5% do PIB em 2018 e continuará a avançar em 2019 e 2020, diz a agência. A consolidação fiscal no médio prazo dependerá do sucesso do próximo governo para combater os desafios fiscais, argumenta a agência. A Fitch cita ainda a inflação "moderada" e os déficits em conta corrente "baixos".

Em entrevista exclusiva ao Broadcast, a diretora de rating soberano para América Latina da agência, Shelly Shetty, afirmou que não deve haver reformas estruturais significativas no Brasil ainda em 2018, especialmente para viabilizar a consolidação fiscal.

"O próximo governo terá o desafio de coibir a expansão de gastos com a adoção de reformas estruturais, como a da Previdência Social, que ajudará no processo de ajuste das contas públicas ", apontou.

Contudo, a diretora da Fitch ressaltou que a reforma da Previdência não é o único fator para uma eventual elevação do rating do Brasil no próximo ano pela agência internacional de rating, pois dependerá da evolução geral macroeconômica do País, com crescimento sustentado do PIB e adoção de medidas que ajudarão o governo a conter as despesas públicas, entre elas uma nova regra de reajuste do salário mínimo.

"Será relevante avaliar como a próxima administração implementará medidas de política econômica e como contará com o apoio do Congresso", destacou.

De acordo com Shelly Shetty, o movimento de desvalorização do real ante o dólar registrado nós últimos meses não é "um fator de preocupação", pois não causou impactos expressivos no nível de atividade do País. "O Brasil tem contas externas saudáveis, e os investimentos estrangeiros diretos financiam o déficit de conta corrente. O País tem elevado volume de reservas internacionais."

Para a diretora da Fitch, "é natural" que as eleições presidenciais tragam incertezas sobre quais serão as diretrizes da política econômica do próximo governo.

Rebaixamento em fevereiro

Dias depois de o governo desistir de votar a reforma da Previdência, em fevereiro, a Fitch rebaixou a nota de crédito soberano do Brasil, de BB para BB-.

Com o rebaixamento, o Brasil ficou três graus abaixo do chamado grau de investimento – uma espécie de selo de bom pagador, que indica que determinada região é segura para os investidores.

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