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Cheque nada especial

Há que se investir de forma massiva em programas de educação financeira

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 05h00

Carregar na carteira um talão de cheques estampado com a palavra especial era, até meados dos anos 90, um sinal de status. O critério de definição de especial era muito mais o patrimônio, um pouco a renda, bastante a credibilidade – e, não pouco frequente, ter a sorte de ter um amigo gerente de banco. Eram tempos em que o crédito pessoal era muito escasso e ainda mais caro do que nos tempos atuais. Mas o cheque especial não era para ser usado. Era um instrumento de diferenciação, um serviço premium, uma conveniência que indicava que você era um cliente especial. Eram outros tempos.

A evolução dos últimos 30 anos do mercado de crédito brasileiro pode ser dividida em fases muito marcadas. Até os anos 90, a par de alguns momentos de euforia superficial, eram as receitas inflacionárias a principal fonte de retorno dos bancos. Nesse período, crédito era coisa rara. A eficiência dos bancos era medida por sua capacidade de captar recursos (principalmente depósitos à vista) e aplicá-los. Os ganhos vinham do float inflacionário, então fonte incomparável de altos retornos. Mas veio o Plano Real e mudou essa realidade. Uma nova fase se inaugura, com a estabilização monetária e o fim da inflação galopante. A mudança não veio sem custos, vivemos a crise bancária dos anos 90, quando muitos bancos quebraram. Boa parte deles ao tentar buscar no crédito a recomposição das receitas perdidas. Nesse processo, sem experiência e sem dominar a tecnologia de concessão de crédito, não foram poucos os que se machucaram, alguns de morte.

Mas foi também ali que os juros básicos foram às alturas, juntamente com uma necessidade de financiamento crescente por parte do governo federal. Rentabilidade alta, demanda contínua e risco baixo eram uma combinação imbatível, inaugurando a fase em que o crédito ao setor privado tinha no crédito ao setor público seu maior rival. A partir de meados dos anos 2000 o ambiente começa a mudar e o mercado de crédito privado finalmente acontece no Brasil. Pós eleição e impulsionado pela melhora do ambiente macroeconômico, pela primeira vez combinavam-se às medidas de melhora do ambiente de crédito, a redução nos níveis da taxa básica de juros, crescimento econômico e baixo desemprego. Soluços vieram, como os da crise financeira de 2008, dos elevados níveis de comprometimento de renda após 2010 e do avanço atrapalhado dos bancos públicos no mercado, mas a partir dali os volumes e custo do crédito passaram a experimentar outros patamares. Há ainda muito caminho, mas desde o ano passado voltamos ao rumo, graças a uma agenda importante de normalização do mercado (com o recuo dos bancos públicos, em particular do BNDES) e os vários outros avanços institucionais de grande relevância da agenda BC+ do Banco Central.

Ou seja, fez-se e faz-se muito pelo lado da oferta de crédito. Mas ainda falta fazer o mesmo tanto pelo lado da demanda por crédito. Essa necessidade fica clara nos dados sobre o cheque especial que estão no Relatório de Estabilidade Financeira, publicado pelo Banco Central. É alarmante constatar que 43,9% da população que usa o cheque especial é de baixa renda.

Além disso, essa população utiliza o cheque especial como sua principal fonte de financiamento tomando por crédito um instrumento que é de conveniência. O mesmo vale para as operações de crédito pessoal voltado ao consumo imediato, onde as taxas de juros atingem os três dígitos em alguns meses. 

Na raiz desse problema, sem prejuízo da discussão dos spreads bancários e da necessidade de se combater a oferta de crédito a taxas abusivas, está também a baixa educação financeira da nossa população. Há que se investir de forma massiva em programas de educação financeira que garantam uma adequada e saudável utilização do crédito pela população, em particular a de mais baixa renda. Essa é uma agenda necessária e urgente, mas que ainda não aconteceu no País.

Crédito bem tomado – além de bem dado – é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento econômico e de aumento de bem estar. E assim como o crédito bem dado goza hoje de uma agenda de avanços que trouxeram e trarão mais resultados, também o crédito bem tomado precisa de investimentos que vão além das louváveis ações de abertura do mercado e maior transparência. 

O item mais poderoso dessa agenda é a educação financeira. Ao dar poder de escolha às pessoas e ao lhes permitir planejar o seu futuro, a educação liberta. Isso sim é ser especial.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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