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Chilique com o Fed

Investidores estavam lenientes com a normalização monetária nos Estados Unidos

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2018 | 04h00

Desde o início de abril, quando os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano de 10 anos começaram a subir com força, ultrapassando a barreira dos 3,0%, os mercados globais enfrentam grande turbulência, com o dólar se fortalecendo em relação às principais moedas mundiais e as bolsas de valores sofrendo forte correção nos preços.

Por trás desse nervosismo está o temor de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) acabe por acelerar o ritmo do aperto monetário mais do que o previsto. O mercado ainda precifica três altas dos juros americanos neste ano, enquanto é crescente o número de analistas que projetam um total de quatro elevações.

A expectativa é de que, na sua próxima reunião, marcada para os dias 12 e 13 de junho, o Fed passe a sinalizar oficialmente a projeção de quatro altas de juros neste ano.

Da última vez que divulgou suas projeções macroeconômicas, em março, a mediana das estimativas dos 15 diretores do Fed apontava para três elevações neste ano, mas ficou faltando uma única projeção para que a mediana tivesse sido alterada para quatro altas.

O menor ou maior número de elevações dos juros neste ano não é o que deveria deixar os investidores animados ou preocupados, na opinião do economista-chefe da Mauá Capital, Alexandre Ázara. Para ele, o que interessa é qual será a taxa de juros ao fim do atual ciclo. “Essa taxa terminal não deverá causar maior estresse”, diz.

A aposta de Ázara é de que o Fed vai encerrar o atual ciclo com juros a 3,25% em 2020, elevando a taxa quatro vezes neste ano e três em 2019.

Para fazer sua aposta da taxa terminal de 3,25%, Ázara utilizou como premissa uma inflação de 2,0% mais uma taxa neutra de juros de 0,75%, com base no modelo criado por John Williams (futuro presidente do Fed de Nova York) e por Thomas Laubach (economista do Fed) que estima uma taxa neutra entre 0,40% e 0,90% para uma inflação entre 1,5% e 2,5%. Além disso, Ázara acrescenta 0,50 ponto porcentual à sua estimativa diante da sinalização do Fed de que manteria a taxa nominal de juros acima da neutra.

Atualmente, a mediana das estimativas dos 15 diretores do Fed aponta para uma taxa terminal de 3,50%, enquanto a projeção dos votantes no Fomc (com base na interpretação do mercado) é de juros a 3,75% em 2020.

O cenário de estresse seria, na visão de Ázara, se a inflação americana subisse rapidamente para 2,5%, forçando o Fed a migrar para uma política monetária apertada ao jogar os juros para bem acima de 4%.

É bom lembrar que o Fed vem sinalizando recentemente que se, eventualmente, a inflação ficar um pouco acima da sua meta de 2% por algum tempo, isso não seria motivo suficiente para acelerar o ritmo de altas de juros nem aumentar o orçamento total do atual ciclo.

Para Ázara, se a inflação americana ficar entre 1,8% a 2,2% no ano que vem, a taxa terminal do atual ciclo ficará entre 3,0% e 3,50%. “Vejo um risco muito baixo de a inflação americana ficar muito acima de 2,2%: não há um superaquecimento da economia tampouco existe pressão mais forte sobre os salários”, explica Ázara.

Ele lembra que, como a economia americana está a pleno emprego e crescendo acima do seu potencial, é não somente justificável a normalização da política monetária, como também saudável. “Até porque esse ciclo de alta de juros ocorre num momento em que as condições financeiras nos Estados Unidos estão no nível mais frouxo dos últimos anos”, diz.

O índice de condições financeiras dos Estados Unidos calculado pelo banco Goldman Sachs, que leva em conta os preços das ações em bolsas de valores, as taxas de juros de longo prazo e a cotação do dólar, entre outras variáveis, está ao redor de 99, abaixo do pico de 101 quando o Fed subiu os juros pela primeira vez no atual ciclo em dezembro de 2015.

O fato é que os investidores estavam demasiadamente lenientes em relação ao processo de normalização monetária nos Estados Unidos. De repente, despertaram para a realidade da alta de juros pelo Fed e não gostaram do que viram. Mas até quando vai durar esse chilique?

É COLUNISTA DO BROADCAST

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