Chávez anuncia guerra contra câmbio paralelo

Presidente venezuelano promete mais inspeções em casas de câmbio e ameaça prender os diretores dessas instituições

Gabriel Bueno, da Agência Estado,

21 de maio de 2010 | 10h15

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, qualificou seus esforços para acabar com o câmbio paralelo da moeda local como uma "guerra" contra os venezuelanos ricos do mundo financeiro. Chávez prometeu mais ações em casas de câmbio e ameaçou prender os diretores dessas instituições.

Esta é a grande ofensiva contra a burguesia venezuelana", afirmou Chávez na noite de quinta-feira, em uma reunião de gabinete televisionada. "Nós estamos em guerra."

O governo realizou inspeções ou mesmo interveio completamente em um terço das mais de 100 casa de câmbio da Venezuela, que por anos realizaram trocas de moedas no mercado paralelo. Vários executivos dessas instituições foram presos nos últimos dias e estão sendo processados.

A cotação do bolívar no mercado paralelo tem subido desde 2003, quando Chávez instituiu restrições à compra de moedas estrangeiras. Ainda que não fosse legal, o governo na prática tolerou durante anos que o comércio paralelo fosse realizado, sem realizar grandes operações contra isso.

O panorama mudou na semana passada, após parlamentares aprovarem uma lei para endurecer as regras. Com a lei aprovada, o governo declarou na terça-feira o mercado paralelo como uma coisa do passado e interrompeu qualquer transação nesse setor por pelo menos 15 dias.

Quando o mercado reabrir, ele será totalmente regulado pelo Banco Central e as empresas de compra e venda de moeda não poderão atuar.

Um dos objetivos primários do governo com as novas restrições é interromper a desvalorização de 25% do bolívar este ano. A moeda mais fraca, que recentemente era cotada a 8 bolívares por US$ 1 no mercado paralelo, elevou a inflação ao consumidor para até 30% ao ano, o maior índice da região. Com isso, a economia da Venezuela, que já enfrenta uma recessão, sofre mais pressões.

Chávez culpa as casas de câmbio pelos temores relativos ao bolívar, afirmando que elas estão se aproveitando do mercado paralelo para aumentar seus lucros. Ao acabar com as casas de câmbio e com a "especulação", o presidente afirma que o bolívar vai se valorizar diante do dólar. Os críticos, porém, dizem que, com a restrição à moeda estrangeira, o bolívar pode se enfraquecer ainda mais e, consequentemente, a economia se contrairá ainda mais rápido.

A Venezuela já tem dois câmbios oficiais. Um de 4,3 bolívares por US$ 1, para importações, e outro de 2,6 bolívares por US$ 1, para produtos vitais como medicamentos.

Com o Banco Central tomando o controle do mercado paralelo, na opinião dos críticos, na prática será criado um terceiro câmbio oficial.

O Banco Central afirmou que pretende criar uma banda cambial, para esse mercado até então paralelo. O presidente do BC, Nelson Merentes, disse na quinta-feira que o valor do bolívar estará atrelado aos preços da dívida soberana da Venezuela.

Também na quinta-feira, Chávez indicou que a banda não deve passar da taxa oficial de 4,3 bolívares para US$ 1.

Existe o temor de que as pessoas e companhias não consigam obter dólares em nenhuma das três cotações oficiais. Com isso, as pessoas poderiam se voltar para um quarto mercado de câmbio: o paralelo. Chávez já advertiu para que a população não procure esse meio para conseguir dólares.

Ainda na quinta-feira, Chávez disse que gostaria que todas as casas de câmbio, bancos privados e firmas financeiras do país parassem de funcionar, qualificando-os como uma "assembleia das bruxas". As informações são da Dow Jones.

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