Chegamos ao preço ideal do petróleo?

Será que o mundo encontrou o "preço ideal" do petróleo a US$ 70 o barril: baixo o bastante para os consumidores, alto o bastante para os produtores? Para os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que se reuniram ontem em Viena, esse preço parece correto. Para os consumidores, o alto preço torna competitivo o investimento em combustíveis renováveis e ajuda a desenvolver fontes de petróleo de alto custo de exploração, como reservas de águas profundas.

Jad Mouawad*, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

Encontrar o equilíbrio no preço sempre foi um dos principais pontos de atrito nas relações entre produtores e consumidores. Durante a década de 90, esse preço ficou perto dos US$ 25 o barril. Mas, nos últimos anos, o consenso ruiu. A preocupação com o suprimento, o crescimento da demanda na Ásia e o temor de escassez futura, além da opção pelo investimento em commodities, são fatores que impulsionaram o preço até alturas recordes.

Mas, após o colapso da economia global, o mundo está novamente procurando um novo preço equilibrado. Os países produtores precisam de preços altos para financiar os orçamentos de seus governos e investir em exploração, enquanto os consumidores querem preços baixos para não descarrilar o crescimento econômico.

Em dezembro, depois que os mercados financeiros despencaram, o preço do petróleo caiu até US$ 33 o barril e muitos produtores temeram que um período prolongado de preços baixos se seguisse. Desde então, a Opep tem agido de acordo com regras rigorosas: cortar suprimentos, manter a disciplina e torcer para que a recuperação global eleve a demanda.

Apesar da recessão, a estratégia da Opep funcionou. Os produtores conseguiram elevar outra vez os preços, que aumentaram cerca de 60% este ano. A estratégia foi liderada pela Arábia Saudita, país com maior capacidade produtora. Assumindo a liderança na reunião da Opep em Viena, a Arábia Saudita disse não ver motivo para reduzir a produção no momento, temendo prejudicar a recuperação econômica.

O cartel deve manter a produção inalterada. "Estamos satisfeitos com o preço atual e queremos mantê-lo por algum tempo", disse o ministro saudita do petróleo, Ali al-Naimi, antes da reunião. "Não temos motivo para preocupação."

No início do ano, a Arábia Saudita disse considerar US$ 75 pelo barril um preço justo.

Para os consumidores, o baixo preço do petróleo seria uma bênção ambígua. A conseqüência óbvia seria o preço menor da gasolina, mas também há o risco de questionamentos dos investimentos em combustíveis alternativos e energia renovável que o governo de Barack Obama e a União Europeia encorajam.

Preços mais altos são necessários também para o desenvolvimento da exploração de fontes pouco convencionais de petróleo, em lugares como o Ártico e as profundezas oceânicas. Como resultado, poucas vozes pedem à Opep que aumente os suprimentos para reduzir os preços.

A gasolina é vendida hoje nos Estados Unidos por US$ 2,57 o galão, segundo a Associação Automobilística Americana.

Em Viena, muitos delegados sabem que a situação atual pode não durar. Mesmo quando as perspectivas de recuperação começam a tomar forma, continua havendo considerável incerteza a respeito da direção seguida pelo preço do petróleo. Nos últimos meses, os mercados de commodities e ações se valorizaram conforme os investidores apostaram numa recuperação mais rápida. Mas alguns analistas alertam que o equilíbrio foi erguido sobre bases instáveis.

"A explicação para o preço do petróleo entre US$ 65 e US$ 75 por barril não está relacionada com o petróleo, mas com a expectativa da recuperação da economia global", disse Edward Morse, chefe de Pesquisas Econômicas da LCM Commodities. "Existe o risco de que as velas fiquem sem vento no caso das commodities e das ações, e uma venda generalizada pode derrubar o preço do petróleo para menos de US$ 60 o barril."

Morse destaca que o petróleo é hoje influenciado por duas forças poderosas. Por um lado, o apetite dos investidores por commodities, entre elas o petróleo, continua forte, e isso pode evitar que os preços caiam demais. Por outro, a Opep reserva pelo menos 6 milhões de barris diários em capacidade produtiva ociosa - nível que não é visto desde o fim da década de 90 -, que pode ser ativada com rapidez caso haja aumento na demanda.

*Jad Mouawad é jornalista

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