Cenário externo pode retardar retomada brasileira

Crise da Rússia, conflitos no Oriente Médio e Ebola, além de fatores econômicos, dificultarão recuperação

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2014 | 02h08

Uma Europa estagnada, um continente asiático sofrendo com uma forte desaceleração, as finanças russas seriamente afetadas e economias emergentes patinando. Esse será o cenário internacional em 2015, criando obstáculos suplementares para que o Brasil possa voltar a crescer de uma maneira sustentável.

Alguns dos principais mercados de destino das exportações brasileiras continuarão a sofrer uma baixa taxa de crescimento em 2015, o que afetará diretamente a renda de diversos setores na economia nacional.

"Seis anos depois que o colapso financeiro levou o mundo a ficar de joelhos, estamos vendo uma vez mais sinais vermelhos na economia global", alertou o primeiro-ministro britânico, David Cameron, no início do mês.

Se não bastassem os desafios econômicos, o cenário pode ser afetado pela tensão entre Rússia e Ocidente, pelos conflitos no Oriente Médio e pelo impacto da epidemia do Ebola.

Não por acaso, instituições, economistas e multinacionais apontam que próximo ano não será mais o da recuperação, como se esperava. Projeções de crescimento já foram revistas para baixo, mesmo antes de o ano começar.

Em outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu sua projeção de crescimento da economia mundial para 2015 para 3,8%. Seis meses antes, a expectativa era de uma expansão de 4,0%, superior aos 3,3% registrados em 2014. Mas mesmo essa previsão deve voltar a ser revista..

Para a agência de classificação de risco Moody's, 2015 "não será o ano da recuperação" e economias como Brasil, China, Europa e África do Sul terão influências negativas.

"O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global dificilmente terá uma repercussão significativa nos próximos dois anos", alerta a Moody's. A previsão é de que a expansão das economias do G-20 (grupo das 20 maiores economias) gire em torno de 3,0% em 2015 e 2016.

Entre as multinacionais, os cálculos confirmam um 2015 de baixo crescimento. Uma das empresas que reduziu suas projeções de vendas foi a alemã Basf. "O ambiente continuará volátil e pleno de desafios", diz o presidente mundial da empresa, Kurt Bock. "As razões para um desenvolvimento fraco da economia mundial são óbvios: uma redução da dinâmica de crescimento dos emergentes e uma recuperação adiada da economia da Europa."

Giro global. Na semana passada, a cúpula do G-20 anunciou um compromisso para permitir uma retomada do crescimento mundial, com medidas que poderiam dar um novo oxigênio à expansão do consumo. Mas com o desemprego elevado em diversas regiões e salários sendo ainda cortados, a chance de uma reviravolta é pequena. O Japão, por exemplo, anunciou ter entrado na quarta recessão em apenas seis anos. Desta vez, nem mesmo um pacote de medidas para estimular o crescimento evitou a contração da economia em 1,6%.

Na terça-feira, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, adiou a elevação do imposto sobre vendas em 18 meses, para abril de 2017, numa tentativa de fortalecer a economia do país nos próximos anos. A elevação no tributo de 8,0% para 10% tinha sido programada anteriormente para ocorrer em outubro de 2015. O primeiro-ministro japonês também convocou eleições antecipadas para buscar apoio a sua decisão de adiar o aumento do imposto.

Na Europa, um dos principais destinos das exportações brasileiras, a previsão é de que 2015 seja mais um ano difícil. O desemprego não cede, continua acima de 11,5% e o continente representa, para muitos, o maior risco para a economia mundial. "A zona do euro está flertando com uma possível terceira recessão, com alto desemprego, crescimento em baixa e risco real de queda de preços", afirmou Cameron.

O presidente do Banco Central da Inglaterra, Mark Carney, já alertou para o risco de uma "longa estagnação". Para o Fundo Monetário Internacional, a ameaça é de um período "medíocre" para a Europa.

Até mesmo o Banco Central Europeu (BCE) admitiu o desafio que 2015 representará para o continente. Nesta semana, o presidente da instituição, Mario Draghi, defendeu uma lista de medidas para estimular o crescimento, deixando claro que não há mais nada que a política monetária possa fazer para criar incentivos para a economia. "O ano de 2015 precisa ser o ano em que todos os atores adotem uma estratégia comum para trazer nossas economias de volta aos trilhos."

Após seis anos sem uma estratégia comum, a Europa ainda não conseguiu nem falar com uma só voz nem lidar com a crise num plano de longo prazo.

Fiel da balança. Nos Estados Unidos, a ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), divulgada na terça-feira, apontou a preocupação dos dirigentes do banco com a turbulência nos mercados financeiros, as fracas condições econômicas no exterior e os riscos de uma baixa inflação. Mesmo assim, o programa de compras mensais de ativos foi encerrado porque a economia e o mercado de trabalho dos EUA pareciam estar a caminho de mais melhoras.

No entanto, foi observado que, se as condições econômicas ou financeiras estrangeiras se deteriorarem mais, o crescimento dos EUA no médio prazo pode ser mais lento do que o esperado. A melhora no mercado de trabalho pede um movimento em direção à elevação dos juros em 2016, enquanto a pressão sobre a inflação pede que o Fed espere um pouco mais.

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