Wilton Junior/Estadão - 11/10/2019
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Cenário político mantém incerteza elevada, aponta indicador da FGV

Índice já tinha subido em outubro e não melhorou com a eleição de Bolsonaro, mesmo com o comprometimento da equipe econômica com as reformas liberalizantes

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2019 | 12h12

RIO - Desde o fim da recessão, a partir de janeiro de 2017, em apenas 10 dos 33 meses do período o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), ficou abaixo do nível de 110 pontos, corte acima do qual a incerteza é considerada elevada. Com o fim do período recessivo, era de se esperar uma redução na incerteza, mas as turbulências políticas vêm impedindo essa acomodação, mostra uma desagregação inédita do IIE-Br, obtida pelo Estado.

Segundo Fernando Veloso, pesquisador do Ibre/FGV, quando atingiu seu pico, em setembro de 2015 (136,8 pontos), tanto incertezas relacionadas à crise fiscal quanto as associadas a turbulências políticas estavam elevadas no IIE-Br. A partir do fim de 2016, as preocupações com a crise fiscal tiveram um alívio, mas as turbulências políticas seguiram no radar, mesmo após a eleição e a posse do presidente Jair Bolsonaro.

“Tem alguma evidência de que a incerteza fiscal, com a aprovação do teto de gastos (em 2016) e o avanço da Previdência (neste ano), diminuiu, mas está muito alta ainda. Agora, a incerteza de natureza política, subiu e, apesar de altos e baixos, tem se mantido num nível muito alto. Se fosse só o fator fiscal, era para a incerteza ter caído um pouco, mas a política não deixa”, afirmou Veloso.

Para sustentar essa avaliação, os pesquisadores do Ibre/FGV desagregaram em dois o IIE-Br Mídia, o subíndice que mede as menções a expressões associadas à incerteza em notícias publicadas na imprensa. Entenda como o IIE-Br é calculado.

Um dos desagregados mede as menções referentes a incertezas políticas; o outro, as referências a incertezas fiscais. No acumulado de janeiro de 2017 a agosto último, o agregado das incertezas políticas caiu apenas 0,2% (para 121,6 pontos), enquanto o agregado das incertezas fiscais encolheu em 5,9% (para 115,2 pontos). No acumulado de 2019 até agosto, o primeiro agregado acumula alta de 10%, enquanto o subíndice da incerteza fiscal avança 2,2%.

A incerteza política já tinha subido nas eleições de outubro do ano passado, lembrou Veloso. “Na época das eleições houve uma grande polarização. Dependendo de quem ganhasse as eleições, políticas seriam radicalmente diferentes”, afirmou o pesquisador.

A questão é que o quadro não melhorou com a eleição de Bolsonaro, conforme os dados desagregados do IIE-Br. “Mesmo agora, apesar de todo o comprometimento do (ministro da Economia) Paulo Guedes e da equipe dele com reformas liberalizantes, vemos sinais dúbios, não dele, mas de Bolsonaro e de outras áreas do governo”, disse Veloso.

O estilo do presidente, que usa as redes sociais para se comunicar e dá declarações polêmicas com frequência, também contribui para elevar a incerteza política. “É da natureza de Bolsonaro fazer isso. O estilo político dele é esse. Pode ser até conveniente para o perfil político dele, mas, para a economia, contribui para que a incerteza fique elevada”, afirmou Veloso, lembrando que algo semelhante ocorreu nos Estados Unidos. “A incerteza americana aumentou muito com o (presidente Donald) Trump, com o uso do Twitter, as declarações, as idas e vindas na disputa comercial com a China.”

Necessidade de mudança

Para Veloso, as turbulências políticas alimentadas pelo próprio governo e pelo presidente Bolsonaro têm efeito adicional sobre a incerteza na economia, por causa de um fator estrutural. A recessão de 2014 a 2016 deixou evidente, na interpretação do pesquisador, a necessidade de uma mudança de modelo na economia brasileira. Mesmo após alguns ajustes e pequenas reformas, a gestão da economia ainda era marcada pela intervenção do Estado e pelo modelo de substituição de importações, que imperou desde a década de 1950.

O problema, segundo Veloso, é que períodos de mudança de modelo econômico, que exigem reformas mais profundas, são inerentemente marcados por uma elevação da incerteza. Mesmo que o governo fosse afinado com a equipe econômica e que as relações com o Legislativo fossem as melhores possíveis, haveria mais incerteza do que o normal.

“Quando se muda o modelo, por mais necessário e importante que isso seja, as regras mudam”, disse Veloso, dando a reforma tributária como exemplo. “Vamos mudar o sistema tributário, mas os empresários vão querer aguardar para saber qual modelo vai prevalecer. Isso tende a gerar incerteza. Nosso sistema tributário atual é péssimo, mas a gente não sabe exatamente qual modelo vai sair do Congresso. A tendência é que os empresários esperem”, afirmou o pesquisador.

Com as turbulências políticas, o período de mudança de modelo traz ainda mais incertezas. O efeito disso tudo, conforme Veloso, é o baixo crescimento, já que os investimentos ficam deprimidos. Afinal, o empresário com dúvidas sobre como será o novo sistema tributários tenderá a adiar tanto investimentos em máquinas, equipamentos ou fábricas, quanto a decisão de contratar mais empregados. Quanto mais demorado o ciclo vicioso, mais duradouros podem ser os efeitos negativos sobre a economia, atingindo diretamente a produtividade, alertou Veloso.

Para a consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), nada indica que a turbulência passará no curto prazo. Em relatório recém-divulgado, com perspectivas para o Brasil no período de 2020 a 2024, a EIU destaca que o presidente Bolsonaro (classificado como “uma figura impulsiva” no texto) enfrentará problemas de governabilidade.

Embora preveja a aprovação da reforma da Previdência, o relatório destaca o risco de disputas políticas internas espirrarem e bloquearem a agenda legislativa, incluindo reformas econômicas. Também põe em dúvida o comprometimento de Bolsonaro com as propostas do ministro Guedes, caso essas enfrentem forte resistência do Congresso e outros atores. A consultoria menciona ainda o impacto do alto nível de fragmentação do Congresso no ritmo de aprovação de reformas liberalizantes. / COLABOROU MARIANA DURÃO

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