China enfrenta a ''revolta'' da mão de obra

Greves cada vez mais frequentes e longas forçam o aumento dos salários nas fábricas

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Nos últimos três meses, a Honda enfrentou quatro ondas de greves na China, que terminaram em aumentos de salários para milhares de operários de suas fábricas e de seus fornecedores.

A Foxconn, maior fabricante de produtos eletrônicos do mundo, anunciou em junho que elevaria em pelo menos um terço o pagamento de seu exército de 600 mil empregados chineses, depois que dez deles se suicidaram neste ano. E, no início deste mês, algumas regiões reajustaram em cerca de 20% o valor do salário mínimo, que não é unificado nacionalmente.

A sucessão de manchetes sobre conflitos laborais, o aumento da remuneração e a escassez de operários desencadearam um acirrado debate, no qual economistas se dividem entre os que acreditam no fim da era da mão de obra barata e abundante e os que sustentam que ainda há um longo caminho a ser percorrido até que a China perca a vantagem comparativa dada por milhões de empregados mal pagos.

Greves e protestos de operários não são um fenômeno raro no país, diz a economista brasileira Paula Nabuco, da Universidade Federal Fluminense, que elabora tese de doutorado sobre economia e relações de trabalho na China. A novidade agora é que as paralisações ganharam destaque na imprensa oficial, totalmente sujeita à censura do governo, e atingiram as grandes companhias multinacionais instaladas na China, especialmente japonesas.

A montadora Honda foi alvo da mais longa greve registrada em empresas estrangeiras no país, que interrompeu por três semanas sua linha de montagem em Foshan, na província sulista de Guangdong, a maior base exportadora chinesa. A paralisação terminou no início de junho, depois que os operários conquistaram reajuste salarial de 24%.

A mais recente onda de greves enfrentada pela companhia japonesa chegou ao fim na quinta-feira na Atsumitec, que produz peças para os freios do Honda Accord. Os operários conquistaram aumento de 45%, o que elevou sua remuneração a 1.420 yuans mensais. Mesmo com o reajuste, os 1.420 yuans equivalem a R$ 370,00, pouco mais de dois terços do valor do salário mínimo brasileiro, de R$ 510,00.

Prematuro. Stephen Roach, presidente do banco Morgan Stanley na Ásia, afirmou em artigo publicado no portal da revista The Economist que é "totalmente prematuro" sustentar que chegou ao fim a vantagem comparativa dos custos trabalhistas na China.

O executivo observou que os operários chineses ganhavam US$ 0,81 por hora em 2006, o que correspondia a 2,7% do que trabalhadores norte-americanos recebiam. Mesmo se tivessem obtido reajustes anuais de 25% no período de 2007-2010 - hipótese descartada por ele -, a remuneração no país asiático seria hoje de US$ 1,98 a hora, ou 4% do que é pago nos Estados Unidos e metade do valor registrado no México.

Ainda que não representem o fim da era da mão de obra barata e abundante, os recentes reajustes de salários são essenciais para o aumento do peso do consumo doméstico no PIB chinês e a redução da dependência do país em relação às exportações, uma mudança estrutural que o governo de Pequim passou a perseguir com mais empenho depois da crise mundial iniciada em 2008.

"Mais do que lamentar o fim do baixo custo do trabalho na China, o debate global deveria focar nas implicações construtivas desse desenvolvimento no tão esperado rebalanceamento da economia chinesa em direção ao consumo", escreveu Roach.

Com uma posição mais extrema, o economista-chefe do Credit Suisse na China, Dong Tao, acredita que o caso dos suicídios na Foxconn e os posteriores aumentos de salários marcam uma mudança no papel da China como a "fábrica do mundo". Segundo ele, o modelo de crescimento baseado nas exportações está sendo desafiado pela elevação na remuneração dos operários e a escassez de mão de obra nas regiões da costa leste, onde se concentra o parque industrial.

"O governo chinês está gradualmente mudando sua atenção do rápido crescimento econômico para a melhor distribuição da riqueza, o que é extremamente importante para aumentar o consumo e, assim, favorecer o crescimento", ponderou Dong.

Desestímulo. É difícil acreditar que faltam trabalhadores em um país que ainda tem quase metade de sua população na zona rural. Mas uma série de fatores recentes passou a desestimular o abandono do campo para a busca de trabalho nas cidades.

A principal fonte de mão de obra das linhas de montagem e dos canteiros de obra da China são os cerca de 150 milhões de migrantes rurais, que vagam pelo país em busca de oportunidades de emprego.

Na opinião de Yang Yao, professor do Centro Chinês de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim, entre os fatores que provocam aumento de salários nas cidades estão os subsídios dados pelo governo aos camponeses e a abolição de tributos sobre a atividade agrícola, o que elevou a renda na zona rural.

Outra razão é a inflação dos alimentos, que colocou mais dinheiro no bolso dos camponeses. Em 2007 e 2008, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) teve alta de 4,8% e 5,9%, respectivamente, enquanto os alimentos subiram 12,3% e 14,3%, lembrou Yang em artigo veiculado pela The Economist.

No ano passado, o preço dos alimentos subiu 0,7%, enquanto o IPC caiu na mesma proporção. Com isso, os camponeses passaram a exigir remuneração mais alta para deixar a terra e buscar emprego nas cidades.

Ao mesmo tempo em que a renda sobe no campo, o custo de vida urbano aumenta, especialmente com a forte especulação imobiliária, afirmou Li Yihui, da Academia Chinesa de Ciências Sociais. "A pressão sobre os salários tem origem no fato de que a "economia da bolha" comeu e está comendo os dividendos dos trabalhadores chineses."

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