China Daily/Reuters
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China avança na OMC no espaço deixado pelos EUA

Chineses apresentam propostas comerciais e fazem reuniões; já os americanos devem ficar sem um representante até meados do ano

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2017 | 22h42

GENEBRA - A China começou a ocupar de fato o espaço deixado pelos Estados Unidos na definição das regras comerciais, e na Organização Mundial do Comércio (OMC) apresenta propostas e faz reuniões para moldar a agenda diplomática em 2017. Na espera para saber qual será o posicionamento de Donald Trump em relação à entidade máxima do comércio, diplomatas e observadores consultados pelo ‘Estado’ confirmaram uma “ofensiva silenciosa” por parte de Pequim desde a eleição de Trump.

Pequim apresentou aos membros da OMC uma proposta de liberalização do comércio eletrônico, o que foi considerado até mesmo por economias ricas como um “passo importante”. O documento, obtido pelo Estado, pede a facilitação de negócios para o comércio eletrônico entre países, transparência nas políticas adotadas pelos governos nesse setor e ainda uma ajuda técnica aos países mais pobres para garantir que tenham condições de infraestrutura para fazer parte do fluxo de e-commerce.

Apenas em 2015, as empresas de comércio eletrônico na China, como a Alibaba, venderam quase US$ 600 bilhões em mercadorias. O salto foi de 33% em comparação a 2014. Nesse mesmo período, as empresas americanas aumentaram suas vendas em 14%, para US$ 341 bilhões.

Na semana passada, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o presidente chinês, Xi Jinping, surpreendeu ao defender o livre-comércio. Num discurso que foi interpretado como um recado direto às intenções protecionistas de Trump, Xi apelou para que a comunidade internacional “continue comprometida com o desenvolvimento do comércio global e investimentos e que continue a dizer não ao protecionismo”.

Sem embaixador. Os primeiros gestos políticos de Trump com relação aos acordos comerciais deixaram muitos em Genebra preocupados sobre qual será a prioridade que o presidente americano dará às negociações para a abertura de mercados. Se o que Trump fará com a OMC é ainda uma incógnita, a realidade nos corredores da entidade é que o governo americano hoje nem sequer tem um embaixador em Genebra. Michael Punke, representante do governo de Barack Obama, deixou a OMC no fim de 2016 e a previsão de diplomatas é de que um novo chefe para a delegação americana apenas tome posse em meados do ano.

Enquanto isso, em Genebra, o discurso chinês já foi transformado em iniciativas diplomáticas concretas e a ordem é a de fazer avançar seus interesses diante da ausência relativa da principal economia do mundo. Na disputa que ocorre neste momento para definir qual será o pacote de medidas que a OMC adotará em sua reunião ministerial – em dezembro em Buenos Aires –, é a China que se lança para dar o tom.

Diplomatas asiáticos confirmaram ao Estado que a China também trabalha em uma possível proposta sobre a abertura do setor de investimentos e serviços. Mesmo em áreas em que estavam resistindo, como subsídios agrícolas, diplomatas chineses passaram a manter reuniões com grandes exportadores para entender o que seria um resultado satisfatório na OMC. O gesto foi visto como um sinal de que Pequim estaria disposta a negociar.

A ocupação do vácuo, porém, não tem uma explicação apenas geopolítica. Em dezembro de 2016, pelo oitavo mês seguido, a China viu uma queda em seu comércio internacional e sabe que, diante dos investimentos que recebeu de multinacionais, precisará de fronteiras abertas para conseguir exportar o que vai produzir nos próximos anos. Caso contrário, quem sofrerá será o trabalhador chinês.

Segundo embaixadores ouvidos pela reportagem, o sentido de “pressa” entre os diplomatas de Pequim é evidente nos bastidores. “Depois de 15 anos na OMC, a China não quer mais ser uma coadjuvante”, disse outro observador em Genebra. “Em muitos sentidos, a chegada de Trump abriu uma avenida para que isso ocorra.”

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