Chegar chegando, Ilan?

Alguns analistas acreditam que ele poderia reduzir os juros já na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no mês de julho

FÁBIO ALVES, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2016 | 05h00

Logo que Ilan Goldfajn foi confirmado para presidir o Banco Central, muitos analistas apostaram que ele ia “chegar chegando” e cortar agressivamente a taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano. Alguns acreditam que ele poderia reduzir os juros já na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no mês de julho. Até porque a sabatina dele no Senado foi adiada para a terça-feira da semana que vem, provavelmente impedindo a participação de Goldfajn no próximo encontro do Copom, marcado para os dias 7 e 8 de junho. Diante da contração da economia, há quem acredite que, sob o comando de Goldfajn, o BC irá reduzir os juros básicos em dois pontos porcentuais até o fim do ano. E para o fim de 2017, os mais otimistas do mercado estimam a taxa caindo até 9%. Nos últimos dias, todavia, índices de preços mais salgados do que o esperado, estimativas piores para a inflação oficial e a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed) deve elevar os juros americanos ao menos duas vezes neste ano injetaram uma dose de cautela no mercado, que agora começa a desconfiar que Goldfajn vai “chegar e... aguardar”.

Duas forças são preponderantes no momento para as apostas em relação à trajetória dos juros básicos neste ano e no próximo: a recessão – ou um maior hiato do produto, como os economistas preferem dizer – e a contribuição da política fiscal para conter a demanda, permitindo assim uma desaceleração maior da inflação. Ontem, o IBGE divulgou a contração de 0,3% da economia brasileira no primeiro trimestre deste ano, ampliando o hiato do produto. Isso, por si só, já permitiria uma redução dos juros básicos. Mas quanto cai e em qual velocidade? A resposta dependerá da aprovação de medidas fiscais e de reformas, como a da Previdência, no Congresso. Sem essas medidas, as estimativas para a inflação ficam mais resistentes e a Selic cai menos. No curto prazo, é razoável esperar a aprovação da desvinculação de receitas da União (DRU), mas somente isso não será suficiente para conter os gastos públicos. Para tanto, é preciso também passar no Congresso a emenda constitucional (PEC) que limita o crescimento das despesas do governo.

Seria correr um risco, em termos de tornar mais difícil a batalha de controlar as expectativas inflacionárias, começar a cortar os juros antes da aprovação da PEC que fixa um teto ao crescimento do gasto público, o que sinalizaria para o mercado que a política fiscal será mais apertada daqui em diante. Esse, porém, não será o único senão para Goldfajn cortar os juros mais cedo do que tarde. A inflação recente, especialmente em razão da alta mais forte observada nos preços dos alimentos, tem se mostrado resistente. Os índices têm ficado acima do esperado. Só na virada do segundo trimestre para o terceiro é que a sazonalidade favorecerá a inflação, que perderá seu ímpeto com mais força.

Além disso, quando os analistas fizeram suas apostas mais otimistas para o corte da Selic, o mercado ainda acreditava que o Fed iria elevar os juros americanos apenas uma vez em 2016, se muito. Nos últimos dias, porém, os dirigentes do BC americano adotaram um tom mais duro, levando o mercado a crer que haverá, no mínimo, duas altas de juros neste ano. Se esse cenário se concretizar, o diferencial de juros americano e brasileiro vai cair bastante, diminuindo a atratividade do capital estrangeiro para aplicações no Brasil e aumentando a migração de dólares de volta aos EUA. Menor entrada de dólares no País provocaria uma alta da moeda americana frente ao real, com efeito importante sobre a inflação. Ou seja, o quanto Goldfajn poderá cortar os juros já não depende mais só dele, ou do Brasil.

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