Dida Sampaio/Estadão - 21/8/2019
Dida Sampaio/Estadão - 21/8/2019

Cenário internacional favorece interesse de fundos canadenses pelo Brasil, diz secretária do PPI

Segundo Martha Seillier, interesse é grande por investimento em saneamento básico, mesmo considerando que o País não tem grau de investimento

Entrevista com

Martha Seillier, secretária especial do PPI

Julia Lindner e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 17h07

BRASÍLIA - A secretária especial do Programa de Parcerias de Investimento (PPI), Martha Seillier, avalia que o cenário internacional favorece o Brasil a atrair fundos de pensão canadenses interessados em infraestrutura mesmo antes de reconquistar o grau de investimento. 

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ela afirma que questões sociais e ambientais têm pesado na escolha dos investidores e que o País precisa deixar claro que está "alinhado" a essas preocupações.

No mês passado, Martha participou de uma apresentação a investidores nos Estados Unidos e Canadá ao lado do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Como retorno, levou para o Congresso o interesse dos investidores na área do saneamento básico. O objetivo é tentar viabilizar a proposta de um novo marco legal no setor para garantir segurança jurídica aos investidores.

Confira os principais trechos da entrevista.

Quando o Brasil ganhou o grau de investimento, chegou um novo tipo de investidor, os fundos de pensão. Depois que o País perdeu o rating, eles pararam de vir. Dado que o grau de investimento ainda não foi retomado, esses fundos demonstraram algum interesse?

Sim, muito. Os investidores canadenses nos deram um pouco da percepção deles sobre oportunidades no mundo. Eles nos reportaram de forma honesta que a relação Estados Unidos-Canadá é sempre muito controvertida em termos de investimento, de disputas comerciais. Que eles acabam passando por um momento delicado por conta das disputas com a China que estão acontecendo, a Europa (está) em um ritmo de crescimento lento, e há poucas oportunidades de fato de investimento da forma como eles buscam, um portfólio grande de oportunidades de investimento. Então eles olham para o Brasil como um grande gerador de demandas por investimento de infraestrutura. E elogiaram muito o fato de o Brasil ter hoje uma carteira que tem continuidade.

De que forma?

A gente está retomando leilões de direitos minerais, que era uma coisa que o Brasil não fazia há 40 anos. Lá tem muito investidor interessado nessa área de exploração minerária. E eles falam que 'para a gente é muito interessante saber que não vai ser apenas um leilão em outubro, outro em janeiro eventualmente'. Não, já tem um leilão estruturado para acontecer em outubro, que vai ser Palmeirópolis, vocês já estão com quatro áreas em estruturação para leiloar em 2020, e tem mais perspectiva de 30 áreas que vão ser incluídas na carteira. Esse fluxo de investimentos com previsibilidade para eles é muito importante porque eles alocam gente aqui no Brasil para estudar com mais detalhe, montar as propostas que sempre levam um certo investimento por parte deles, fazer as análises, colocar gente para estudar Brasil, estudar os ativos. E eles têm a perspectiva de que, se não der certo um leilão, tem outro lá na frente. Não é um recurso perdido. A gente ouviu isso de vários investidores, que o Brasil tem uma carteira que impressiona pelo tamanho.

Quais são as principais áreas de interesse?

Recebemos um feedback muito importante de que a diversificação da carteira do PPI interessa muito. Interessa muito investir em saneamento básico no Brasil. Essa sinalização para a gente foi importante porque estamos em fase adiantada no Congresso Nacional para rever o marco legal e é sempre bom levar essa notícia para o Congresso de que 'olha, se a lei trouxer a segurança jurídica que o investidor privado precisa para investir em saneamento básico, a gente realmente pode ter uma transformação desse setor porque é uma carteira que interessa muito o investidor estrangeiro'.

O que pesa mais na hora de investir?

Algo muito legal que eles nos falaram também é que, apesar de, claro, são investidores e estão buscando altas taxas de retorno e previsibilidade, a questão social tem um plus nas decisões deles de investimento. Entre investir em uma infraestrutura de uma rodovia que vai atender algumas pessoas e investir no saneamento básico, que você já está falando em salvar vidas, em reduzir mortalidade infantil, tem outro apelo para eles em termo de escolha de investimento.

Então eles estão dispostos a passar por cima inclusive da nossa ausência de grau de investimento para isso?

Sim. É um contexto internacional que nos favorece muito.

Em razão dos outros países estarem sem, vamos dizer, uma carteira de investimento e sem crescimento?

Tem muito dinheiro, ou seja, tem muita liquidez. Tem muita gente investindo a juros muito baixo. Então você olha as taxas de retorno das oportunidades do Brasil, elas são, sim, interessantes. São taxas atrativas. Tudo isso mitiga um pouco esse nosso rating. E há uma perspectiva de melhora do rating também do Brasil. Isso foi dito lá fora por conta da reforma da Previdência, que deu um novo passado esta semana (o texto foi aprovado em primeiro turno no Senado).

É que assim como demora muito tempo para conquistar o rating, uma vez que se perde o grau de investimento, demora uma média de sete anos para o País efetivamente recuperar. Por isso insisto nesse ponto.

Não, acho que não só o feedback que nós tivemos, mas o que a gente está vendo hoje no setor de infraestrutura no Brasil é um crescente apetite pelos players internacionais. Muitas vezes, até mesmo sem 'consorciar' com uma empresa nacional, o que também é um movimento interessante. Quando a gente vê a Aena espanhola que entrou no bloco Nordeste dos aeroportos, que era o bloco mais relevante do leilão deste ano de aeroportos, e ela (Aena) entra sozinha, sem se consorciar com uma brasileira, é um atestado de credibilidade de que vale a pena investir no País. Isso também foi dito no roadshow, que a partir do momento que começam a entrar no Brasil players que são muito reconhecidos internacionalmente por escolherem bons ativos e só fazerem investimentos muito bem pensados, vai melhorando a percepção do Brasil lá fora para investimentos em infraestrutura.

Além da Aena, há outros exemplos?

A Zurich, Suíça, que também arrematou mais aeroportos em Vitória e Macaé este ano, sinalizou que quer continuar participando (dos leilões). Ano que vem a gente já está estruturando mais 22 aeroportos. É muito importante ver que quem está entrando está buscando ainda mais ativos. É sinalização de que o investimento tem dado certo e que eles buscam ampliar ativos aqui no Brasil.

Voltando ao tema do saneamento básico, como foi o retorno que receberam do Congresso sobre a aprovação do novo marco legal?

O diálogo tem sido muito produtivo porque o governo federal tem feito um esforço para tentar modernizar esse marco legal reconhecendo que, sem investimento privado, não vamos chegar nem perto da universalização. O que já não era bom, porque os números do saneamento básico nunca foram bons, tem piorado muito pela crise fiscal. É um setor que conta muito com investimento público e a capacidade de investimento do governo federal de saneamento caiu muito.

Qual deve ser a estratégia de atuação?

O planejamento oficial do governo era atingir a universalização (do saneamento) em 2033. Hoje, com o ritmo de investimento que a gente tem, os especialistas dizem que a gente só chegaria lá em 2055. É algo que precisa virar um esforço nacional, da mesma forma que foi feito um trabalho de esclarecimento sobre a reforma da Previdência. A partir do momento que o povo se apropriou disso, virou uma pressão em relação ao próprio Congresso para que isso se tornasse uma prioridade e vimos uma mudança dos parlamentares de fato ecoando essa relevância e a proposta andando com certa celeridade. O saneamento básico, para mim, é parecido.

Os investidores têm citado, além da questão social, a do meio ambiente. Quais sinalizações recebeu em relação a isso?

Muitos investidores perguntaram o que o Brasil estava fazendo para lidar com as queimadas na Amazônia, uma preocupação grande disso ser ou não uma prioridade para o governo federal. Foi um trabalho que tivemos para desmistificar o que aconteceu de fato em relação às queimadas na Amazônia e deixar claro que não é algo relativo à atuação do governo federal em relação às florestas. Já tivemos anos com muito mais queimadas. Isso foi importante esclarecer, levar os números. Essa conversa aconteceu de forma muito transparente e foi importante, porque o investidor estrangeiro tem um foco muito relevante na questão da governança, do impacto social do investimento que está fazendo e da sustentabilidade. É um tripé que pode acabar afastando investidores se não deixarmos claro o alinhamento com essas preocupações.

Acha que eles se convenceram?

Teve muito esclarecimento por parte do governo do que vinha sendo feito, tanto em relação à utilização das forças nacionais quanto do combate ao garimpo ilegal, de atividades ilegais, de buscar responsabilizar essas pessoas com mais força. As embaixadas brasileiras têm feito um esforço de publicação de um release mostrando a série histórica das queimadas na Amazônia, dados de satélite, tempos desses focos e como têm sido combatidos, é um esforço de apresentar dados para que não haja dúvidas de que foi feito e está sendo feito um esforço de preservação das florestas. E também dos números, porque as pessoas muitas vezes não têm noção do quanto o Brasil é preservado como nação quando você compara com outros países desenvolvidos, a quantidade de árvores nativas. Tem ainda a questão da legislação. É uma situação difícil de explicar porque o investidor que está fora daqui pode ter a primeira impressão de que o Brasil não está priorizando a questão da proteção ambiental, enquanto o investidor que já está aqui fala que a proteção com meio ambiente é tão presente na legislação que é difícil investir. Em uma ferrovia, por exemplo, a missão é hercúlea.

Há também a questão do discurso do presidente. Isso foi colocado?

Acho que uma posição muito importante desse governo que foi entendida lá fora é a questão da soberania nacional, ou seja, não venham dizer que a Amazônia, por ter sua relevância, porque é tão rica, porque é tão importante para a nação, é patrimônio de todos. Temos parte da Amazônia que está no Brasil e consequentemente relativa à soberania brasileira. Isso foi uma mensagem muito importante passada também no roadshow e acho que muito compreendida também.

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