China assume liderança em supercomputadores

Nos últimos seis anos, os Estados Unidos estiveram em primeiro lugar no[br]setor; mudança reflete forte investimento chinês em pesquisa tecnológica

Ashlee Vance THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Um centro de pesquisas científicas chinês construiu o mais rápido supercomputador já criado, tirando o recorde dos Estados Unidos como produtores da máquina mais veloz, e dando à China o direito de se gabar como superpotência em tecnologia.

O computador, conhecido como Tianhe-1A, tem 1,4 vez a potência do computador do mais alto nível tecnológico da atualidade, instalado em um laboratório nacional no Tennessee, segundo mostrou o teste usado para avaliar a perfeição como os sistemas utilizam os cálculos matemáticos, afirmou Jack Dongarra, um cientista da área de computação da Universidade de Tennessee, que elabora os ranking oficiais dos supercomputadores.

Esta é a segunda vez, em menos de dez anos, que os Estados Unidos veem sua liderança em supercomputadores ameaçada: em 2002, os Estados Unidos perderam pela primeira vez a coroa de líderes no setor, quando o Japão apresentou uma máquina com mais potência do que as 20 maiores máquinas americanas somadas. O governo respondeu à altura, formando grupos para preparar a volta ao topo e investindo em projetos de supercomputadores. Os EUA recuperaram o primeiro lugar em 2004, e o mantiveram até agora.

Embora a lista oficial das 500 máquinas mais velozes, que sai a cada seis meses, só deva ser fechada por Dongarra na próxima semana, ele afirmou que o computador chinês "ocupará o lugar de máquina número 1". Ele previu que a lista definitiva incluirá um outro computador chinês entre os cinco mais velozes.

Os representantes do centro de pesquisa chinês, a Universidade Nacional de Tecnologia da Defesa, apresentaram o desempenho do novo supercomputador ontem, em um congresso de tecnologia em Pequim. O centro diz que o projeto foi desenvolvido com a supervisão do Ministério da Defesa Nacional e o Ministério da Educação.

Aplicações. A corrida para a construção do supercomputador mais veloz tornou-se motivo de orgulho nacional porque as máquinas são avaliadas pela capacidade de resolver problemas cruciais para as nações, como defesa, energia, finanças e ciência.

A tecnologia da supercomputação pode ser aplicada também pelas empresas, como companhias de óleo e gás em busca de reservas ou traders de Wall Street que realizam transações automáticas com extrema rapidez. A Procter & Gamble usa supercomputadores para assegurar que as batatas Pringles entrem nas latas sem se quebrar.

Os centros de pesquisa com enormes supercomputadores atraem talentos científicos do mais alto gabarito, o que aumenta a importância das máquinas. Na última década, os chineses avançaram de forma persistente nos rankings dos supercomputadores. O Tianhe-1A representa o pico de investimentos de bilhões de dólares e de desenvolvimento científico, enquanto a China se tornava uma superpotência mundial em tecnologia.

"O mais assustador é que o predomínio americano em computadores extremamente avançados está ameaçado", disse Wu-chun Feng, especialista e professor do Instituto Politécnico e da Universidade Estadual da Virginia.

Os modernos supercomputadores são construídos combinando milhares de pequenos servidores e usando software para torná-los uma entidade única. Nesse sentido, toda organização com dinheiro e capacidade suficiente pode adquirir os componentes separadamente e criar uma máquina rápida.

O sistema chinês segue este modelo, conectando milhares e milhares de chips fabricados pelas americanas Intel e Nvidia. O segredo do sistema - e a façanha tecnológica - é a interconexão, ou a tecnologia de rede, desenvolvida por pesquisadores chineses, que carrega dados por meio de computadores menores a velocidades espantosas, disse Dongarra. Ele diz que prossegue também um projeto chinês para fabricar chips para concorrer com os similares americanos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Ameaça

WU-CHUN FENG

ESPECIALISTA E PROFESSOR DO INSTITUTO POLITÉCNICO DA UNIVERSIDADE DA VIRGINIA

"Os japoneses nos surpreenderam e realmente nos pegaram desprevenidos.

No caso da China, poderá acontecer isso também. Poderíamos afirmar que isso afeta os alicerces do nosso crescimento econômico."

JACK DONGARRA

CIENTISTA DA ÁREA DE COMPUTAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO TENNESSEE

"Só fechamos os livros no dia 1º de novembro, mas acho difícil que apareça um computador mais veloz (que o chinês) antes disso."

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