Cenário interno poderá adiar corte da Selic

Chegou a hora de olhar o mercado interno. Para uma corrente de economistas que acompanha atentamente o desempenho do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a demanda doméstica e a expansão do crédito serão os temas-chave da política monetária brasileira em 2001. E a preocupação com os chamados "fatores externos", como a cotação do dólar, o spread dos títulos da dívida externa brasileira e a taxa de juros internacional, deve gradativamente recuar para segundo plano. "Acho que em 2001 os fatores internos vão ser o tema dominante, ao contrário de 2000, em que pesaram mais os fatores externos", diz, por exemplo, Rodrigo Azevedo, economista-chefe do Banco CS First Boston Garantia. No fim de 2000 e início deste ano, uma série de indicadores econômicos tem mostrado que a economia brasileira está se aquecendo. O temor de parte do mercado é de que a expansão da demanda e do crédito possa causar pressões nos preços mais para o fim do ano, e dificultar o cumprimento da meta inflacionária de 4% em 2001. Importados podem pressionar inflação Mas o diretor de Política Econômica do BC, Ilan Goldfajn, demonstra achar a tese da preponderância dos fatores internos um pouco prematura. Ele concorda que a demanda está crescendo com vigor e pode pressionar a economia, mas isso, na sua opinião, vem se refletindo em aumento de importações, e não em repasse direto a preços. No pior cenário, que Goldfajn considera improvável, o crescimento das importações poderia levar a uma alta ainda mais forte do dólar e esta, por sua vez, impulsionar a inflação. Ainda assim, observa, o canal de transmissão seria externo. Em relação à pressão direta da demanda interna nos preços, Goldfajn é categórico: "Estamos observando atentamente, mas não há nenhum sinal até agora." Selic O CSFB Garantia está até otimista em relação ao espaço para novos cortes da taxa de juros básica, e prevê uma redução de 0,25 ponto porcentual na reunião do Copom desta semana, embora Azevedo ressalve que não ficará "nada surpreso" se a Selic for mantida no atual nível de 15,25%. Esta relativa tranqüilidade, porém, não deve ser tomada por indiferença ao fator doméstico. Ele observa que o Copom cortou 1,25 ponto porcentual da Selic desde dezembro, reduzindo-a de 16,5% para 15,25%. Para o economista, é possível até reduzir a curto prazo algo como 0,25 ou 0,50 ponto. Mas, a partir daí, a atitude correta talvez fosse esperar alguns meses, para avaliar o efeito da redução forte e rápida dos juros sobre a demanda e o crédito domésticos. Paulo Leme, economista-chefe da Goldman Sachs para mercados emergentes em Nova York, é um pouco mais conservador que Azevedo com relação à Selic. Ele prevê a manutenção do atual nível em 15,25%. Mas Leme concorda com a visão do economista do Garantia de que a questão da demanda não é um problema imediato, mas sim um fator que deverá ser prioridade mais a longo prazo.

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