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Cervejarias vivem nova onda de fusões

Desta vez, no entanto, especialistas avaliam que o rigor dos órgãos antitruste será maior, o que tornará mais complexa a consolidação

DAVID GELLES , STEPHANIE STROM , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h03

Quando a Anheuser-Busch InBev, dona da Ambev no Brasil, começou as transações para assumir o controle total da fabricante de cerveja mexicana Modelo, achou que o negócio seria uma brincadeira. A maior cervejaria do mundo já controlava a Modelo com uma participação de 50%, e a consolidação de sua condição de proprietária pouco mudaria no panorama da concorrência.

Mas as autoridades antitruste dos EUA não concordaram, temendo que a companhia, uma vez ampliada, elevaria o preço de marcas populares como a Corona. Somente depois de um ano de negociações e promessas para completar penosas vendas de subsidiárias, no ano passado, a Anheuser-Busch InBev obteve a aprovação do acordo de US$ 20 bilhões.

Agora, enquanto o setor global de cervejas se vê às voltas com uma nova rodada de possível consolidação, o episódio lança dúvidas sobre as aspirações da criação de um império dos últimos gigantes do setor.

No domingo, a Heineken informou que recusou uma oferta da SABMiller, a segunda maior companhia de cervejas do mundo. E, embora o acordo talvez nunca se concretize, a tentativa da SABMiller de se expandir mediante uma importante aquisição poderá gerar nova série de negociações. "Há espaço para outros mega acordos", disse Marc Levit, do Demeter Group, uma empresa de consultoria no setor de bebidas. "Faz muito sentido para os que procuram crescer internacionalmente, e será inevitável que aconteça."

A próxima rodada de negociações no setor de cervejas talvez não seja tão fácil quanto a última. Após décadas de consolidações, as cervejarias que querem se expandir por meio de mega negócios defrontam-se com inúmeros obstáculos.

As autoridades reguladoras desconfiam das grandes companhias que se tornam maiores ainda. A AB InBev controla cerca de 21% da parcela de mercado global de cervejas. Se a SABMiller adquirisse a Heineken, também dominaria cerca de 21%. E a maioria dos alvos que restam, como a Heineken, é controlada por famílias que relutam em vender. Entretanto, apesar dessas dificuldades, os analistas acreditam que tanto a InBev quanto a SABMiller tentarão levar adiante novos negócios nos próximos meses e anos.

"Com os juros mais baixos de que se tem notícia e a redução das tendências de crescimento orgânico em muitos mercados, acreditamos que as condições estão propícias para um aumento das fusões e aquisições", disse Simon Hales, analista do setor de bebidas da Barclays, a respeito do setor de cervejas numa nota em meados deste ano.

Além disso, os titãs da cerveja, ansiosos por crescer, também se deparam com a mudança de hábitos dos consumidores em alguns dos seus principais mercados, como os EUA. "Os americanos estão vivendo mais, e à medida que nos tornamos mais velhos, passamos a beber mais vinho", afirmou Harry Balzer, observador das tendências na área da alimentação e vice-presidente do NPD Group.

Consolidação. A maior fusão, a mais poderosa, seria uma combinação em potencial da InBev e da SABMiller. Embora a InBev tenha estudado a possibilidade de concluir o negócio no passado, neste momento não está trabalhando com a possibilidade de uma oferta pela SABMiller, segundo pessoas a par dos planos da companhia. "Nos últimos quatro anos, analistas, inventores e comentaristas do setor destacaram que a oferta pela SABMiller encerra provavelmente um período de mais de uma década de consolidações na indústria cervejeira", disse Hales.

Mas quaisquer que sejam as dificuldades que a InBev enfrentou em seu negócio com a Modelo, serão de pequena monta em comparação com a resistência que enfrentará ao tentar assumir o controle da SABMiller. No mínimo, a InBev, que fabrica a Budweiser e a Bud Light, deverá desistir da Miller Lite, a segunda maior marca de cerveja leve nos EUA depois da Bud Light. E, com a superposição na Europa e em outros mercados, a InBev muito provavelmente também teria de vender marcas regionais no valor de bilhões de dólares.

Por mais assustador que possa parecer, a InBev é conhecida ainda por obter lucros impressionantes com as companhias que ela adquire. Controlada pelo grupo brasileiro por trás da 3G Capital - que também controla a Heinz e o Burger King -, a InBev tem fama de eficiência no corte de custos, e os analistas acreditam que, mesmo depois de vender marcas como a Miller Lite, ela poderá lucrar com o negócio.

Se a combinação da InBev e da SABMiller ocorrer, criará uma companhia provavelmente avaliada em mais de US$ 200 bilhões. Também proporcionará uma oportunidade para outros compradores, principalmente a Molson Coors, arrebatarem marcas lucrativas como a Miller Lite. A Carlsberg, outra cervejaria independente de porte médio, poderia estar bem posicionada para adquirir qualquer subsidiária vendida na Europa.

Portanto, ainda há espaço para o crescimento das principais marcas, mesmo que elas percam parte de sua participação no mercado americano. E é neste contexto - a fome de crescimento, a mudança dos hábitos dos consumidores, e as restrições impostas pela regulamentação - que as grandes cervejarias, incluindo a AB InBev e a SABMiller, armarão seus próximos lances. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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