China eleva taxa de juro pela primeira vez em quase três anos

Medida é uma tentativa de segurar a inflação e conter a especulação imobiliária e no mercado de ações

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE PEQUIM, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

A China surpreendeu os mercados globais ontem com a decisão de elevar a taxa de juros pela primeira vez em quase três anos, numa tentativa de segurar a inflação e conter a especulação no mercado imobiliário e de ações.

A decisão derrubou as bolsas de valores ao redor do mundo. A aversão ao risco provocou uma fuga para o dólar, que se valorizou em relação a outras moedas, incluindo o real.

Os investidores temem que o menor crescimento da China prejudique a recuperação da economia global.

Mesmo com a alta de 0,25 ponto porcentual que entra em vigor hoje, a taxa de juros chinesa para depósito de um ano vai para 2,5%, abaixo da inflação de 3,5% em agosto, a maior em 22 meses. No ano, o índice pode chegar a 4%.

O fato de as taxas de juros reais estarem negativas estimula os chineses a retirarem dinheiro do banco e aplicarem os recursos na compra de imóveis ou de ações, inflando a bolha de ativos temida pelas autoridades de Pequim.

Ontem, a Bolsa de Xangai subiu 1,6% e fechou acima da barreira psicológica de 3 mil pontos pela primeira vez desde abril. Segundo a rede de televisão estatal CCTV, havia rumores no mercado de que os investidores estavam deixando de aplicar dinheiro na compra de imóveis para adquirir ações.

Amanhã serão divulgados dados de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre e da produção industrial e da inflação em setembro.

Expectativa. Na opinião da economista-chefe do banco UBS na China, Wang Tao, a decisão de ontem é uma indicação de que os números poderão vir acima do esperado pelo mercado. "Esse é um movimento necessário que foi adiado por muito tempo", escreveu Wang em análise divulgada na noite de segunda-feira.

A taxa sobre os empréstimos também foi elevada em 0,25 ponto porcentual, para 5,56% ao ano, o que vai encarecer os financiamentos e o custo dos investimentos. Mas poucos consideram a elevação alta o suficiente para conter de maneira significativa o ritmo de expansão da economia chinesa.

Na opinião da economista do UBS, o anúncio de ontem representa uma inflexão na atuação do Banco do Povo da China e deverá ser seguido por mais três aumentos em 2011, até que as taxas voltem ao nível que tinham antes da crise iniciada em 2008.

O problema é que a alta dos juros eleva a atração de capital especulativo para o país, que foi em parte responsável pela alta recorde de US$ 194 bilhões no volume de reservas internacionais no terceiro trimestre, para US$ 2,648 trilhões.

Os empréstimos concedidos pelos bancos chineses são a principal fonte dos recursos que alimentam o crescimento do PIB do país, que ficou em 11,9% no primeiro trimestre e de 10,3% no segundo. O Banco Mundial espera que a expansão da China feche 2010 em 9,5%.

A última alta de juros na China havia ocorrida em dezembro de 2007, meses antes do estouro da crise financeira internacional, em setembro de 2008. O governo respondeu com o anúncio de um pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans (US$ 600 bilhões ao câmbio de ontem) e um programa agressivo de obras de infraestrutura que se espalharam pelo país.

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