AFP PHOTO / GREG BAKER
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China censura próprias políticas com avanço da guerra comercial

À medida que Washington e Pequim se lançam numa disputa comercial, as agências de notícias no país vêm recebendo ordens para não fazerem mais menção ao plano industrial do país asiático

Raymond Zhong e Li Yuan, The New York Times

28 Junho 2018 | 20h33

XANGAI – O governo da China, que reprime incansavelmente seus críticos, ideologias indesejadas e memes subversivos, vem se direcionando contra um alvo improvável: suas próprias políticas econômicas.

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À medida que Washington e Pequim se lançam numa disputa comercial, as agências de notícias no país vêm recebendo ordens para não fazerem mais menção ao “Made in China 2025”, plano diretor industrial cujo objetivo é transformar o país numa superpotência de alta tecnologia.

O governo Trump tem definido repetidamente sua campanha para mostrar que Pequim vem utilizando meios desleais para adquirir tecnologia de ponta dos Estados Unidos. Apesar de meses de negociações, os dois países continuam num impasse.

A Casa Branca estabeleceu tarifas maiores para a China e Pequim recusa-se a se submeter, o que faz surgir a possibilidade de uma guerra comercial em grande escala entre as duas maiores economias do mundo. O governo Trump ameaçou com penalidades sobre produtos chineses num valor equivalente a US$ 450 bilhões, quase equivalente ao valor total dos produtos importados da China pelos Estados Unidos no ano passado.

Isto deve estar deixando os líderes chineses inquietos. Numa aparente tentativa de evitar chamar mais atenção para sua campanha Made in China 2025, a mídia recebeu ordens de não fazer mais menção a ela. A instrução foi informada antes pela Reuters, e não se sabe se a ordem foi passada para todas as organizações de mídia.

As agências de notícias não tem outra saída senão atender às diretivas, que incluem ordens para remover artigos específicos e também recomendações, com freqüência fornecidas por telefone, sobre o tom e conteúdo da cobertura. Artigos críticos do governo são apagados diretamente, mesmo em grupos de mídia influentes como o Caixin Media. Os censores também retiram regularmente  imagens e postagens na mídia social.

Mas mesmo antes dessas ordens mais recentes, a cobertura na China das disputas comerciais com os Estados Unidos não contém uma retórica inflamada ou nacionalista. As organizações com freqüência praticam a autocensura, temendo despertar a ira das autoridades.

O programa Made in China 2025 não está sendo  apagado inteiramente da Internet chinesa. Um pronunciamento sobre o plano foi publicado no site de uma agência governamental  e websites de governos locais continuam a se referir a ele.

E mais importante, não há nenhuma indicação de que Pequim se dispõe a rever suas políticas de apoio financeiro para players locais  e de assistência para compra de concorrentes estrangeiros, uma medida que respalda o plano de modernização.

Mas os líderes chineses não desejam que a mídia doméstica provoque excessiva indignação pública temendo que isso venha a limitar sua capacidade de negociação com Washington.

“As restrições à informação pelo Partido Comunista Chinês são predominantemente estratégicas e contextuais e não ideológicas e não tem a ver com julgamentos quanto à suscetibilidade de algum artigo ou tópico”, disse David Bandurski, diretor do China Media Project, programa de pesquisa de Hong Kong, e membro da Robert Bosch Academy de Berlin.

As empresas ocidentais há muito tempo protestam contra as políticas adotadas pelos chineses que privilegiam as companhias locais em detrimento das estrangeiras. O plano Made in China 2015 tem atraído uma atenção particular nesse sentido.

A campanha foi anunciada pela primeira vez em 2015. Mas um ano depois informes de grupos empresariais europeus e americanos destacaram as vantagens injustas que as empresas chinesas obteriam nos mercados externos e a iniciativa passou a merecer mais atenção no Ocidente. Na época, o governo chinês procurou minimizar alguns aspectos controvertidos do plano, como metas para participação de empresas domésticas do mercado chinês em setores específicos.

Lance Noble, analista da empresa Gavekal Dragonomics, em Pequim, afirmou que em 2016, quando grupos estrangeiros manifestaram preocupações sobre o caminho traçado para colocar em prática esse plano, as autoridades chinesas responderam dizendo que se tratava apenas de ”um estudo em análise por especialistas”, sem nenhuma posição política oficial.

Na semana passada a Câmara de Comércio da União Europeia na China divulgou pesquisa em que muitos dos questionados disseram observar “uma discriminação crescente” no país como resultado do plano Made in China 2025. Em resposta o Global Times, tabloide controlado pelo Estado, publicou artigo afirmando que os resultados da pesquisa refletiam uma má compreensão do plano. / Tradução de Terezinha Martino

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