Marcelo Coelho
Gabriel Veloso, trader internacional da Veloso Green Coffee Marcelo Coelho

China atrai exportador de café brasileiro

Com avanço de hábitos ocidentais de consumo no país asiático, vendas de café verde do Brasil mais que dobraram no ano passado

Márcia De Chiara , O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 05h00

O avanço do hábito de beber café no lugar do chá, especialmente entre a população mais jovem, está fazendo da China o mais novo mercado promissor para as exportações do grão brasileiro. Faz dois anos, por exemplo, que a mineira Veloso Green Coffee começou embarcar café verde para o país asiático. São cafés finos, da variedade arábica, colhidos nos 5 mil hectares de Cerrado que a empresa cultiva no município de Carmo do Paranaíba (MG).

“Nossas vendas em volume para a China têm crescido 30% ao ano e já temos pedidos colocados para este ano inteiro e também o próximo”, conta Gabriel Veloso, trader internacional da empresa. Em 2018, a companhia exportou 192 mil sacas para cerca de 30 países e a China representa uma pequena parcela, de 5% a 10%. Veloso conta que os negócios começaram a deslanchar porque houve interesse de ambas as partes para a abertura do mercado chinês. Representantes da empresa foram à China em busca de compradores. Por ser um café diferenciado, os chineses pagam entre 10% a 15% a mais do que o preço médio.  Também os torrefadores asiáticos procuraram a companhia. Mas o assédio maior veio dos chineses, observa.

O avanço no fluxo de negócios com café, basicamente verde, entre Brasil e China já aparece nas estatísticas de exportações, apesar de a fatia do país asiático ainda ser muito pequena (0,46%) no total das vendas. No ano passado, os volumes embarcados para a China, a maior parte de café verde, cresceram 162% em relação ao ano anterior e somaram 162,9 mil sacas de 60 quilos. A receita de US$ 26,9 milhões avançou 143% em comparação com 2017, segundo o Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Nos últimos quatro anos os volumes quase triplicaram, e a China subiu 17 posições no ranking dos importadores do café brasileiro.

“Não foi uma surpresa o forte crescimento das exportações para a China”, afirma o presidente do Cecafé, Nelson Carvalhaes, destacando o grande potencial do mercado. Ele argumenta que o aumento do consumo dos chineses, que estão cada vez mais seguindo hábitos ocidentais, tem criado um mercado promissor para o grão. E o Brasil, como maior produtor e exportador mundial, surfa nessa onda.

Entre 2008 e 2018, o consumo de café na China passou de 300 mil sacas para 3,8 milhões de sacas, um aumento de mais de 1.000%, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. A produção local gira em torno de 2,5 milhões de sacas por ano.

Impulsionado pelo rápido avanço das cafeterias, Carvalhaes acredita que, o consumo anual chinês poderá atingir 10 milhões de sacas.

A americana Starbucks, por exemplo, tem mais de 3.600 lojas na China, que se tornou o mercado internacional de maior crescimento para a rede. Ela concorre com a Luckin Coffee, startup de Pequim que entrega em domicílio a bebida pronta para consumo. Também disputam o mercado chinês de cafeterias a britânica Costa Coffee e a Pacific Coffee, de Hong Kong.

Café como status

“Para o chinês jovem, consumir café é sinal de status, semelhante a carregar uma bolsa Channel para um ocidental”, compara o assessor da Comissão Nacional do Café da CNA, Maciel Silva. Na sua avaliação, a China tem grande potencial de avanço do consumo nos próximos anos, mas ele não acredita que a taxa de crescimento nas exportações brasileiras para esse destino supere 100% como ocorreu no último ano. “A China é uma incógnita no café”, diz o especialista. Ele lembra que o Vietnã, o segundo maior produtor mundial depois do Brasil, está geograficamente mais próximo da China. Além disso, tem acordos com o país asiático.

Outro obstáculo ao crescimento das importações são as taxas impostas ao produto estrangeiro. Segundo dados da Organização Internacional do Café (OIC), a China, no geral, aplica tarifas de importação de 8% para café verde e de 15% para o café torrado e moído. No caso do solúvel, o imposto de importação varia entre 17% e 30%.

A expectativa dos exportadores é que a China repita o desempenho do Japão, outro país asiático no qual o hábito de tomar café foi introduzido, e que hoje é um mercado consolidado para o café brasileiro. “O Japão é um grande consumidor e um grande parceiro”, diz Carvalhaes.

No ano passado, do total das exportações brasileiras de café para 123 países, que atingiu 35,2 milhões de sacas – o maior volume em dois anos –, o Japão foi o quarto maior importador, com 2,3 milhões de sacas. Ele ficou atrás apenas dos Estados Unidos (6,2 milhões de sacas), Alemanha (5,6 milhões de sacas) e Itália (3,1 milhões de sacas). 

Mesmo com a queda de quase 15% nos preços do café que houve em 2018, por causa da grande oferta do produto e da grande safra nacional (61 milhões de sacas), a receita total de exportação brasileira com café atingiu US$ 5,1 bilhões, 3% maior do que no ano anterior. Para este ano, o prognóstico é que esse desempenho se repita.

 

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São Manuel exporta produto especial para os Estados Unidos

Fazenda Santa Margarida também exporta grãos para mercados como a China e a Alemanha

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 05h00
Atualizado 04 de fevereiro de 2019 | 15h22

Correções: 04/02/2019 | 15h20

O cafeicultor paulista Mariano Martins investiu fortemente em qualidade para exportar seu café a um preço diferenciado. Com 1 milhão de cafeeiros em produção na Fazenda Santa Margarida, em São Manuel, interior de São Paulo, ele produz 6 mil sacas anuais de café arábica e 60% da produção – 3,6 mil sacas – se enquadram na categoria de café especial, com cotação até 25% acima do tradicional. “Conseguimos abrir um mercado importante para nosso café nos Estados Unidos e 70% da produção de cafés especiais entregamos diretamente na Califórnia”, disse Martins. Os outros 30% desse café são absorvidos pelos pontos de venda de produto gourmet da Café Martins em São Paulo.

Ele afirma que o consumidor americano, assim como o europeu, se dispõe a pagar mais por um café diferenciado. O mercado da Califórnia se abriu para o café da Fazenda Santa Margarida quando um lote de sua produção recebeu 93 pontos de um renomado crítico americano de cafés – uma pontuação excepcional. “Era nosso objetivo fazer exportação direta para absorver todas as vantagens da cadeia e essa pontuação abriu o mercado de lá para a gente”, conta Martins. 

O produtor não se incomoda de depender, atualmente, de um único mercado importador. “Como nossa produção é pequena, comparando com outros exportadores, focamos num único mercado apenas por questão de custo e facilidades logísticas. É só um ponto de contato, um conjunto de normas para a exportação e um fluxo de contrato. Se abrirmos novos mercados mantendo a produção atual, aumentaríamos nossos custos sem aumentar a receita”, explica. 

Os 40% de café não especial da safra da Santa Margarida são vendidos no mercado commodity. “ Eu chamo de mercado impessoal. Uma parte pode estar indo para a Alemanha, outra para a China, por exemplo”, disse. 

Correções
04/02/2019 | 15h20

A produção de café da Fazenda Santa Margarida, em São Manoel, interior de São Paulo, é de 6 mil sacas – e não 600 mil sacas, como informamos equivocadamente na edição desta segunda-feira, 4. Do total produzido, 60% – 3,6 mil sacas – se enquadram na categoria de café especial. 

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Para viabilizar exportação, empresário cria marca voltada para o mercado chinês

Marcelo Moscofian, do Santa Monica Café Gourmet, teve dificuldades de enviar seu produto a China porque um chinês já havia registado a marca

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 05h00

O empresário Marcelo Moscofian, diretor do Santa Monica Café Gourmet, está prestes a embarcar o primeiro lote de café torrado com a marca da empresa para a China. Os cinco contêineres que devem sair do Porto de Santos (SP) rumo a Xangai levam uma carga de 25 toneladas dividida entre o grão torrado e moído, cápsulas para máquina, sachês para coar a bebida na xícara (drip coffee) e pequena parcela de café verde.

“Não conseguimos embarcar a carga porque um chinês registrou a nossa marca”, conta Moscofian. Para viabilizar a exportação, ele explica que precisou criar uma marca específica para o mercado chinês. Apesar do atraso, o empresário diz que, assim que resolver essa pendência, o café será despachado.

O café gourmet, do tipo arábica, mais refinado, é produzido no município de Machado, no Sul de Minas, onde ficam as cinco fazendas do grupo, que ocupam 300 hectares. Na China, o produto será vendido com a nova marca para supermercados. Também vai abastecer cafeterias, hotéis, bares e restaurantes por meio de um distribuidor local. A empresa fechou um contrato de fornecimento de cinco anos com o distribuidor chinês. No primeiro ano serão embarcados 70 contêineres. A previsão é aumentar 30 contêineres a cada ano. O grupo mineiro também negocia um contrato para produzir o café de marca própria de uma companhia chinesa.

A China faz parte de um projeto maior do Santa Monica Café de exportar o grão torrado de qualidade diferenciada, conhecido como café gourmet, para cerca de 30 países. O projeto de exportação do café torrado começou a ser traçado em 2017, conta Colins James Francis, executivo especializado em comércio internacional contratado para desenvolver essa área na empresa.

O plano de internacionalização do café gourmet da companhia prevê a abertura de cafeterias próprias no exterior em parceria com um sócio local. “Planejamos ter cafeterias na China em 2020”, diz Moscofian. Segundo ele, o mercado chinês é a menina dos olhos dos produtores de café por causa do grande potencial de crescimento. “O volume de consumo de café no mercado chinês vai ser gigante e beber café é sinal de status na China, de cultura ocidental.”

Obstáculos. Apesar do grande potencial de crescimento, Francis chama atenção para os obstáculos existentes às exportações do café torrado do Brasil. Segundo ele, existe uma sobretaxa de 35% sobre o grão processado vindo do País, o que encarece o produto. Para escapar dessa tributação, o grupo mineiro vai investir em duas torrefadoras instaladas fora do Brasil. Uma delas será na ilha caribenha de Antígua e a outra em Omã, na costa da Península Arábica. “Omã tem acordos bilaterais que facilitam a exportação”, diz Francis. A perspectiva é que as duas fábricas já estejam funcionando no final de novembro.

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