Mark R Critino/ EFE
Comércio fechado em Pequim; política de zero tolerância contra a covid pode desaquecer a economia chinesa Mark R Critino/ EFE

China dá mais sinais de desaquecimento sob impacto da nova onda de covid no país

País pratica política de tolerância zero contra a pandemia, com lockdowns espalhados pelo território; vendas no varejo e na moradia e produção industrial apresentam quedas

Dow Jones Newswires e Associated Press, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2022 | 10h31
Atualizado 16 de maio de 2022 | 12h24

Dados divulgados nesta segunda-feira, 16, mostram novos sinais de desaquecimento econômico na China, com quedas nas vendas no varejo e na moradia e na produção industrial. O país tem praticado política de tolerância zero contra a covid-19, com cidades completamente fechadas, o que significa a redução da atividade na segunda maior economia do mundo e pode pressionar ainda mais a inflação e reduzir a atividade econômica em todo o globo.

As vendas no varejo na China recuaram 11,1% em abril na comparação anual de abril, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês) divulgados nesta segunda. A produção industrial local também caiu em abril, com recuo de 2,9% na comparação anual. A desaceleração da economia chinesa tem impacto também na economia brasileira. A dificuldade de importar produtos da China, principalmente insumos para a indústria, deve contribuir para manter a inflação em alta.

Mercado imobiliário e desemprego

O reflexo dos lockdowns chineses se faz sentir também no mercado imobiliário. As vendas de moradias na China caíram 32,2% no primeiro quadrimestre de 2022 na comparação com o mesmo período do ano passado. O resultado mostrou piora em relação ao declínio de 25,6% observado no primeiro trimestre.

As construções iniciadas - considerando-se tanto residências quanto propriedades comerciais - recuaram 26,3% no primeiro quadrimestre ante igual período do ano passado. No primeiro trimestre, a redução havia sido menor, de 17,5%. Já os investimentos no desenvolvimento de projetos imobiliários tiveram queda anual de 2,7% no terceiro trimestre, revertendo aumento de 0,7% visto no primeiro trimestre.

Em meio às dificuldades do setor imobiliário, o banco central chinês (PBoC) decidiu reduzir o limite mínimo de taxas de hipoteca para compradores do primeiro imóvel em até 20 pontos-base. 

O investimento em ativos fixos aumentou 6,8% no período de janeiro a abril, desacelerando em relação ao ritmo de 9,3% registrado no primeiro trimestre.

Por fim, o desemprego urbano subiu para 6,1%, um pouco abaixo da alta histórica de 6,2% registrada em fevereiro de 2020, quando a economia do país foi atingida pelos surtos iniciais de covid-19.

Órgão chinês fala em 'melhora gradual'

Uma autoridade do gabinete chinês diz que, apesar dos dados apresentados nesta segunda, que a economia chinesa está se reanimando à medida que restrições contra o coronavírus são relaxadas e a capital comercial de Xangai reabre os negócios.

A atividade econômica parece estar ganhando força neste mês, levando-se em consideração o aumento da demanda por energia elétrica e o maior volume de cargas movimentado, afirmou o chefe do Escritório Nacional de Estatísticas, Fu Linghui. Em entrevista coletiva, ele disse que cerca de metade das 9 mil maiores empresas industriais de Xangai retomaram as operações à medida que os surtos de covid-19 na maior cidade chinesa foram contidos.

"Acreditamos que a operação da economia está melhorando gradualmente", disse Fu. "O ritmo de recuperação do consumo vai acelerar, uma vez que a o impacto da epidemia esteja sob controle", acrescentou.

No domingo, 15, Xangai anunciou a reabertura gradual de supermercados, centros comerciais e restaurantes a partir desta segunda-feira.

Em abril, os efeitos da política de "tolerância zero" de Pequim contra a covid-19 foram bem claros. Na comparação anual, as vendas no varejo chinês sofreram um tombo de 11,1%, bem maior do que se previa, e a produção industrial teve uma inesperada queda de 2,9%, visto que muitas fábricas foram temporariamente fechadas.

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Lockdown chinês pressiona inflação e pode frear a economia global

Efeitos para o restante do mundo têm dois lados: o da dificuldade de entregar vendas feitas para a China e o de receber insumos para produção que são fabricados no país

Luciana Dyniewicz, Márcia De Chiara, Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2022 | 05h00

Se a China tropeça, o mundo todo sente o impacto. E a China está tropeçando. A política de tolerância zero contra a covid-19, com lockdowns espalhados pelo país, acenderam o alerta para a redução da atividade na segunda maior economia do mundo. Cidades completamente fechadas significam redução das importações e inviabilizam as exportações – sobretudo de bens industriais –, o que pode pressionar ainda mais a inflação e reduzir a atividade econômica em todo o mundo.

Apenas com o lockdown em Xangai, estima-se que a venda de carros na China tenha despencado 48% em abril, na comparação com igual período de 2021. A cidade é responsável por 3,8% do PIB chinês, mas tem o maior porto de contêineres do mundo. Em abril, a Apple informou que a situação na China pode lhe custar entre US$ 4 bilhões e US$ 8 bilhões em vendas perdidas.

Diante do cenário, a Santander Asset reviu sua estimativa de PIB para a China de 5% para 4,6%. O Itaú Unibanco, de 5% para 4,7%. Somado aos impactos da guerra na Ucrânia e da alta dos juros nos EUA, a política chinesa contra a covid deve desacelerar a economia global para algo em torno de 3% (número considerado ruim para o PIB global).

“Pelo tamanho da China, se ela crescer 4,5% já tem um efeito ruim. Isso não seria tão problemático se não houvesse tanta dúvida em relação à alta dos juros nos EUA. Mas as duas locomotivas do mundo estão com questões que significam menos crescimento nos próximos 18 meses”, diz Eduardo Jarra, economista-chefe da Santander Asset.

Economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani diz que a pressão inflacionária da interrupção das cadeias de produção chinesas também pode levar o Fed (banco central dos EUA) a elevar mais rapidamente os juros, reforçando a desaceleração global. 

Crise atinge indústrias no Brasil e deve afetar inflação 

A desaceleração da economia chinesa, provocada em parte pela política de covid zero – com lockdowns extremamente rigorosos –, terá impacto também na economia brasileira. A dificuldade de importar produtos da China, principalmente insumos para a indústria, se reflete nos preços e deve contribuir para manter a inflação em alta.

Segundo o presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, já há reflexos nos custos dos produtos vindos de fora. Em abril, os preços das importações, em dólares, subiram 34,4%, com recuo de 6,9% nas quantidades. Em março, os preços já tinham aumentado 29,5%, diz Castro. “O impacto desse lockdown na China é muito mais inflacionário”, diz.

Para o economista Lívio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a combinação dos novos lockdowns na China com estragos provocados pela guerra entre Ucrânia e Rússia deve levar a um mundo com inflação mais elevada por mais tempo. “Se antes a gente tinha dúvidas de que o processo de reorganização das cadeias produtivas se completaria este ano, hoje parece muito improvável que isso ocorra”, diz.

Atrasos de mercadorias

Em algumas empresas, o efeito do lockdown chinês já é sentido na pele. A Ecosan, fabricante de equipamentos para tratamento de efluentes domésticos e industriais, importa da China componentes como chapas de inox e produtos químicos para o tratamento de água e recuperação de efluentes. Normalmente, os bens levavam de 45 a 60 dias para chegar ao Brasil, prazo que passou a cem dias após a pandemia. Agora, com o novo lockdown, pode chegar a 120 dias.

“Com o recente lockdown, ficou ainda mais difícil manter as entregas para nossos clientes, além dos preços terem subido muito”, diz o presidente da empresa, André Ricardo Telles. Segundo ele, a Ecosan tem muitos itens à espera de embarque, o que tem levado a reprogramações constantes na linha de produção.

Giuliano Spinelli Gera, diretor da PG4 Calçados, de Franca (SP), diz que, antes da pandemia, a empresa exportava para dois países mas, com os problemas logísticos desde o início da crise sanitária muitos países se votaram para o Brasil e hoje ele vende seus produtos para 19 países. O maior cliente são os Estados Unidos.

O problema, ressalta ele, é que faltam navios para enviar as cargas pois parte deles fica muito tempo detida em Xangai, e aviões também estão mais escassos. “Quase sempre ficamos numa fila de espera”, afirma Gera.

A PG4 exporta atualmente metade de sua produção, mas, se não fosse a escassez de transporte o volume seria maior. “Como o produto demora mais a chegar no destino, por causa dos atrasos dos embarques, perdemos tempo para recolocar novos pedidos”, diz o executivo.

Para Tarcisio Costa, vice-presidente de Gestão de Materiais da ZF América do Sul, as dificuldades não estão na produção dos itens que são comprados lá fora, “mas na cadeia logística que está bloqueada ou extremamente congestionada na região toda, uma vez que um dos principais portos da China está em Xangai”.

Já a indústria farmacêutica contabiliza um atraso de cerca de 20 dias na entrega de matérias-primas compradas da China, segundo Henrique Tada, presidente executivo da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), que reúne mais de 50 empresas. “Neste momento, estamos com atraso na produção, mas ainda não há desabastecimento”, diz o executivo. A indústria farmacêutica nacional importa 90% das matérias-primas, e a China é hoje o principal fornecedor, seguido pela Índia.

Varejo

Os problemas de fornecimento também são vistos no comércio. As lojas da Rua 25 de Março, centro de comércio popular de São Paulo, começam a sentir a falta de alguns campeões de venda, como os carrinhos Hot Wheels, segundo Marcelo Mouawad, porta-voz da União dos Lojistas da 25 de Março e Adjacências (Univinco)

O empresário conta que os lojistas da 25 de Março estão se desdobrando para garantir as mercadorias. Segundo ele, o problema só não é ainda tão preocupante porque, neste momento, a demanda não está tão aquecida. Em suas contas, a demanda nas lojas da região ainda está cerca de 25% abaixo do período de pré-pandemia.

João Carlos Brega, presidente da Whirlpool América Latina (dona das marcas Brastemp e Consul), vai na mesma linha. Para ele, o problema dos lockdowns na China só não é maior porque a economia brasileira está muito desaquecida. “Já tivemos no passado mais problemas por falta de componentes”, diz. “No momento, não estamos tendo mais, porque o volume (de vendas) caiu no Brasil. Mas existem outros setores que estão sofrendo muito, como a indústria automobilística.”

Para ele, por conta de tudo que vem acontecendo no mundo, haverá uma diminuição da concentração dos fornecedores de insumos num só local, no médio e longo prazos.

Cenário global pode prejudicar Bolsonaro na eleição

A inflação alta no mundo, decorrente dos lockdowns da China e da guerra na Ucrânia, pode tirar votos do presidente Jair Bolsonaro, segundo o analista político Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia. “A China sozinha talvez não tenha um impacto tão grande. Mas temos de olhar para um conjunto de fatores que tende a exacerbar a inflação, o calcanhar de aquiles do governo.”

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‘Esse negócio de comprar 100% do Oriente vai acabar’, diz presidente da Whirlpool

Executivo acredita que haverá uma descentralização de fábricas ao redor do mundo, além da China

Entrevista com

João Carlos Brega

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2022 | 05h00

A interrupção das cadeias globais de suprimentos, provocada pela pandemia, acendeu o sinal de alerta para as indústrias sobre o risco de concentrar a produção de insumos no Oriente, especialmente na China, que neste momento passa por lockdowns em razão de novos surtos de covid-19.

“Esse negócio de comprar 100% do oriente vai acabar”, afirma João Carlos Brega, presidente da Whirlpool na América Latina, fabricante de geladeiras, fogões e lavadoras das marcas Brastemp e Consul. Ele destaca que as grandes empresas globais estão neste momento avaliando onde colocar fábricas que ficarão prontas nos próximos dois anos.

No caos que domina hoje as cadeias de abastecimento, o executivo enxerga uma grande oportunidade para o Brasil. Pela posição geográfica, o País poderia atrair investimentos de empresas multinacionais interessadas em instalar novas fábricas de insumos  fora da rota tradicional da Ásia. Mas para se candidatar a isso,  falta ambiente amigável aos investimentos, com segurança jurídica, infraestrutura, continuidade das parcerias público-privadas e o País estar nas regras da OCDE, por exemplo.

No momento, a empresa só não enfrenta problemas de abastecimento por causa da interrupção dos fluxos de componentes importados da Ásia porque a demanda doméstica por eletrodomésticos caiu 20% no primeiro trimestre. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia a situação do mercado hoje, com arrefecimento da pandemia?

Não tem coisa pior do que a crise sanitária. A gente não sabia o que iria acontecer, era uma insegurança total. Mas pensava-se que, quando tudo isso passasse, o ser humano iria se portar de maneira diferente. Infelizmente não foi verdade. Logo depois veio a guerra. Além disso, apesar de a crise sanitária no Ocidente estar sob controle, na China, houve novos surtos de covid. Do ponto de vista da economia, estamos sofrendo o impacto. Mas, em termos relativos, está menos ruim do que estava antes. Mas ficam as cicatrizes, tanto do lado pessoal como profissional. Não tenho dúvidas de que o mundo do supply chain (cadeia de abastecimento), como foi conhecido até então vai mudar, está mudando.

 

Como assim?

No médio e longo prazos, teremos uma diminuição da concentração dos fornecedores de insumos num só local. As empresas vão ter múltiplas fontes de abastecimento, umas mais perto outras mais afastadas. Vejo essa mudança num horizonte de quatro a cinco anos. Esse negócio de 'eu compro 100% do Oriente' vai acabar. E existe uma oportunidade muito grande para o Brasil  receber investimentos de empresas globais para a produção desses componentes. Todo mundo está olhando onde colocar essa fábrica que vai ficar pronta  nos próximos dois anos.

Já há evidências desses investimentos ou são avaliações?

São coisas que estão em andamento, vemos muitas discussões. E tem uma regra na economia: o mercado se ajusta e isso vai acontecer.

O que falta para o Brasil se credenciar para receber esses investimentos?

Falta ter um ambiente amigável ao investimento. Ter segurança jurídica, estar nas regras da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), ter infraestrutura, continuar com as parcerias público-privadas, isso é muito importante. Não pode ter fila no porto.

Como a Whirlpool está lidando com a paralisação dos embarques de componentes na China?

Já tivemos no passado mais problemas por falta de componentes. No momento, não estamos tendo mais porque o volume de (vendas) caiu no Brasil. Mas existem outros setores que estão sofrendo muito, como a indústria automobilística.

 Como estão as vendas de eletrodomésticos?

No primeiro trimestre deste ano, a indústria como um todo teve uma queda refletida nos números do IBGE  (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), da ordem de 20%.

Mas qual o número da Whirlpool?

É mais ou menos esse, na faixa de 20% no primeiro trimestre. Dependendo da categoria de produto, pode ser mais ou menos.

Como  a empresa está lidando com queda nas vendas, inflação de insumos e aumento de preços?

Produtividade. Antes da pandemia, em 2019, apesar de ter sido um grande ano versus 2018, estávamos nos recuperando da grande recessão de 2015. Os números de 2019 eram equivalentes a 2011 e 2012. Daí veio a pandemia, não tinha como cortar custo fixo e tivemos de trabalhar a produtividade. Tivemos ganhos bons por conta do aumento da escala (de vendas). Agora  em  2022 versus 2021 temos essas quedas da indústria. Mas comparado a 2019 e 2018, a queda é menor, de 5% a 7%. Não estamos numa situação tão dramática, do ponto de vista de custo fixo. Estamos administrando estoque, produção, turnover natural. Por causa da queda da demanda, não temos mais problemas de fornecimento de insumos, mas temos problemas de custos.

A pressão de custos é da ordem de quanto?

Dois dígitos para as commodities em geral. É muito forte.

Está difícil repassar a alta de custos?

Óbvio. Afeta a demanda. Tem hora que é preferível não vender a mandar um cheque com o produto. Neste momento, esse problema é mundial. México, Colômbia, Estados Unidos, todo mundo está sofrendo com inflação, desemprego, preço da gasolina. Mas o que é preocupante no mundo, não é o Brasil, é a inflação sistêmica. Se o cara vai subir 6%, vou subir 7% por minha conta. Essa bicicleta sem razão de ser é preocupante. Ela está tentando voltar, mas chega uma hora que a economia se ajusta. Veja o nosso caso, o mercado caiu 20%. Daí vai diminuindo as expectativas, a coisa vai voltando, mas leva tempo.

Como estão as negociações com os fornecedores?

Difíceis, porque o cobertor está curto para todos. Temos a junção de duas coisas: estamos pedindo redução de preço e redução de volumes. Normalmente, quando se reduz preço, se dá mais volume. Não está sendo assim, porque não tem como colocar mais volume. A contrapartida que está sendo dada é parceria de longo prazo, a certeza da continuidade.

Como estão as negociações com o varejo?

A mesma coisa, só inverte o sinal. É disputada e bastante difícil.

A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IP) surtiu efeito nas vendas?

A redução do IPI foi repassada para os preços dos produtos. Só que é muito pouco vis a vis ao aumento da inflação. Ela é necessária, mas não foi suficiente (para impulsionar vendas neste momento). Precisamos que essa redução seja permanente para gerar competitividade. 

A empresa adiou investimentos, demitiu?

Nunca paramos de investir em desenvolvimento de produto. Sempre investimos entre 3% a 4% do faturamento. Quando se fala em custos fixos, estamos prestando atenção: hoje estamos abertos a contratações? Não. As contratações são muito seletivas. Quando uma pessoa sai da empresa para outra oportunidade, essa reposição é muito bem pensada, não é automática. Estamos  gastando mais tempo para buscar alternativas internas, para aumentar a produtividade. Tudo está sendo olhado: viagens, aluguel da máquina, custo do produto químico. Não tem nenhuma grande reestruturação.

Hoje o crédito está mais caro, a inflação está alta e o consumidor sem dinheiro. Há mudanças nos produtos em função desse perfil do consumidor?

A gente sempre vai buscando a relação entre custo e benefício para o consumidor. Ninguém compra o barato pelo barato. Quando o consumidor está com pouco dinheiro, ele compra quando vê valor agregado no produto.

Em outras crises que houve, produtos mais baratos, chamados de entrada, ganhavam relevância nas vendas. Está ocorrendo algo nesse sentido?

É óbvio que, por mais que se deseja a relação custo/benefício, a capacidade financeira chega uma hora que compromete (a compra). Existem três alavancas de demanda para os eletrodomésticos: a reposição do produto, as novas casas e a reforma. Hoje a maior demanda está sendo para reposição e, muitas vezes, se o consumidor não tem dinheiro, ele vai para o produto de menor preço. Mas não é  tão significativo (esse movimento) quanto era antes. Há alguns benefícios dos eletrodomésticos que o consumidor não abre mão: acendimento automático, luz do forno, descongelamento automático, por exemplo.

 

Hoje o que está sustentando a demanda é a compra para reposição do produto?

Diria que estão equilibradas as três alavancas, mas está diminuindo a compra voltada para a reforma.

Como o sr. está vendo os próximos meses?

Temos um fator externo, que é como acomodar essa cadeia de fornecimento. Isso deve se estender até o primeiro trimestre do ano que vem. Temos um fator interno, que é a eleição presidencial. Esses dois fatores fazem com que a gente tenha um ano de cinto afivelado. Aperte o cinto, o avião é bom, mas vamos atravessar turbulências.

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