Aly Song/Reuters
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Cheiro de queimado

Há perigos econômicos pela alta insana da Bolsa chinesa, mas prejuízo de um crash ainda pode ser administrado

O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2015 | 02h03

A desaceleração do mercado imobiliário chinês tem sido cruel com os fabricantes de pisos e assoalhos. Depois de passar grande parte da última década crescendo a taxas de dois dígitos, as vendas desabaram. A Kemian Wood Industry, que vivia se vangloriando da qualidade de seus pisos de madeira plástica, adotou medidas radicais para lidar com a crise. Transferiu o foco de suas atividades para os games online e mudou de nome. Uma vez rebatizada como Zeus Entertainment, no início de março, suas ações em pouco tempo dobraram de preço. Na semana passada, porém, o plano de transição da empresa topou com um obstáculo. Segundo a emissora de TV estatal CCTV, a empresa é mais uma das diversas companhias que têm "fabricado assuntos e inventado histórias" para inflar o preço de suas ações.

A Zeus Entertainment nega a acusação. Mas a tendência no mercado como um todo é nítida. Pelo menos 80 empresas listadas nas bolsas chinesas mudaram de nome nos cinco primeiros meses deste ano. Um grupo hoteleiro transformou-se num negócio de trens de alta velocidade, uma fabricante de fogos de artifício passou a trabalhar com empréstimos peer-to-peer e uma especialista em cerâmica se tornou um grupo de energia limpa. A reinvenção dessas empresas como companhias de alta tecnologia parece ter menos a ver com o reequilíbrio gradual da economia chinesa do que com a loucura que se instaurou no mercado de ações na China.

O índice Shenzhen Composite, em que entram inúmeras empresas de tecnologia quase triplicou ao longo do último ano. A ebulição é ainda maior na bolsa de startups ChiNext, cuja valorização atual corresponde a 140 vezes o faturamento anual do ano passado. Um múltiplo de 50 já seria extremamente otimista até para a mais avançada das empresas de tecnologia. A ChiNext deveria ser a resposta da China à Nasdaq. E ela de fato lembra muito a bolsa eletrônica dos Estados Unidos - tal como ela era em 1999, pouco antes de a bolha pontocom estourar. Não há como dizer quando o frenesi chinês vai acabar, mas uma correção violenta parece inevitável.

Como em qualquer mercado sobrevalorizado, discute-se muito se as ações chinesas estão ou não excessivamente valorizadas. O índice preço/lucro (PL) médio da Bolsa de Valores de Xangai, que abriga as maiores empresas do país, é 23 - um patamar elevado, mas não muito mais alto do que o do índice S&P 500 americano. Esse retrato, no entanto, contém uma distorção. Os bancos, que são o setor com maior peso na Bolsa de Xangai, ficaram de fora de boa parte da alta explosiva que se observa hoje no mercado chinês. (O que é um sinal de advertência, já que as ações dos bancos tendem a seguir o comportamento da economia como um todo.) Considerando-se a mediana das ações de Xangai, chega-se a um PL de 75. Chen Jiahe, da corretora Cinda Securities, calcula que quase 85% das empresas listadas apresentam valorizações mais altas hoje do que no ápice da bolha que se formou nas bolsas chinesas em 2007 - e que terminou com as ações em queda livre. Os investidores globais, por sua vez, não se deixam contaminar pela euforia: as ações de empresas listadas tanto em Hong Kong como em Xangai agora estão 30% mais caras nesta última.

Exemplos de excesso. As ações de uma empresa de ração para animais domésticos é negociada a 221 vezes seu faturamento, uma fabricante de saunas a 285 vezes e uma fabricante de ventiladores a 732 vezes. Não é de hoje que as ações chinesas guardam uma relação apenas tênue com a realidade, mas a alta atual atingiu extremos nunca vistos. O crescimento anualizado do PIB da China caiu para 7% no primeiro trimestre, o porcentual mais baixo desde 2009. E dados mensais indicam que a desaceleração se aprofundou no segundo trimestre. Mas as ações continuam avançando. Quase 8 milhões de contas em corretoras de valores foram abertas só no primeiro trimestre de 2015. A mudança para uma política de afrouxamento monetário e estímulo fiscal - e a expectativa de que venham mais medidas nesse sentido - ajuda a explicar por que teve início essa valorização acentuada. Mas, quanto mais tempo dura, mais ela se parece com exuberância irracional.

Muitos acreditam que por trás da escalada das ações está o governo chinês, e que as autoridades econômicas poderiam reduzi-la à metade facilmente - como se estivessem apertando um botão. A verdade é que até o Partido Comunista, por mais poderoso que seja, enfrenta dificuldades para pôr o mercado de ações no rumo desejado.

A imprensa oficial, de fato, estimulou a compra de ações baratas no início da alta, mas fazia anos que o governo vinha tentando, sem sucesso, dar um pouco de vida a um mercado que até então se mostrava entorpecido: os impostos sobre transações com ações foram reduzidos e as novas aberturas de capital foram congeladas, a fim de limitar a oferta de ações.

Nas últimas semanas, a balança da retórica oficial começou a virar contra o mercado, chamando a atenção para os riscos crescentes enfrentados pelos investidores. A reportagem da CCTV sobre empresas que estariam "inventando histórias" foi ao ar pouco depois de a comissão de valores mobiliários do país ter anunciado que estava tomando medidas contra manipulações do mercado.

Se a bolha de fato estourar, isso trará prejuízos para a economia chinesa. A alavancagem tem desempenhado papel importante na alta das ações: o financiamento de margem para compra de ações quintuplicou ao longo do ano passado, chegando a mais de US$ 325 bilhões. O endividamento também entrou no mercado por outros canais, como os "fundos guarda-chuva", que permitiam aos bancos conceder empréstimos a investidores ricos sem que isso tivesse efeito sobre seus balanços patrimoniais. O Credit Suisse calcula que entre 6% e 9% da capitalização de mercado na China seja financiada por crédito, quase cinco vezes a média observada nos países ricos.

A existência de uma alavancagem tão grande significa que uma eventual correção será bastante violenta, com os investidores correndo para quitar seus empréstimos. Isso é território novo para a China.

Apesar disso, o prejuízo imediato de um crash deve ser administrável. A capitalização free-float do mercado de ações chinês representa apenas cerca de 40% do PIB do país; em países ricos o índice normalmente é superior a 100%. Além do mais, a alta das ações tem sido menos benéfica à economia do que se costuma imaginar. A queda contínua no preço do varejo indica que o efeito patrimonial da alta é pequeno. Algumas famílias chinesas talvez tenham até deixado de ir às compras para investir mais em ações. O corolário é que a eventual queda do mercado não terá necessariamente, no curto prazo, consequências funestas.

As repercussões de longo prazo da euforia são mais preocupantes. Depois do crash de 2007, os investidores se mantiveram afastados das bolsas por alguns anos. Eram pouquíssimas as emissões de ações. As empresas tinham poucas alternativas para se financiar, a não ser recorrer aos bancos, e essa é uma das razões do nível do endividamento chinês ter chegado a mais de 250% hoje. Muitos esperavam que a atual escalada das ações deixaria o sistema financeiro da China em melhores condições, permitindo que as empresas obtivessem recursos com emissões e reduzissem sua dependência dos empréstimos. Isso está apenas começando: apesar de mais frequentes este ano, as emissões ainda representam apenas 4% do financiamento corporativo. Se as ações entrarem em queda, isso teria efeitos prejudiciais para essa mudança.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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