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China já pensa no futuro sem estímulos

Otimistas esperam crescimento de 8% e os pessimistas, não mais de 7%

Cláudia Trevisan e Raquel Landim*, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

O imenso pacote de estímulo adotado pela China vai dar fôlego para o país crescer pelo menos 8% em 2009 e 2010, mas os economistas começam a se perguntar o que vai acontecer depois que a torneira do gasto público e do crédito barato for fechada, no fim do ano que vem.O grupo dos pessimistas afirma que a China não conseguirá manter o mesmo ritmo de crescimento e terá de se acomodar num patamar mais baixo, de 5% a 7%. "A contração no déficit dos EUA leva necessariamente à contração do crescimento chinês. Isso só não ocorreu em razão do pacote de estímulo, cujo efeito deverá durar por dois anos", diz o mais célebre representante dos céticos, o economista americano Michael Pettis, professor de finanças da Universidade de Pequim. Do outro lado estão os que acreditam na manutenção de uma taxa próxima de 8%, desde que os países desenvolvidos tenham uma pequena reação no crescimento. Nesse grupo está a economista-chefe do Banco UBS na China, Wang Tao, para quem a China tem munição para manter o alto crescimento, como a ampla oferta de mão de obra e de capital. Pelo menos nos próximos anos, a expansão não voltará aos níveis de 10% a 13% do período de 2002 a 2008, mas poderá girar em torno de 8%, acredita Wang.O que diferencia as duas visões é o peso que cada grupo atribui às exportações e à dependência dos EUA. Pettis afirma que o consumidor americano não voltará a demandar produtos da China na mesma proporção verificada nos últimos anos. Com a redução das compras de seu maior cliente, o país asiático teria de se reestruturar e se adaptar a um ritmo de crescimento mais baixo que a média anual de quase 10% das últimas três décadas. O brasileiro Roberto Dumas Damas, representante do Itaú BBA em Xangai, concorda com Pettis. Segundo ele, o pacote de estímulo do governo chinês está acentuando os desequilíbrios da economia local, com aumento do já enorme peso dos investimentos como motor de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)."No futuro, isso só vai funcionar se os consumidores americanos voltarem a consumir e a se endividar como no passado, o que é improvável. Quem vai usar essa infraestrutura que está sendo construída? Quem vai comprar os produtos que serão fabricados?", pergunta Dumas. Mas, para Wang Tao, a queda nas exportações terá um impacto no crescimento menor do que o que geralmente se supõe. A economista ressalta que as vendas externas respondem por 20% do PIB, já que o processamento de bens fabricados em outros países responde por metade das exportações.REFORMAS"A China não depende de capital externo ou de capital relacionado à exportação para crescer. Ela tem poupança doméstica. E a China ainda está em um estágio inicial de desenvolvimento, com um PIB per capita de US$ 3,5 mil", observa Wang.Mas todos concordam que são necessárias reformas estruturais para ampliar o consumo e sua importância para o crescimento do país, excessivamente dependente dos investimentos. Para Arthur Kroeber, economista-chefe da consultoria Dragonomics, o governo chinês precisa melhorar a rede de proteção social, desregulamentar o setor financeiro e liberar o setor de serviços.Na área social, o governo deu os primeiros passos na criação do sistema de saúde público e gratuito e de aposentadorias. Hoje, os chineses têm de pagar para serem atendidos por médicos e internados em hospitais e só uma minoria recebe pensão quando deixa de trabalhar. Isso faz com que as famílias poupem para enfrentar emergências, pagar a escola dos filhos e ter dinheiro para o futuro. A criação de uma rede de proteção social é fundamental para estimular os chineses a gastar, mas os resultados só vão aparecer no médio e longo prazos."Na China, a confiança é tudo. Apenas quando tiverem a certeza de uma velhice tranquila, as famílias vão se animar a gastar mais. Com essas mudanças, estamos construindo um grande mercado na área rural, para onde poderemos exportar muito", avaliou o professor da Universidade de Relações Internacionais (UIR) da China, Lin Hongyu. O governo também tomou medidas para uma reforma financeira, entre as quais está a criação de um mercado de bônus. Para Krober, a desregulamentação do sistema financeiro vai provocar, no médio e longo prazos, um aumento do custo de capital da China.Quando isso ocorrer, as indústrias deixarão de ter incentivo para produzir acima da demanda do mercado. Também nesse caso o impacto é lento. Em um primeiro momento, o custo do capital pode até cair.O economista avalia ainda que o governo precisa liberar o setor de serviços, para estimular o crescimento do mercado local. Na China, os setores de telecomunicações e aviação, por exemplo, são ligados ao governo central. Já as províncias têm o controle de áreas como comércio atacadista e logística. "Muitas vezes esses serviços são extremamente ineficientes e com altos custos", disse Kroeber. Ele acredita que essa última opção é uma maneira de estimular a economia, mas o governo ainda não deu nenhum sinal nesse sentido.*A jornalista viajou a convite da ApexDOIS LADOSMichael PettisEconomista americano e professor de finanças da Universidade de Pequim"A contração no déficit dos EUA leva necessariamente à contração do crescimento chinês. Isso só não ocorreu em razão do pacote de estímulo, cujo efeito deverá durar por dois anos"Wang TaoEconomista-chefe do UBS na China"A China tem munição para manter o alto crescimento, como a ampla oferta de mão de obra e de capital"Roberto Dumas DamasDo Itaú BBA em Xangai"No futuro, isso só vai funcionar se os consumidores americanos voltarem a consumir e a se endividar como no passado, o que é improvável."

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