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Chile, Nova Zelândia e o Brasil

Os neoliberais estão em busca de novos paradigmas que sustentem seus pressupostos por aqui

Antonio Correa da Lacerda, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2020 | 04h00

Os defensores das ideias neoliberais, que pregam a privatização, o “Estado mínimo”, a abertura comercial e financeira e a desregulamentação, sempre buscaram pretensas referências para seus argumentos. Durante décadas ouvimos dos nossos liberais o argumento de que o Chile era o modelo econômico de sucesso a ser seguido.

No entanto, a atual degradação chilena e o elevado índice de suicídio entre os idosos já representam, por si sós, a falência de um padrão absolutamente insustentável. O Chile, com pouco mais de 20 milhões de habitantes – menos de 10% da população brasileira –, extensão territorial de cerca de 1/10 da nossa, nunca foi um parâmetro relevante para o Brasil, mesmo numa visão a partir da Avenida Faria Lima, em São Paulo, ou da Vieira Souto, no Rio.

Embora o Chile tenha apresentado progresso econômico durante algum tempo, mostra-se claramente limitado. A sua atividade é reduzida a poucos produtos representativos – basicamente cobre, pescado, frutas e flores –, praticamente sem desenvolvimento industrial. Mas isso nunca foi possível para o Brasil, tampouco para países de estrutura e dimensão comparáveis, como uma boa análise histórica claramente comprova.

Com a derrocada chilena pela falência econômica, política e social do modelo neoliberal, os neoliberais estão em busca de novos paradigmas que sustentem seus pressupostos. A nova Meca na visão de alguns liberais de ocasião seria a Nova Zelândia.

Mas, se o Chile nunca foi base de comparação para o Brasil, muito menos a Nova Zelândia o é. Seu Produto Interno Bruto (PIB) é de apenas pouco mais de 20% do brasileiro e a população, de cerca de 5 milhões de habitantes. Sim, pouco mais que a população da zona leste da cidade de São Paulo. Portanto, querer apresentá-la como parâmetro de modelo econômico, legislação trabalhista ou coisa que o valha só pode representar desconhecimento profundo ou desonestidade intelectual.

Temos muito o que discutir seriamente sobre as alternativas de desenvolvimento para o Brasil, relativamente às experiências internacionais. Há uma farta literatura apontando a análise das experiências históricas que lograram sucesso, como EUA, Alemanha e Japão, países que alcançaram o padrão de desenvolvimento já no século 20, e pelo menos um exemplo de progressão mais recente, que é a Coreia de Sul.

Cada um dos países citados teve a sua história de progresso, mas há pontos comuns nas estratégias de desenvolvimento e políticas econômicas adotadas com êxito:

  • a combinação da atuação do Estado, como empreendedor, quando necessário, mas também coordenador, articulador de políticas públicas, além do seu papel regulador e fiscalizador;
  • o engajamento do setor privado, articulado com o Estado, mediante a criação de um ambiente favorável;
  • a adoção de políticas macroeconômicas (monetária, fiscal e cambial) favoráveis ao desenvolvimento;
  • a articulação das políticas de competitividade (políticas industrial, comercial e de ciência, tecnologia & inovação), para fomentar a atividade econômica, em especial da indústria, imprescindível para o desenvolvimento.

O Brasil, por seu potencial econômico, social e ambiental, tem todas as precondições para superar a atual estagnação e atingir um grau de desenvolvimento expressivo. Somos o único país do G-20 a combinar potencial nos macrossetores e de enorme demanda reprimida, em termos de investimentos, na infraestrutura e políticas sociais. Nossas debilidades também representam grandes oportunidades. Mas isso não se viabilizará automaticamente, pelas “forças do mercado” e baseado apenas na suposta “confiança” como único fator de desenvolvimento, ao contrário do preconizado pelas políticas econômicas em voga por aqui.

*PROFESSOR-DOUTOR, DIRETOR DA FEA-PUCSP, PRESIDENTE DO CONSELHO FEDERAL DE ECONOMIA (COFECON), PUBLICOU RECENTEMENTE ‘O MITO DA AUSTERIDADE’ (EDITORA CONTRACORRENTE). SITE: WWW.ACLACERDA.COM

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