China perde o controle da sua economia Frankenstein

Se o governo quer de fato reduzir o papel das empresas estatais na economia do país, deve em primeiro lugar privatizar os bancos

WILLIAM, PESEK, BLOOMBER NEWS, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2013 | 02h12

O mundo aceitou cada vez mais a ideia de que os líderes chineses são administradores hábeis da colossal economia do país. Eles contornaram brilhantemente o iceberg da crise financeira de 2008, mantendo o crescimento a taxas de quase dois dígitos. Assim, quando o presidente do Banco da China, Zhou Xiaochuan, decidiu pôr um freio na liquidez excessiva na semana passada, alguns observadores o consideraram um Paul Volcker chinês. Agora que o pior passou, Zhou deixou claro que estava na hora de a China passar a limitar os empréstimos e impedir que a bolha do crédito se avolume.

Mas então a realidade interveio. Depois que a taxa de recompra overnight atingiu o patamar recorde de 13,91%, Zhou precisou recuar, injetando rapidamente capital no mercado para conter a turbulência. O caos traumatizou os mercados monetários. Alguns estavam aterrorizados diante dos sinais de que Zhou colocaria um fim na era do crédito fácil na China. Outros temiam o contrário.

Na verdade, o mal-estar que continuou esta semana deixou claro o quão limitados, na realidade, são os poderes de Zhao. Na década passada, a economia chinesa tornou-se cada vez mais dependente do crédito em excesso, com os bancos estatais incentivados a financiar novos arranha-céus, rodovias, aeroportos, hidrelétricas e cidades-fantasma para inflar o Produto Interno Bruto (PIB). Os recursos fluindo livremente - especialmente para empresas estatais - mantiveram as ações e o setor imobiliário animados, os investidores estrangeiros otimistas e os 1,3 bilhão de chineses longe da Praça Tiananmen.

Zhou não pode cortar o crédito agora sem que os bancos sofram. E o perigo é que ninguém realmente sabe como está a saúde dos bancos estatais chineses, ou qual o tamanho do enorme sistema de financiamento paralelo. Quando Stephen Green, da Standard Charteres em Hong Kong, chamou o sistema de crédito da China de "enorme caixa preta, e assustador", não estava exagerando.

Como alguém pode acreditar que a China vem crescendo a uma taxa de 7,7%, como afirma o governo, quando variáveis cruciais na sua tabela de dados são um mistério? O economista Lu Ting do Bank of America em Hong Kong expôs-se à ira da China ao afirmar que o superávit comercial do país era um décimo dos US$ 61 bilhões informados a partir de meados de maio. Esse caráter de "ninguém sabe" do sistema de crédito da China - quantidade, qualidade, ou excessos - é ainda mais preocupante.

O sistema bancário paralelo dos Estados Unidos, com seus instrumentos para ocultar dados do balancete e negócios escusos, ajudou a descarrilar os mercados mundiais em 2008. Imagine os danos que uma economia paralela inteira pode causar se isso também ocorrer.

Os líderes chineses evitaram uma explosão da bolha em 2008 criando novas. Mas a China não pode retardar para sempre a sua hora da verdade.

O crédito total pode atingir 200% do PIB neste trimestre, em comparação com os 130% em 2008. Os bancos do continente estão atualmente adicionando ativos a uma taxa equivalente a um sistema bancário americano a cada cinco anos.

Tradicionalmente, Pequim encarou a opacidade como uma ferramenta poderosa para policiar a canalização de fundos entre bancos e companhias. Essa opacidade agora está se tornando perigosa. O banco central necessita confirmar que controlará a liquidez interbancária, explicar os meios pelos quais assim o fará e indicar qual será o estágio final do processo. Seus comunicados padronizados e vagos só exacerbam a aflição nos mercados.

Ao mesmo tempo, Zhou está fundamentalmente indefeso. Ele não pode agir com eficácia a menos que a alta liderança política decida que o Partido Comunista deve se retirar dos negócios bancários. A China necessita alocar capital de modo menos imprudente e cobrar por isso de acordo com a realidade econômica e não com base em decretos das autoridades que lucram com a atual organização das coisas. Se o governo quer de fato reduzir o papel das companhias estatais na economia do país, como deve, pois somente um setor privado próspero contribuirá para uma maior inovação e competitividade, deve primeiramente privatizar os bancos.

O adiamento dessa tarefa difícil transformou a economia chinesa num monstro como Frankenstein. Uma criatura poderosa e gigantesca nascida de experimentos não ortodoxos e da qual seus criadores perdem cada vez mais o controle.

Ninguém inveja o presidente chinês, Xi Jinping, e o premiê, Li Kegiang.

Eles têm de administrar uma economia que desacelera e implementar reformas cruciais sem levar o pânico para os mercados, nem desestabilizar a sociedade chinesa. Eles deveriam analisar medidas precedentes adotadas pelo ex-premiê Zhu Rongji, cujos esforços para modernizar as empresas estatais na década de 90 deixaram mais de 40 milhões de desempregados, mas propiciaram o equilíbrio tão necessário para a economia.

Uma terapia de choque será dolorosa. E para ser eficaz ela terá de tratar o problema na sua raiz e não somente os sintomas.

Do contrário, todo o esforço de Zhou para limitar o crédito somente produzirá pânico nos mercados. Ele está certo quando diz que o Frankenstein da China precisa ser refreado. Mas apenas os seus criadores podem fazer isso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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