Chávez diz que não quer entrar no ´velho Mercosul´

Presidente da Venezuela defendeu integração sul-americana e disse que o Governo dos EUA "dirige uma conspiração permanente" contra Caracas

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 12h49

A Venezuela quer entrar em um "novo Mercosul", mas se não houver "vontade de mudança" para isso, também não está muito interessada no velho, disse o presidente Hugo Chávez em entrevista exclusiva à agência Efe.O presidente afirmou que a Venezuela "não está desesperada" para aderir ao Mercosul, defendeu uma integração sul-americana baseada no interesse dos povos e disse que o Governo dos Estados Unidos "dirige uma conspiração permanente" contra Caracas.Chávez, que deu as declarações durante uma visita a Barins, sua terra natal, atribuiu a "uma minoria", manipulada, segundo ele, pelos Estados Unidos e pela oligarquia venezuelana, os protestos em relação à não renovação da licença de transmissão em rede aberta do canal privado Radio Caracas Televisión (RCTV).O fim das transmissões da RCTV provocou uma grande polêmica, e suscitou um aumento das críticas além das fronteiras do país, inclusive do Senado brasileiro. Assim como o do Paraguai, o Congresso do país ainda não ratificou o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul. Perguntado sobre o assunto, Chávez disse que o caso RCTV "não vai dificultar nada"."Alguns querem utilizá-lo para, talvez, tentar justificar outras posições, que são muito frágeis. (... É o que fazem) a direita sul-americana, as elites do Brasil e de outros países, da Argentina, do Paraguai, do Uruguai", disse, mencionando os países que são atualmente membros plenos do Mercosul. "Nunca viram com bons olhos nossa incorporação a um novo Mercosul. Surgiram vozes tentando utilizar esse caso", afirmou.De acordo com o presidente venezuelano, "a direita, as oligarquias sul-americanas não querem a voz da Venezuela, que é a voz dos povos, dos excluídos, a voz que procura um processo de integração novo (...), rumo à justiça social". "Retiraremos a solicitação" se houver uma recusa a ratificar a adesão da Venezuela ao Mercosul, afirmou.AlternativaChávez lembrou que a Venezuela tem um projeto, a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba). "Sempre haverá diferentes caminhos, velocidades, dimensões" na integração sul-americana "que é um processo que está recomeçando". "Se não fizermos nossos povos se apaixonarem pela idéia da integração, nunca haverá integração real", acrescentou.Chávez também avaliou na entrevista a relação de Caracas com Washington. Esta, disse, só podem melhorar "se o Governo dos Estados Unidos entender que a Venezuela é um país livre e soberano". "Não se pode nem dialogar com esse Governo (...). Esperemos que outro saia das próximas eleições", em 2008, afirmou o presidente venezuelano, que atribui à Administração de George W. Bush planos para desestabilizar seu país e, inclusive, para o matar.O líder bolivariano espera, "pelo menos", que seja possível voltar à situação da época do ex-presidente Bill Clinton. "Havia diálogo, se discutia, se conversava (...). Havia respeito", afirmou. "Não acredito que tenha a ver com posições políticas", disse, lembrando que os democratas apoiaram uma condenação no Congresso americano relativa a "esse processo interno tão rotineiro, superdimensionado", em referência ao caso RCTV.RelaçõesChávez, que disse "dar muita importância" à relação pessoal entre governantes, comentou que melhoraram as relações venezuelanas com o Peru e com seu presidente, Alan García, que sofreram uma crise no passado. "Estão melhor, principalmente depois que nos vimos pela primeira vez em nossa vida. Conversamos alguns minutos, e decidimos tomar o caminho que nunca deveria ter sido perdido: o do respeito", disse. "Respeito é a palavra. (...) Nós queremos ter as melhores relações com todos os países do mundo", afirmou.Chávez também disse que as relações da Venezuela com o México, que se deterioraram a ponto de chegar ao nível da retirada de embaixadores, "talvez" esteja mais próxima atualmente. O presidente venezuelano afirmou que termina "sendo sempre" - ou "quase sempre" - acusado por crises diplomáticas, quando a situação real "é ao contrário". "Temos sido (...) ofendidos". Isto, de acordo com Chávez, "é produto de um manual, produto de assessores que são quase todos americanos"."Dizem a candidatos da direita destes países, para tirar votos de Ollanta (o peruano Ollanta Humala) e de outros: Vamos associá-lo a Chávez, e continuar satanizando Chávez para amedrontar parte do povo deste país e ganhar as eleições", disse. O presidente afirmou ainda que as relações da Venezuela com a União Européia (UE) "deveriam ser melhores", mas "há muitas incompreensões".DesconfiançaA agência Efe perguntou a Chávez sobre uma eventual compra de submarinos russos em sua viagem a Moscou, na próxima semana. O presidente respondeu que "é possível", mas não acredita que isso aconteça "agora". "Estamos em processo de estudo. O assunto de fundo são os Estados Unidos, outra vez, seus planos contra a Venezuela e a pretensão de nos desarmar", disse."Eu conheço o monstro de dentro. Eu venho de lá", comentou, em alusão aos anos que passou no Exército na época em que, segundo ele, viu os americanos "mandando" na Venezuela. "Agora estamos montando um sistema de defesa dos melhores do mundo, com a Rússia, Belarus, a China", disse.A Venezuela está "potencializando" o poder aéreo, terrestre e marítimo, e "não seria estranho que comprássemos alguns submarinos", acrescentou. Após sua visita a Moscou, que se deve a um convite do presidente Vladimir Putin para assistir a corridas de cavalos, Chávez afirmou que "talvez" vá a Minsk (capital de Belarus), e depois a Teerã (capital do Irã), e possivelmente ainda a "um quarto país", que não especificou.Também ressaltou que, na Rússia, visitará uma fábrica de helicópteros. "Vamos montar (na Venezuela) um centro de treinamento de helicópteros e um centro de manutenção para helicópteros russos".

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