China denuncia Estados Unidos na OMC por protecionismo ilegal

Guerra entre a maior exportadora do planeta e o maior importador do mundo provoca tensão no mercado

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

15 de setembro de 2009 | 08h30

O governo da China abriu uma disputa contra os EUA, abala os mercados e colabora para aumentar as incertezas na economia mundial. A guerra entre a maior exportadora do planeta e o maior importador do mundo é um sinal de que a crise pode provocar medidas protecionistas e retaliações duras por parte dos países afetados. A batalha é a primeira entre as duas potências desde que o presidente Barack Obama assumiu o governo nos EUA. Mas Obama negou, na segunda-feira, 14, que adota "medidas protecionistas autodestrutivas" ou faz "provocações".

 

O motivo da guerra é o comércio de pneus. Na sexta-feira, 11, Obama anunciou a imposição de taxas de importação contra os pneus chineses. Durante a campanha presidencial, ele havia alertado que não trocaria a defesa dos trabalhadores americanos por um acordo comercial com a China.

 

A China abriu na segunda-feira uma queixa na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os americanos e ainda anunciou ter iniciado investigações contra o frango e autopeças americanos por suspeita de dumping. O objetivo será taxar esses produtos americanos como retaliação.

 

Mas quem pode sair ganhando é o Brasil, já que os chineses prometem barrar produtos americanos que concorrem com as exportações nacionais no mercado asiático.

 

Com a crise, desemprego e uma concorrência cada vez maior da China, Obama decidiu pelas tarifas. A Casa Branca passou a aplicar uma tarifa de 35% sobre os pneus chineses, em um comércio de US$ 1,8 bilhão por ano. As tarifas foram impostas depois que o sindicato de trabalhadores nos Estados Unidos acusaram as importações chinesas de prejudicar as empresas nacionais e provocar demissões.

 

Segundo o sindicato, as importações de pneus triplicaram entre 2004 e 2008, chegando a 46 milhões de pneus. O setor, que nos EUA já está em crise, afirma não ter como competir com o maior exportador do mundo.

 

Pascal Lamy, diretor-geral da OMC, já havia dito há um mês que os impactos da crise ainda não haviam sido superados e que a pressão por medidas protecionistas continuaria à medida que o desemprego aumentasse.

 

Mas a China acusou os americanos de tomar uma medida protecionista e ilegal. Dois dias após o anúncio das barreiras, Pequim apresentou a queixa na OMC, alegando que não aceitará ser acusada pela crise em um setor. Pequim ainda alertou Obama para o compromisso do grupo das 20 maiores economias (G-20) de não recorrer ao protecionismo.

 

Obama respondeu na segunda-feira mesmo: "O governo está comprometido em expandir o comércio e em ter novos acordos comerciais", afirmou em discurso em Nova York. "Mas nenhum sistema comercial funcionará se fracassarmos em impor nosso entendimento." Ele nega que as medidas sejam provocativas "ou que promovam o protecionismo autodestrutivo". Para Obama, tão importante quanto abrir mercados é manter suas regras locais.

 

O caso é sensível. Os autores do pedido da tarifa - os trabalhadores do setor siderúrgico - apoiaram Obama nas eleições. Agora, sua ação foi vista como uma retribuição. O que muitos temem é que, em uma recessão, Obama decida usar o momento e os instrumentos protecionistas para pagar de volta a ajuda que recebeu na eleição.

 

Para os chineses, o impacto será de US$ 1 bilhão e a perda de 100 mil empregos. Pequim escolheu o setor de frangos e autopeças para retaliar porque também sabe que nessas áreas Obama também precisa de apoio.

 

O setor do frango nos EUA é um dos lobbies mais ativos e vem pressionando o governo para abrir mercados em outros países. Com uma barreira no maior mercado asiático, a reação contra a Casa Branca pode ser dura.

 

E o ataque contra autopeças colocaria em evidência os subsídios que a Casa Branca destinou nos últimos meses para o setor automotivo, considerado por muitos especialistas em Genebra como uma violação das regras internacionais. Os chineses ainda lembram que a tarifa dos EUA sobre pneus afetaria as exportações da americana Goodyear Tire & Rubber Co, que usa sua fábrica na China para produzir e fornecer pneus ao mercado americano.

 

Os EUA alegam ter feito o que podiam para evitar a guerra e realizaram consultas com o chineses. Mas a negociação não funcionou. Na segunda-feira, a Casa Branca defendeu a legalidade da decisão. "Estamos confiantes de que nossa ação é consiste com a OMC", disse um representante de comércio.

 

Não é a primeira disputa comercial entre China e Estados Unidos. Os dois já foram aos tribunais por conta de autopeças, política industrial chinesa, patentes e outros assuntos. Dessa vez, a disputa manda um sinal preocupante aos mercados: o de que os grandes países não hesitaram em defender seus mercados, em plena crise. E que a resposta dos países afetados será a abertura de uma batalha jurídica.

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