Masp/Divulgação
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Cerca de '70% das doações são de pessoas físicas', diz presidente do Masp

Heitor Martins defende gestão profissionalizada e destaca: o Masp vive hoje ‘seu maior ciclo de aquisições desde 1950’

Entrevista com

Heitor Martins, presidente do Masp

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 05h00

Assim que a covid entrou na vida dos brasileiros, Heitor Martins* e a equipe de conselheiros do Museu de Arte de São Paulo agiram rápido. Revisaram a grade de exposições, cortaram custos e começaram a atuar forte nas redes digitais. A virada funcionou. “Triplicou o número de alunos (dos cursos). Nosso Instagram chegou a 800 mil seguidores, mais do que o Getty Museum americano. O museu está sendo preparado para atender a um público anual de 2 milhões de visitantes”, relata o presidente. O recorde, em 2019, chegou perto de 730 mil pessoas. 

Para Martins, que assumiu em 2014 – com a experiência de gestor da McKinsey e de quatro anos à frente da Bienal de São Paulo –, o clima naquele badalado quarteirão junto ao Trianon é mais de acelerador do que de freios. E o exemplo maior acontece bem ali ao lado: a reforma do futuro Edifício Pietro Maria Bardi, que aumentará em 66% a área expositiva, de 10.400 m² para 17.600 m². Detalhe decisivo: o custo dessa expansão, estimado em R$ 180 milhões, “está sendo todo custeado por doações de pessoas físicas.” E 70% do total das doações “vêm dos conselheiros e da ação dos conselhos”.

Nesta conversa com Cenários, o presidente do Masp destaca a valorização do acervo. “O museu vive hoje o maior ciclo de aquisições desde os anos 1950”. Entre artistas e colecionadores, ele recebeu nos últimos anos obras de Andy Warhol, Portinari, Leonilson, Beatriz Milhazes. Ao mesmo tempo, em comodato, a B3 e o Banco Central repassaram dezenas de obras assinadas por nomes como Di Cavalcanti, Ismael Nery, Guignard e Tarsila.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que foi que o levou, no início, a se apaixonar pela arte?

Essa conexão vem de muito cedo. Minha mãe era professora de Linguística na USP, sempre olhamos muito para a arte em geral, literatura, teatro, e fomos cultivando isso. Depois me casei e fui morar com a Fernanda (Feitosa) na Argentina, onde decidimos fazer uma pós-graduação em História da Arte e ela teve a ideia de criar a SP Arte. Depois fui convidado para dirigir a Bienal e esse caso de amor foi se aprofundando. 

Você preside o Masp, tem a experiência da Bienal. Como transferiu seu know-how de gestor da McKinsey para a área artística?

Essas instituições se parecem muito com empresas. Têm uma missão, têm projetos, precisam executá-los com competência, dentro de prazos e orçamentos predefinidos. Precisam se comunicar com o público, prestar contas aos patrocinadores, aos patronos. Mas há uma diferença crucial. As empresas têm vocação para o lucro, buscam resultados econômicos. E instituições culturais, como Masp ou Bienal, devem promover a cultura, fazer grandes exposições. 

Isso de gestores assumirem os objetivos de Bienal ou Masp é coisa recente, não? 

Creio que não. Ao longo do tempo, outros empresários passaram por esses postos. O que fazemos ali é um papel de consolidar a transição de um modelo que era mais personalista. Essas instituições foram fundadas por um mecenas – no caso, o Ciccillo Matarazzo e o Assis Chateaubriand. Assim, aquelas primeiras décadas foram personalistas, criadas à imagem dos fundadores. Agora estamos fazendo a institucionalização. 

Como a gestão é compartilhada?

Temos no Masp um modelo de governança estabelecido. Uma equipe de funcionários do museu, com dois diretores seniores, outro financeiro e operacional, outro artístico – que é o Adriano Pedrosa, responsável pela programação e por tudo o que acontece lá. Acima desse grupo há uma diretoria estatutária, um fórum que eu presido, formado por sete diretores, todos voluntários e com formações distintas. E em cima desse grupo um conselho curador de 83 pessoas, fundamental pra dar estabilidade ao Masp.

Não consigo imaginar um conselho de 83 pessoas produtivo. Como você consegue “reger” esse grupo?

Eles não são um conselho de administração, têm na verdade o papel de uma assembleia. Isso não foi inventado aqui. Copiamos o modelo de grandes instituições como o Lincoln Center e o MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York. O papel desse conselho, criado em 2013, é o de escolher a diretoria estatutária e zelar pelo estatuto. Enfim, cuidar do museu no longo prazo. 

Antes disso, como eram as coisas? 

Quando o Masp foi criado havia um mecenas, que era o Chateaubriand. Ele aportava recursos próprios e fazia pessoalmente a mobilização da sociedade. Depois veio o (Pietro Maria) Bardi, e tivemos o Julio Neves com um papel forte na gestão. Mas esse modelo envelheceu, houve um isolamento do museu do resto da sociedade. Quando assumimos, propusemos a reforma do estatuto e esse conselho. Não é à toa que 70% das doações vêm das ações do conselho. 

Aí veio a pandemia, o público sumiu... Como o Masp reagiu a esse problema? 

Olha, temos lá no museu uma visão muito pragmática do mundo. Sentimos que ele ia ficar fechado muito tempo e tomamos nossas medidas. Para começar, revisamos a grade de exposições para 2020 e 2021, adaptando-a a uma nova realidade.

Criaram uma realidade online, né?

Sim, mas as exposições ganharam uma conotação diferente. A segunda coisa dessa nova fase foi um ajuste de custos, coisa rápida, e a terceira foi buscar caminhos de interação digital com o público. Com isso, em toda a pandemia triplicou o número de alunos. E usamos bem o nosso Instagram, que chega agora a mais de 800 mil seguidores. Mais do que o Getty Museum dos Estados Unidos. Somos um dos museus mais seguidos no planeta. 

E como ficou a relação com o público?

A população, de modo geral, sente a necessidade da arte. Quando temos algo de alta qualidade o público responde. O Masp vem batendo recordes de visitação. A demanda existe, é preciso facilitar o acesso. Uma campanha de enorme sucesso foi a de publicar uma obra do museu toda semana e sugerir que as pessoas desenhem essa obra e a submetam ao Masp. 

O que vai mudar com o segundo prédio, no outro lado da rua?

Os dois prédios serão batizados de Lina Bo Bardi, o atual, e Pietro Bardi, o novo. A área expositiva crescerá 66%, de 10.485 m² para 17.680 m². O novo prédio também abrigará bilheteria, restaurante, loja, reserva técnica, salas de aula e laboratório de restauro. Teremos, como São Paulo merece, uma instituição que se assemelha ao MoMA, ao Metropolitan e ao New Museum, todos de Nova York.

Você se referiu acima a uma nova gestão. No que ela consiste?

Numa área que no País costuma ser terceirizada, o Masp optou por formar sua própria equipe. Contamos com 16 curadores e temos uma editora própria – talvez a maior produtora de livros de arte do País, com mais de 50 livros publicados desde 2017. Formamos também parcerias tanto com instituições nacionais quanto de fora. Itaú Cultural, Casa de Vidro, Sesc, MAM Rio, Casa Roberto Marinho. Lá fora, museus como a Tate, de Londres, o Contemporary Art de Chicago. Nossa escola ofereceu mais de 30 cursos a 2.200 alunos.

Você também mencionou crescimento do acervo. Pode dar exemplos?

Vivemos o maior ciclo de aquisições desde os anos 1950. Nos últimos anos recebemos, de artistas e colecionadores, obras de Andy Warhol, Portinari, Leonilson, Beatriz Milhazes, entre outros. E comodatos significativos, da B3 e do Banco Central. Com obras de Alberto Guignard, Anita Malfatti, Benedito Calixto, Di Cavalcanti, Ismael Nery, Tarsila do Amaral, José Pancetti

O Masp conta com algum incentivo governamental?

Recebemos da Prefeitura paulistana uma subvenção, 5% do orçamento. E uns 45% dele chegam via Lei Rouanet. Os outros 50% vem de doações e da renda da própria operação. A Lei Rouanet é muito importante pro Masp. 

Todos defendem essa lei no meio cultural. Por que há sempre alguém no governo querendo mexer com ela?

Não entendo também, porque se trata de uma parcela muito pequena do orçamento da União, creio que é menos de R$ 2 bilhões. Ao mesmo tempo, ela é a principal fonte de financiamento da nossa cultura. Permite uma distribuição pulverizada dos recursos e decisões que não são centralizadas.

O brasileiro tem fama de resistir a doações ou ainda a apoiar a cultura. Você concorda?

O que a experiência nos mostra é que, quando há bons projetos e credibilidade, a sociedade apoia. Temos um grupo de conselheiros e patronos que trazem 25% da receita do museu, são mais de R$ 7 milhões por ano. A expansão do Masp, estimada em R$ 180 milhões, está sendo inteiramente custeada por doações de pessoas físicas. Além dessas captações, criamos nos EUA a fundação Friends of Masp, para captar recursos. 

Que tipo de obra você vê lá fora, em outros museus, e pensa “Ah, isso eu queria ter”?

Olha, eu acho que a gente está criando aqui um museu que não deixa nada a desejar aos grandes internacionais. Quando fizemos a exposição Histórias Afro-Atlânticas, em 2018, o The New York Times a elegeu uma das melhores do ano. Essa foi a primeira vez, desde 1930, em que entrou um nome não americano nessa lista do jornal. E agora ela vai ser exibida no Houston Museum. É incrível a gente imaginar que em Houston, ou Washington, na National Gallery, vão apresentar uma exposição concebida no Brasil.

*QUEM É: ADMINISTRADOR PELA FGV-SP, PRESIDIU A BIENAL DE SP (2009-2013). SÓCIO CONSULTOR DA MCKINSEY, ATUA NOS CONSELHOS DO INSPER, DA PINACOTECA E DO INSTITUTO TOMIE OHTAKE.

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