Cenário global impõe cautela, diz presidente

Para Dilma, problemas causados pelo real valorizado preocupam, mas é preciso aguardar os desdobramentos da crise na Europa e nos EUA

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2011 | 00h00

Os problemas causados pela sobrevalorização do real preocupam a presidente Dilma Rousseff. Mas ela pondera que é preciso olhar com cuidado o cenário internacional para não tomar nenhuma medida precipitada.

"Você acha que a gente pode fazer alguma coisa no momento em que não sabe se o pessoal está brincando na beira do abismo ou se já conseguiu criar uma rede de proteção?", perguntou a presidente, em alusão à crise na Europa e nos Estados Unidos. "Nós nem sabemos se vai ter default (calote) nos EUA."

Apesar das preocupações, a presidente deu risada ontem, durante conversa com cinco jornalistas no Palácio do Planalto, quando ouviu os relatos sobre os problemas que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem tido para dormir por causa da valorização do real ante o dólar.

"É bom, às vezes, a gente não dormir. A gente não dorme e fica alerta", disse ela, em tom bem- humorado. Depois, emendou, enigmática: "O Guidinho de olhos abertos..."

Ao mencionar o quadro de incertezas fora do Brasil, Dilma deixou claro que é preciso acompanhar com mais cuidado os desdobramentos da crise europeia e do imbróglio sobre o teto da dívida americana, para avaliar possíveis medidas na área cambial. "O mundo está andando um pouco de lado. Deixa ele andar um pouco à frente que a gente decide o que vai fazer."

Na avaliação da presidente, o socorro de 158 bilhões à Grécia, anunciado por chefes de Estado e de governo da União Europeia, representa mesmo um calote organizado. "Mas tem de ser feito, não tem jeito", comentou.

Indústria. Enquanto deu sinais de que na área cambial o governo tem pouco a oferecer neste momento, a presidente fez questão de destacar que está pronta para atacar o que classificou como um dos grandes gargalos do País: a defasagem da política industrial. Batizado como "Programa de Inovação do Brasil", o texto referente à política de desenvolvimento da competitividade está pronto e será agora apresentado em 2 de agosto. Haverá incentivo para aumentar a exportação de produtos manufaturados.

Na prática, a política industrial será apresentada em mais de uma etapa. A ideia é contornar resistências e impedir que medidas que precisam passar pelo crivo do Congresso fiquem indefinidamente à espera de aprovação. Além da valorização das exportações, os pilares da política industrial serão exigência de maior conteúdo local nos produtos fabricados, agregação de valor, compras governamentais e política de defesa comercial.

A desoneração da folha de pagamentos não está incluída nesse pacote e "sai na sequência", de acordo com Dilma. Antes disso, no dia 9, a presidente disse que anunciará "uma boa melhorada" no programa popularmente conhecido como "Super Simples", que prevê a unificação de oito tributos - seis federais, um estadual e um municipal.

Agenda. Para Dilma, o "Super Simples", a política industrial e a continuidade da reforma tributária serão prioridades do governo no Congresso no segundo semestre. A reforma tributária será mesmo fatiada. "Se não for assim, não sai", argumentou.

Ela admite discutir com os governadores a complicada situação financeira dos Estados, mas acha muito difícil mudar o indexador que corrige as dívidas renegociadas com a União na década de 1990. "Sai tudo do mesmo saco ou, como diriam os portugueses, da mesma burra." A presidente avalia que o Banco Mundial tem condições de emprestar dinheiro aos Estados para mudar o perfil da dívida e financiar operações de ajuste fiscal.

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