Whitney Curtis/The New York Times
Whitney Curtis/The New York Times

CEOs seguem com remunerações estratosféricas, mesmo com as empresas arruinadas pela pandemia

Se de um lado milhões de pessoas lutam para sobreviver, muitas das companhias mais atingidas em 2020 continuam a remunerar generosamente seus executivos

David Gelles, The New York Times

25 de abril de 2021 | 18h34

A Boeing teve um ano de 2020 historicamente ruim. Seus aviões 737 Max não decolaram na maior parte do ano após dois acidentes mortais, a pandemia dizimou seus negócios e a companhia já anunciou um plano de demissão de 30 mil funcionários, tendo reportado um prejuízo de US$ 12 bilhões. Entretanto, seu CEO, David Calhoun, foi recompensado com US$ 21,1 milhões de salário.

A Norwegian Cruise Line mal sobreviveu em 2020. Com o setor de cruzeiros paralisado, a empresa registrou um prejuízo de US$ 4 bilhões e demitiu 20% da sua mão de obra. Mas isso não a impediu de mais do que dobrar a remuneração do seu CEO, Frank Del Rio, que chegou a US$ 36,4 milhões.

E na cadeia de hotéis Hilton, onde quase um quarto dos seus funcionários foi demitido, com os hotéis em todo o mundo vazios e a empresa contabilizando um prejuízo de US$ 720 milhões, o ano foi bom para o CEO, Chris Nassetta, cuja remuneração em 2020 chegou a US$ 55,9 milhões.

O coronavírus mergulhou o mundo numa crise econômica, com o número de desempregados disparando e milhões de americanos lutando para sobreviver. Mas, em muitas das empresas mais atingidas pela pandemia, os executivos foram remunerados generosamente.

As fortunas díspares dos CEOS e dos trabalhadores comuns mostram a nítida divisão num país quase chegando a um boom econômico, mas ainda afligido por uma brutal desigualdade de renda. As bolsas registram altas recordes e os ricos vêm gastando livremente, mas milhões de pessoas ainda enfrentam enormes dificuldades. Os executivos ganham fortunas, ao passo que empregados demitidos fazem fila nos bancos de alimentos.

“Muitos desses CEOs melhoraram a lucratividade da companhia despedindo trabalhadores”, afirmou a senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, que propôs a cobrança de novos impostos para os ultra ricos. “Um grupo minúsculo de pessoas que subiram na carreira é recompensado, ao passo que todos os outros foram deixados para trás”.

Para os executivos que detêm grandes participações em companhias gigantes, os ganhos foram ainda mais pronunciados. Oito dos dez indivíduos mais ricos do mundo são homens que fundaram ou dirigem empresas de tecnologia nos Estados Unidos e cada um deles ficou bilhões de dólares mais rico este ano, de acordo com a Bloomberg. 

Jeff Bezos, fundador da Amazon, cujos lucros dispararam com as pessoas presas em casa, tem uma fortuna avaliada hoje em US$ 193 bilhões. Larry Page, cofundador do Google, com um patrimônio de US$ 103 bilhões, acumulou US$ 21 milhões só nos últimos quatro meses, com os resultados da sua empresa também melhorando durante a pandemia.

E, de acordo com documentos enviados para registro na SEC (a comissão de valores mobiliários americana), alguns vêm aumentando rapidamente seu patrimônio. Chad Richison, fundador e CEO da Paycom, uma empresa de software de Oklahoma, tem um patrimônio de mais de US$ 3 bilhões e contabilizou uma remuneração de US$ 211 milhões no ano passado, com sua empresa registrando um lucro de US$ 144 milhões. John Legere, ex-CEO da T-Mobile, recebeu US$ 137,2 milhões em 2020, recompensado pela fusão com a rival Sprint.

“Criamos esta classe de centibilionários e bilionários que não tem sido boa para este país”, disse Nell Minow, vice-presidente da ValueEdge Advisors, empresa de consultoria de investimentos. 

O fosso entre a remuneração dos executivos e o salário médio do trabalhador vem crescendo há décadas. CEOs de grandes companhias hoje recebem em média 320 vezes mais do que seus funcionários, segundo o Economic Policy Institute. Em 1989, a proporção era de 61-1. De 1978 a 2019, os salários do trabalhador comum cresceram 14% e a remuneração dos CEOs aumentou 1.167%.

A pandemia só fez aumentar essas disparidades, com centenas de empresas oferecendo pacotes de bonificações para seus líderes com valores significativamente maiores do que muitos americanos conseguiriam auferir em sua vida inteira.

O conglomerado de mídia AT&T reportou um prejuízo de US$ 5,4 bilhões e cortou milhares de empregos durante todo o ano. John Stankey, o CEO, recebeu US$ 21 milhões por seu trabalho em 2020, um pouco menos do que os US$ 22,5 milhões que ganhou em 2019.

A T-Mobile anunciou que criaria novos postos de trabalho com a sua fusão com a Sprint, mas já começou a demitir. Ela contabilizou um ganho de US$ 3 bilhões em 2020. Além do valor pago a Legere, a empresa recompensou seu atual CEO, Mike Sievert com US$ 54,9 milhões.

A cadeia de hospitais Tenet Healthcare demitiu 11 mil funcionários durante a pandemia, mas registrou um lucro de US$ 399 milhões. “Os últimos 12 meses claramente foram um desafio extraordinário e uma experiência de aprendizado”, declarou o CEO da empresa, Ronald Rittenmeyer, no documento enviado para arquivo na SEC. No mesmo documento, a Tenet revelou que Rittenmeyer recebeu US$ 16,7 milhões no ano passado.

Muitas empresas defendem os pacotes de compensações para seus executivos. Em alguns casos, os CEOS receberam menos do que teriam direito. Muitos executivos do alto escalão receberam a maior parte da remuneração em ações, que podem perder valor e com frequência não podem ser transferidas para terceiros por vários anos. E, em muitas empresas, o valor das ações subiu, apesar da turbulência da economia e independente de a empresa ser lucrativa.

“No final, os CEOS acabam sendo recompensados pela maneira como respondem a essas ocorrências externas”, disse Janice Koors, consultora da Pearl Meyer. “Se você pensar nas lojas que estão fechando, nas demissões, etc., os CEOs são remunerados para tomarem essas decisões.”

Sob muitos aspectos, o papel dos líderes de empresas nunca foi tão pronunciado. Além de dirigirem suas companhias, os CEOs se tornaram vozes influentes nas discussões nacionais sobre raça, mudança climática e direito de voto.

Ao mesmo tempo, enfrentam críticas de todos os lados. O senador Mitch McConnell, republicano de Kentucky, recentemente disse às empresas que protestavam contra os esforços republicanos para reformular as leis sobre o voto para “ficarem fora da política”. Por outro lado, advogados trabalhistas vêm requerendo às companhias para cuidarem melhor dos seus empregados.

“Está na hora de as empresas deste país assumirem a sua parte numa recuperação que deve ser compartilhada por todos”, afirmou Mary Kay Henry, presidente internacional do Service Employees International Union. “Não podemos aumentar a desigualdade econômica que já existia antes da pandemia”.

Alguns investidores e grupos de governança corporativa vêm repelindo os planos de compensação para executivos. Os acionistas do Starbucks votaram no mês passado contra os planos para recompensar dois executivos do alto escalão da empresa. A resolução não era vinculativa e o CEO, Kevin Johnson, recebeu US$ 14,7 milhões em dinheiro e ações no ano passado.

O maior atrito envolvendo essas remunerações se verifica na General Electric, uma empresa que ainda cambaleia por causa de anos de má administração. Larry Culp, o CEO da companhia, recebeu US$ 73,2 milhões no ano passado e deve receber bem mais de US$ 100 milhões este ano, graças a um plano de compensação recentemente atualizado. Vários grupos de governança corporativa se manifestaram contra a remuneração paga a Culp, e os investidores se manifestarão por meio de voto sobre o assunto na assembleia anual da GE marcada para o próximo mês. / Tradução de Terezinha Martino

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