Ksenia Kuleshova/The New York Times
Ksenia Kuleshova/The New York Times

China 'conquista' cidade alemã com fábrica de US$ 2 bi e 2 mil empregos

Boa aceitação da chegada da fabricante de baterias para carros elétricos em Arnstadt, município com 28 mil habitantes, mostra a ambivalência da Europa em relação aos investimentos chineses: temor do poder, amor pelo dinheiro

Jack Ewing, The New York Times

06 de setembro de 2019 | 09h00

ARNSTADT, Alemanha – Autoridades em Bruxelas ou Berlim podem se inquietar com a crescente influência da China na economia europeia, os portos que ela controla e as empresas de alta tecnologia que as empresas chinesas adquiriram. Mas não é preocupação que se vê em Arnstadt, cidade alemã da era barroca onde, há muito tempo Johann Sebastian Bach era o organista da igreja. 

É difícil encontrar uma pessoa nessa cidade de 28 mil habitantes que não esteja feliz, até eufórica, com os planos de uma empresa chinesa para investir mais de US$ 2 bilhões na construção de uma fábrica de baterias num campo aberto na periferia da cidade.

Acredita-se que o projeto, da Contemporary Amperex Technology Ltd., mais conhecida como CATL, é o maior exemplo até agora da escolha por parte de uma companhia chinesa de construir uma fábrica do grupo na União Europeia, em vez de comprar uma já existente.

Talvez em nenhum outro lugar esteja mais clara a ambivalência da Europa no tocante aos investimentos chineses, que pode ser resumida como: temor do poder, amor pelo dinheiro. 

Houve protestos em 2016 quando uma companhia chinesa adquiriu a Kuka, fabricante de robôs industriais, e algum alarme no ano passado quando um investidor chinês comprou quase 10% da poderosa montadora alemã Daimler. As aquisições levaram à aprovação de novas leis dando aos membros da União Europeia mais poderes para fiscalizar o investimento estrangeiro.

Mas, quando a CATL anunciou no ano passado que havia escolhido uma zona industrial em Arnstadt conhecida como Erfuter Kreuz para a fábrica que fornecerá baterias para carros elétricos para companhias como Volvo e BMW, líderes alemães, incluindo a chanceler Angela Merkel, se atropelaram para se atribuir o mérito.

A visão ambivalente da Alemanha no tocante à China estará exposta esta semana quando Angela Merkel chegar a Pequim para uma visita de três dias, incluindo uma reunião com o presidente Xi Jinping. Merkel, que será acompanhada por uma delegação de líderes empresariais, estará numa situação delicada, tentando proteger os investimentos alemães na China e ao mesmo tempo aparentando tolerância com a repressão chinesa em Hong Kong.

Os que defendem o projeto da CATL afirmam que ele representa uma nova fase, mais benigna, da emergência da China como superpotência econômica. Em vez de adquirir tecnologia européia ou engolir uma marca emblemática como a Volvo, a companhia chinesa traz seu próprio know-how de ponta.

E em lugar de destruir os empregos na indústria européia com mão de obra barata, uma empresa chinesa está criando 2 mil vagas de trabalho, afirmam as autoridades alemãs. Esse argumento é especialmente persuasivo num momento em que a recessão paira sobre o país e o mercado de trabalho alemão mostra os primeiros sinais de debilidade.

“O que estamos fazendo é exatamente o oposto da Kuka”, disse Wolfgant Tiefensee, ministro da Economia na Turíngia, Estado ao qual Arnstadt pertence.

O ministro estava tão decidido a atrair a CATL para seu Estado que, logo depois de ouvir, em 2017, que a empresa procurava um local na Europa, ele foi visitar a sede da empresa em Ningde, cidade costeira da província de Fujian, para fazer pessoalmente promoção da sua cidade.

“Estamos possibilitando a transferência de tecnologia de baterias da China para a Europa”, disse Tiefensee, ex-ministro dos Transportes da Alemanha, em uma entrevista em seu gabinete em Erfurt, capital do seu Estado. “É uma forma de cooperação completamente nova.”

Alguns analistas alertam que a China está levando adiante uma agenda sinistra, que a CATL é parte de um movimento patrocinado pelo Estado para dominar uma tecnologia estrategicamente importante. As baterias podem representar metade do custo de um carro elétrico. E à medida que os veículos elétricos ficam cada vez mais comuns, quem controlar esse setor de baterias, dominará o setor automotivo.

“À medida que as fabricantes de baterias RV se expandem no exterior, as fábrica de economias de livre mercado se levantam contra as concorrentes chinesas bancadas pelo Estado”, escreveu Anna Holzmann, analista das políticas industriais da China, em um relatório feito no ano passado para o Mercator Institute for China Studies, em Berlim.

Fundada há menos de uma década, a CATL se tornou rapidamente uma competidora da Tesla, da Panasonic, LG Electronics e outras fabricantes de baterias de lítio-íon para carros elétricos. O projeto de Arnstadt faz parte de um plano de expansão que pode tornar a CATL a maior produtora de baterias em poucos anos.

Em Arnstadt, seus líderes afirmam que as preocupações geopolíticas não são da sua alçada. Eles visam as receitas de impostos que a companhia vai gerar e ajudará a construírem jardins de infância e piscinas públicas e propiciará uma chance de ficarem no centro de um setor importante.

O prefeito Frank Spilling disse estar bem consciente das tentativas da China para ampliar sua influência em todo o mundo e também das acusações de violações de direitos humanos contra o país.

“Não é minha função discutir isto. Meu trabalho é trazer melhorias para a cidade. O resto está num nível diferente. Mesmo que eu criticasse, duvido que alguém iria se importar”, disse ele quando a polícia de Hong Kong investiu contra manifestantes em Seul.

Sua opinião repercutiu na classe política. “Não há resistência ao projeto”, disse Jan Kobel, fotógrafo e proprietário de um hotel que representa o Partido Verde na Câmara de vereadores de Arnstadt. “Todo mundo está receptivo.”

Muitas pessoas denotam frustração, como é o caso de Kobel e outros, com o fato de a CATL ter fornecido às autoridades da cidade apenas informações básicas sobre seus planos, mesmo que o escopo do projeto cresça de modo estonteante. De início a companhia planejava investir 240 milhões de euros na fábrica, mas à medida que as encomendas começaram a chegar, esse investimento aumentou para 1,8 bilhão de euros (US$ 2 bilhões) de acordo com notícias locais. A produção deve começar no próximo ano.

“Está tudo andando muito rápido”, disse Judith Ruber, casada como Kobel e ex-líder do Partido de Esquerda em Arnstadt. “Será interessante ver se conseguiremos integrar a fábrica na comunidade.” 

Indagada sobre as razões pelas quais a companhia escolheu Arnstadt, a porta-voz da CATL não respondeu, dizendo apenas que mais detalhes serão anunciados na International Motor Show em Frankfurt, este mês.

Sem dúvida o que atraiu foi a localização, próxima do cruzamento de duas importantes rodovias a 16 quilômetros de Erfurt. A CATL pode facilmente suprir empresas como a BMW que tem fábricas na região e já fez encomendas.

E é também uma medida política inteligente. Após a Segunda Guerra Mundial, Arnstadt ficou do lado oriental quando da divisão da Alemanha em duas partes. Muitas pessoas ainda têm lembranças amargas da transição para uma economia de mercado após a reunificação alemã em 1990. Milhares de pessoas ficaram ociosas quando a principal empregadora da região, uma indústria química, foi fechada. A taxa de desemprego subiu para quase 27%.

O desemprego caiu desde então para menos de 5% depois que companhias como a BorgWarner, fabricante americana de autopeças, abriu fábricas na mesma zona industrial que a CATL ocupará.

Mas muitos desses novos empregos são temporários, com pouca segurança de trabalho. Os moradores estão ansiosos por investimentos que propiciem uma base mais sólida para a economia local e talvez atraia os jovens que migraram para o lado ocidental buscando melhores oportunidades depois de 1990.

“As pessoas estão felizes com o estabelecimento da empresa aqui, pois oferecerá empregos para seus filhos e netos”, disse Martina Lang, diretora da agência de emprego do governo local. O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, AfD, um barômetro dos temores e ressentimentos dos cidadãos, conquistou 17% dos votos nas eleições para a Câmara Municipal, em maio. Mas os representantes do partido afirmam não ter nenhuma posição contra o recebimento de contracheques chineses.

“O que nos incomoda são os chamados refugiados”, afirmou Rudiger Schmitt, prefeito de Eischleben, vilarejo vizinho, atacando os imigrantes da Síria que, no seu entender, têm aulas grátis para aprender a dirigir ao passo que os alemães pagam centenas de euros para ter a habilitação. Hans-Joachim Konig, outro ativista do AfD, disse estar preocupado que as baterias de lítio sejam suplantadas por outra tecnologia, tornando a fábrica obsoleta. Mas ele e Schmitt não têm planos para bloquear a fábrica.

Alguns executivos da CATL, asiáticos e europeus, têm sido vistos na cervejaria Stadtbrauerei Arnstad, que é também um hotel que se promove como o lugar de nascimento da Weizenbier, a cerveja de trigo. Mas as autoridades municipais dizem manter um contato apenas esporádico com representantes da empresa.

A CATL também adquiriu um enorme prédio de aço e vidro perto do local da fábrica que era usado para fabricação de painéis solares. A ocupante anterior, SolarWorld, encerrou suas atividades em parte por causa da concorrência chinesa.

No momento há poucos sinais de vida no complexo, onde as ervas daninhas cobrem o asfalto do parque de estacionamento. Quando um jornalista do New York Times e um fotógrafo apareceram sem se anunciarem, Constance Ulbrich, funcionária da CATL, foi cordial, mas disse não ter autorização para dar entrevista ou permitir fotos. 

A CATL é tão discreta que muitas pessoas da localidade não entenderam realmente a magnitude do projeto ou pensaram nas implicações, disse Eberhardt Pfeiffer, jornalista aposentado que tem um blog sobre Arnstadt. “Em minha opinião, esse projeto não vem sendo considerado como deveria”, disse Pfeiffer, tomando um café na cafeteria da praça da cidade, que pouco mudou deste a época de Bach.  / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.