China investe pesado no Brasil

China investe pesado no Brasil

Visita do presidente Hu Jintao, em 15 e 16 de abril, vai marcar salto nos projetos, concentrados nos setores de petróleo, mineração e siderurgia

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

O ano de 2010 deverá assistir a um salto no volume de investimentos da China no Brasil, com os maiores negócios da história das relações bilaterais. A maior quantidade de recursos estará concentrada nos setores de petróleo, mineração e siderurgia, que atendem a necessidades estratégicas do país asiático para manutenção do alto ritmo de crescimento econômico.

A visita ao Brasil do presidente Hu Jintao, em 15 e 16 de abril, será um marco nessa onda de investimentos. Durante a passagem do líder chinês pelo Brasil deverá ser assinado o contrato entre a LLX, do empresário Eike Batista, e a estatal Wisco (Wuhan Iron and Steel Corporation), para a construção de uma siderúrgica no Porto do Açu.

Se concretizado, o investimento será o maior já realizado pela China no setor de siderurgia em outro país, além de ser o maior investimento chinês já recebido pelo Brasil. A Wisco entrará com 70% dos US$ 4,7 bilhões necessários à concretização do projeto.

A Petrobrás e a Sinopec discutem parceria que pode levar à exploração conjunta de petróleo no Brasil e trabalham para que o acordo seja anunciado durante a visita de Hu. A estatal chinesa já tem participação de 20% em dois poços da Petrobrás no Pará.

Além disso, a companhia brasileira negocia novo empréstimo de US$ 10 bilhões com o Banco de Desenvolvimento da China (BDC), que poderá ser anunciado na visita do líder chinês.

O interesse dos chineses em investir no setor é evidenciado pelo grande número de autoridades brasileiras ligadas ao petróleo que estão em visita oficial à China. O diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Haroldo Lima, chegou quinta-feira a Pequim, a convite do diretor da Administração Nacional de Energia, Zhang Guobao.

Na sexta-feira, Lima participou da abertura de seminário sobre investimento no Brasil, promovido em conjunto pela Petrobrás e pelo BDC, no qual falaram representantes da estatal brasileira, entre os quais o diretor financeiro, Almir Barbassa.

Leilões. O diretor-geral da ANP disse que os chineses declararam "quase expressamente" que vão participar de leilões de concessão para exploração de petróleo no Brasil. O principal objetivo da visita é explicar ao governo e às estatais locais o modelo de concessão brasileiro e o papel da ANP. "Eles querem compreender a relação entre o órgão regulador, as empresas estrangeiras, as brasileiras e a Petrobrás", disse Lima ao Estado.

A China é o segundo maior consumidor de petróleo do mundo e tem dependência crescente das importações. No ano passado, teve uma demanda de 8 milhões de barris, 52% dos quais comprados no exterior, na primeira vez em que a parcela de importados superou os 50%. O governo de Pequim acredita que chegará a 65% por volta de 2020.

Com a perspectiva de manter forte crescimento no futuro próximo, os chineses estão preocupados com a segurança energética e tentam garantir fontes estáveis de fornecimento. O descobrimento do petróleo na camada do pré-sal no Brasil abriu novo capítulo na exploração do produto e criou uma fonte potencial de fornecimento à China. "O setor de petróleo levará ao surgimento de nova geração de projetos de investimentos chineses no Brasil", disse ao Estado o embaixador do Brasil na China, Clodoaldo Hugueney.

O diplomata acredita que 2010 será um marco na relação entre os dois países. Ele ressaltou que as empresas chinesas estão se internacionalizando e o Brasil é cada vez mais atraente. Com US$ 2,4 trilhões de reservas internacionais, a China tem capital de sobra para investir e busca ativos que possam dar retorno ou que respondam às suas necessidades estratégicas.

O representante do Itaú BBA em Xangai, Roberto Dumas Damas, afirmou que a crise financeira mundial e a retração da demanda dos EUA por produtos do país asiático desempenharam um papel central no aumento do interesse dos investidores chineses pelo Brasil. "Antes havia muita prospecção, agora estou vendo coisas concretas", disse. A China já anunciou que vai participar da licitação para construção do trem de alta velocidade que vai ligar o Rio, São Paulo e Campinas, a primeira disputa do tipo de que o país participará.

Damas ressaltou que o investimento no Brasil também vai estimular as exportações chinesas, o que pode amenizar em parte a retração americana. "A demanda dos Estados Unidos caiu e a China está em busca de outros mercados para ocupar o lugar. Por isso, a América Latina virou a nova "darling" dos chineses."

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