Andy Wong/ AP Photo
Andy Wong/ AP Photo

China e EUA em um novo tipo de guerra fria

Disputa comercial é só a metade do problema, já que confrontos se dão em todos segmentos e vencer implica total derrota da potência adversária

Tradução Terezinha Martins, The Economist

19 de maio de 2019 | 03h00

A disputa comercial é só a metade do problema. Estados Unidos e China estão se confrontando em todos os segmentos, de semicondutores a submarinos e dos filmes de grande sucesso à exploração lunar. As duas superpotências antes estavam em busca de um mundo em que todos ganhassem. Hoje, vencer implica a derrota do outro – um colapso que submeta permanentemente a China à ordem americana ou uma América humilde que se retire do Pacífico Ocidental. Nesse novo tipo de guerra fria, pode não haver nenhum vitorioso.

Os EUA se queixam que a China age desonestamente, roubando tecnologia e se inserindo à força no Mar da China Meridional. Também intimidando democracias como Canadá e Suécia e, por isso, vem se tornando uma ameaça global. A China está presa entre o sonho de reconquistar seu lugar de direito na Ásia e o temor de uma América acabada e ciumenta, que deseja bloquear sua ascensão porque não aceita o próprio declínio.

O potencial para uma catástrofe se avizinha. Sob o comando do Kaiser, a Alemanha arrastou o mundo para uma guerra; EUA e União Soviética flertaram com o Armagedom. Mesmo que China e EUA evitem o conflito, o mundo arcará com custos da redução do crescimento.

Aprender a viver juntos num mundo no qual prevaleça a desconfiança não será rápido nem fácil. A tentação é manter a China de fora, como os EUA fizeram com a URSS – e não apenas a Huawei, que esta semana foi bloqueada por decretos, como quase toda a tecnologia chinesa.

Em termos nominais, o comércio soviético-americano nos anos 80 era equivalente a US$ 2 bilhões por ano; entre EUA e China, hoje, é de US$ 2 bilhões por dia. No âmbito das tecnologias cruciais, como a produção de chips e a tecnologia 5G é difícil dizer onde o comércio acaba e a segurança nacional começa. As economias dos aliados dos EUA na Ásia e na Europa dependem do comércio com a China. Somente uma ameaça clara e direta os persuadirá a cortar seus vínculos com ela.

Seria insensato da parte dos EUA deixar as coisas como estão. O presidente Xi Jinping reafirmou seu controle do partido e começou a projetar o poder chinês em todo o mundo. Em parte por causa disso, uma das poucas crenças que unem republicanos e democratas é que os EUA precisam agir contra. Mas como?

Tiro no pé. Para começar, os EUA necessitam parar de corroer as próprias forças. Como imigrantes são vitais para a inovação, os obstáculos colocados pelo governo Trump à imigração legal são contraproducentes. Outra força são as alianças mantidas pelo país nas instituições e normas que criou após a Segunda Guerra. Trump eliminou as normas, em vez de reforçar as instituições, e atacou a União Europeia e o Japão no campo comercial no lugar de trabalhar com esses aliados para pressionar a China a mudar de atitude.

Os EUA precisam também reforçar suas defesas. Isso requer o poder duro, à medida que a China vem se armando, inclusive em campos mais novos, como o espacial e o ciberespacial. Mas significa também encontrar um equilíbrio entre a proteção da propriedade intelectual e o respaldo do fluxo de ideias, pessoas, capital e bens.

Lidar com a China significa ainda encontrar maneiras para gerar confiança. As medidas que os EUA pretendem adotar, por mais defensivas que sejam, aos olhos chineses são uma agressão a ser contida.

Uma defesa mais forte necessita de um programa que fomente o hábito de trabalhar junto, como quando EUA e União Soviética discutiram uma redução de armamentos enquanto as ameaças mútuas eram garantia de destruição. China e EUA não têm de concordar com as normas para concluir que é do seu interesse viver de acordo com elas. Não existe escassez de projetos nos quais podem trabalhar juntos, incluindo regras envolvendo uma guerra espacial ou, se Trump reconhecer o problema, a mudança climática.

Uma agenda como essa exige habilidade, liderança política e visão. O que falta neste momento. Trump olha com desprezo o bem global. A China, por outro lado, tem um presidente que deseja aproveitar o sonho de grandeza nacional para justificar o controle total do Partido Comunista. Líderes futuros poderão ser mais abertos à colaboração, mas não há garantias.

Três décadas depois do colapso da União Soviética, o momento unipolar acabou. Relações comerciais e lucros, que consolidavam a relação se tornaram motivo de disputa. China e EUA necessitam criar regras que ajudem a gerir a era de competição de superpotências.

 

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