China desacelera no trimestre, apesar do crédito farto

Economia cresceu 7,7% na comparação com igual período do ano anterior; apenas em março, financiamentos totalizaram R$ 798 bi

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM , O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2013 | 02h08

A economia chinesa reverteu o processo de recuperação registrado no fim de 2012 e desacelerou de maneira surpreendente no primeiro trimestre, crescendo abaixo das previsões do mercado. O resultado indica a dificuldade na manutenção de um alto ritmo de expansão, apesar do forte aumento do crédito registrado nos últimos meses.

O Produto Interno Bruto (PIB) da segunda maior economia do mundo teve alta de 7,7% no primeiro trimestre, na comparação com igual período do ano anterior. O resultado mostra perda de fôlego em relação aos 7,9% do quarto trimestre de 2012 e decepcionou analistas, que esperavam crescimento de 8,0%.

"A surpresa negativa do PIB do primeiro trimestre confirma que a recuperação econômica é frágil", observou em nota o economista-chefe do HSBC para a China, Qu Hongbin.

Na comparação com o trimestre anterior, o crescimento sem impacto de efeitos sazonais foi de 1,6%, o que representa uma expansão anualizada de 6,6%, segundo Dong Tao, economista-chefe do Credit Suisse para a China.

A perda de fôlego ocorreu apesar da consistente expansão do crédito desde meados de 2012, vista com preocupação por muitos economistas.

Crédito. Superando as expectativas do mercado, o total de financiamentos dentro e fora do sistema bancário aumentou em 2,5 trilhões de yuans (R$ 798 bilhões) no mês de março, valor recorde e 700 bilhões de yuans (R$ 223,8 bilhões) acima do registrado em igual período de 2012.

No trimestre, o volume de crédito atingiu 6,2 trilhões de yuans (R$ 1,98 trilhão), uma alta de 26,5% em relação aos 4,9 trilhões concedidos no primeiro trimestre do ano passado.

O fato de que há desaceleração apesar da explosão no crédito é um indicador de que a China precisa volumes crescentes de financiamento para obter o mesmo ritmo de expansão do PIB, o que é visto como insustentável.

Os empréstimos são a principal fonte de recursos para os investimentos em ativos fixos, que incluem obras de infraestrutura e construção de fábricas, por exemplo. Sua rápida expansão levanta dúvidas sobre a viabilidade econômica de muitos dos projetos, que podem não gerar o retorno necessário para o pagamento dos financiamentos.

Wang Tao, economista-chefe do UBS para a China, ressaltou em nota que a expansão do crédito está se tornando menos eficaz para gerar crescimento sustentado no país. Em sua opinião, o menor ritmo de expansão deve ter como resposta não uma nova ampliação de financiamentos, mas reformas que levem à reestruturação da economia.

Segundo ela, isso exigiria que o governo tolerasse um menor ritmo de expansão no curto prazo e adotasse medidas para redução da capacidade ociosa, diminuição de controle de preços em serviços públicos e maior abertura do setor de serviços ao capital privado.

Impacto negativo. A desaceleração do primeiro trimestre, na avaliação de Wang Tao, foi provocada principalmente pela indústria leve dependente do consumo e pelo setor imobiliário. A campanha do novo presidente chinês, Xi Jinping, em favor de um governo "frugal" teve impacto negativo na venda de alimentos, bebidas e serviços de catering, observou a economista.

Os dados mostram que a contribuição do consumo para o crescimento do PIB no primeiro trimestre foi 2 pontos porcentuais inferior à registrada em igual período de 2012.

O aumento do peso do consumo na composição do PIB é uma das principais metas do governo em sua tentativa de balancear a economia chinesa, com redução da dependência em relação a investimentos e exportações.

Para Li Ruoyu, pesquisadora do Centro e Informações Estatal, a China não deve responder aos dados decepcionantes do PIB com mais relaxamento monetário, mas sim aceitar que a economia do país já não pode mais crescer no ritmo de antes. Segundo ela, usar estímulos de curto prazo para impulsionar o crescimento seria como "beber veneno para saciar a sede".

O dados da China, aliados à explosão na maratona de Boston, derrubaram as bolsas nos EUA e no Brasil. Na Europa, a queda foi menor porque os mercados fecharam antes da tragédia. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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