Cheiro de ralo

A recuperação da economia pode não ser bastante para afastar o eleitor de promessas populistas

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2017 | 03h00

Aconteceu de novo. O IBGE anunciou que o PIB do terceiro trimestre subiu apenas 0,1% em relação ao trimestre anterior, o que inspirou lamúrias de analistas apressados, que consideraram o número muito baixo. Da mesma forma, o aumento de apenas 0,2% na produção industrial de outubro, em relação a setembro, causou desapontamento. Ocorre, no entanto, que o órgão governamental dá destaque às informações filtradas de influências sazonais. Não há nada de errado nisso, até porque esse é o padrão em vários países. Mas é preciso ter cuidado nas interpretações.

Não é fácil de medir o PIB ou a produção industrial, ainda mais considerando os recursos orçamentários do IBGE. Se temos ainda estatísticas confiáveis, isso se deve apenas à qualidade de seus técnicos. Como em toda apuração deste tipo, há sempre um erro de medida. O número bruto é necessariamente uma aproximação, geralmente baseada numa amostra. O passo seguinte é deflacionar. Também não é simples, já que existe uma miríade de tecnicalidades na tentativa de livrar a série das influências da variação de preços. A dessazonalização também é complicada. A escolha do modelo utilizado e da janela de tempo de referência altera o resultado final. É obvio que isso aumenta a instabilidade do indicador e exige interpretação menos taxativa.

Mas como ficaram os dados brutos, antes de serem submetidos ao expurgo de flutuações sazonais? O PIB do terceiro trimestre subiu 2,03% em relação ao trimestre anterior. Nada mal. Trata-se do maior crescimento trimestral desde o segundo trimestre de 2013. O consumo das famílias, por sua vez, aumentou ainda mais: 3,1%. Também a produção industrial aumentou mais do que as manchetes sugerem. Em outubro, a indústria se expandiu 2,3% em relação a setembro, sem ajuste sazonal. Em relação a outubro do ano passado, o crescimento foi de 5,3%, o maior desde abril de 2013. Isso é importante porque a tradução em termos de sensação de bem-estar social – variável fundamental para explicar o voto do eleitor em 2018 – tem relação com a evolução dos acontecimentos um dia após o outro. Ninguém faz uso de modelos econométricos de dessazonalização para avaliar se está se sentindo melhor ou pior.

O crescimento está aí. Ele vai acelerar em 2018? A resposta é fácil: vai. Há claros indícios de que o crédito se recupera. As concessões para pessoas físicas cresceram 6% nos 12 meses até outubro e podem fechar o ano com aumento próximo a 10%. Os juros médios, também para pessoas físicas, recuaram de 43% em outubro de 2016 para 34% em outubro de 2017. Cairão mais no rastro dos recentes cortes da Selic. O spread bancário também se reduziu neste período: de 33,7% para 27,6%. O prazo médio está aumentando, o que ajuda a reduzir o valor das prestações. Para financiamento de veículos, por exemplo, o prazo médio passou de 14,5 meses para 15,8 meses. Mais crédito, amparado pelo crescimento da massa de salários, tem tudo para acelerar o crescimento.

Este crescimento será suficiente para alterar o humor do eleitor médio e coibir a tentação de votar em candidatos populistas? Essa é a pergunta difícil. Pode-se argumentar que a sensação de bem-estar funciona como um monjolo de água. É preciso esperar um tempo para que boas notícias se acumulem e alterem, finalmente, o humor do eleitor. Por enquanto, a melhora dos indicadores não se reflete na percepção das pessoas. A FGV pesquisa a inflação esperada pelos consumidores para os próximos 12 meses. A expectativa ainda é alta, 5,9%, muito acima da previsão dos economistas ouvidos pelo Banco Central (3,97%). O pessimismo ainda prevalece. A degradação da classe política introduziu um poderoso elemento para o desalento e para a revolta do eleitor. A recuperação da economia pode não ser bastante para afastá-lo de promessas populistas. O cheiro de ralo que vem de Brasília dificulta tudo.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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