Cenário otimista para o crescimento

Nossas projeções são condicionadas à confirmação de algumas hipóteses básicas

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

12 Março 2018 | 05h00

A economia brasileira opera atualmente com grande ociosidade, ou seja, com baixa utilização dos recursos produtivos. Em meu artigo publicado em 12 de fevereiro último, neste espaço, tratei das implicações dessa ociosidade para a correta interpretação dos resultados fiscais do governo. Hoje, analiso o que isso significa para o cenário de crescimento econômico dos próximos anos.

Uma medida ampla da situação em que a economia se encontra em relação ao ciclo econômico é dada pelo hiato do produto. Este, por sua vez, nada mais é do que a diferença entre o Produto Interno Bruto (PIB) efetivo e o que poderia ser gerado (PIB potencial) com utilização normal dos fatores de produção, dado o nível de produtividade. A expressão “normal” significa aqui que as taxas de desemprego de mão de obra e de ociosidade no uso dos bens de capital (máquinas, equipamentos e construções) devem estar nos menores níveis possíveis, mas condizentes com a estabilidade de preços.

Não é simples estimar o hiato do produto. Para tanto é preciso lidar com variáveis não observáveis, e os resultados dessas estimativas variam muito com o método utilizado. No entanto, simulações recentes de alto rigor técnico efetuadas pelo Instituto Fiscal Independente (IFI), com metodologia similar à utilizada pela União Europeia, mostram hiato negativo enorme, algo entre 7% e 8%, em 2017. Ou seja, não fosse a escassez da demanda, o PIB brasileiro no ano passado poderia ter sido cerca de 7,5% superior ao que foi registrado pelo IBGE.

Podemos olhar essa questão também de forma mais simples. A taxa de desemprego apurada pela Pnad Contínua (IBGE) encontra-se, atualmente, em 12,2%, bem acima de nossa estimativa de 8,5% para a taxa neutra (aquela que não causa aceleração da inflação). O Nível de Utilização da Capacidade Instalada da Indústria (Nuci-FGV) está em 75,2%, bem abaixo da média histórica de 80,5%.

O que esses números nos mostram? Em primeiro lugar, ilustram o desastre provocado pela política econômica posta em prática pelo governo anterior. Não é comum o Brasil apresentar recessões de demanda dessa magnitude. Em segundo lugar, sinalizam que não é difícil alcançar taxas de crescimento econômico elevadas, durante alguns anos. Para isso basta manter os índices de confiança dos agentes econômicos (consumidores e empresários, não apenas mercado financeiro) em bom nível, e o governo praticar, de forma responsável, políticas que estimulem a demanda, como tem feito o Banco Central. Com isso, é possível, ou até mesmo provável, que o PIB brasileiro cresça, nos próximos 2 a 3 anos (até que o enorme hiato do produto seja fechado), bem acima das projeções atuais de consenso. Estou falando de taxas anuais de crescimento da ordem de 4% ou mais.

Economistas precisam ser mais cautelosos do que videntes e lançadores de búzios. Nossas projeções são condicionadas à confirmação de algumas hipóteses básicas. As aqui apresentadas dependem, principalmente: 1) da não ocorrência de surpresas relevantes para cima na inflação norte-americana e consequente aumento dos juros internacionais acima do previsto; 2) da não materialização dos vários riscos geopolíticos atuais (que, diga-se, segundo alguns indicadores, estão no patamar mais elevado dos últimos 10 anos); e 3) domesticamente, da vitória nas eleições de outubro de um candidato identificado e comprometido com a continuidade das reformas, sobretudo, mas não só, as voltadas para o reequilíbrio fiscal, com destaque para a da Previdência. Felizmente, atribuo probabilidades elevadas para tais hipóteses.

E o que acontecerá após o fechamento do hiato, ou seja, quando o PIB efetivo alcançar o potencial? Bem, a partir desse ponto, políticas de estímulo de demanda não funcionarão mais. As reformas macro e microeconômicas precisam estar implantadas, de forma a elevar os investimentos e a produtividade. Se isso não ocorrer, o enorme abismo que nos separa dos países desenvolvidos voltará a se alargar ainda mais.

* ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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