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‘China pode crescer 8% ou 9% ao ano por mais uma década’, diz economista

Na avaliação do economista, setor privado deve ganhar peso na China com as reformas anunciadas

Entrevista com

Cláudia Trevisan, correspondente de O Estado de S.Paulo,

26 de novembro de 2013 | 02h15

WASHINGTON - Se implementar todas as reformas anunciadas pelo Partido Comunista, a China poderá crescer de 8% a 9% ao ano por mais uma década, avalia o economista Nicholas Lardy, que estuda o país asiático desde o fim dos anos 70. Mas as autoridades de Pequim enfrentam um enorme desafio de curto prazo, que é conter o excessivo investimento no setor imobiliário. "Neste ano, eles estão investindo 12% do PIB só em imóveis residenciais. Isso é o dobro do que os Estados Unidos investiram no pico (da bolha imobiliária). A Espanha, no pico, investiu 9% do PIB, antes que houvesse o crash", diz Lardy, que desde 2003 está no Peterson Institute for International Economics, em Washington. Na opinião dele, uma das mudanças de maior impacto entre as anunciadas pelo líderes chineses é a liberalização da taxa de juros incidente sobre depósitos. Hoje, ela é controlada pelo governo e mantida em patamares baixos, um fenômeno que Lardy chamou de "repressão financeira" no livro Sustaining China's Economic Growth After the Global Financial Crisis (Sustentando o Crescimento da China Depois da Crise Financeira Global), publicado em 2012. A seguir, trecho da entrevista de Lardy ao Estado.

Como será a economia chinesa se todas as reformas anunciadas forem implementadas?

Eu espero ver o papel do setor estatal recuar ainda mais. Ele já diminuiu bastante nos últimos 35 anos. As reformas vão continuar a criar um crescimento econômico alto. Se as reformas forem implementadas, a economia crescerá 8% ou 9% por mais uma década. O setor mais produtivo da China é o privado. O retorno sobre ativos no setor privado é de cerca de 14% ao ano. No estatal ele é de apenas 5%. Com as reformas, mais recursos vão para o setor privado. Portanto, para a mesma quantidade de investimentos, haverá um índice maior de crescimento econômico.

Como o sr. compara o anúncio recente a outras reformas na China, como as de 1978 e 1993?

O documento é provavelmente o mais impressionante. Mas o que vai importar é a sua implementação. Na Terceira Reunião Plenária de 1978 (que iniciou o processo de reforma e abertura), ninguém tinha ideia do que sairia do encontro, e só vimos o que estava ocorrendo em 1982, 1983. O documento atual é mais detalhado e trata de temas concretos. Mas só saberemos se ele vai ou não levar a mudanças fundamentais quando virmos a sua implementação.

Quais são as mudanças mais importantes?

A principal é a ampliação do papel do mercado e a reforma dos preços dos fatores de produção. É deixar os mercadores tomarem as decisões.

O que muda no setor financeiro?  

 

A mais importante mudança é a liberalização das taxas de juros incidentes sobre depósitos. O sistema atual (que mantém as taxas em patamar baixo) dá aos bancos uma fonte de fundos muito barata. Com isso, há muito investimento, porque o preço do capital é muito baixo. A liberalização do setor financeiro, em particular das taxas de juros, será um passo muito importante.

A economia chinesa enfrenta problemas de curto prazo, entre os quais uma provável bolha no mercado imobiliário, expansão de crédito fora do sistema bancário e investimento excessivo. Eles vão conseguir administrá-los?

Eles investiram de maneira maciça no setor imobiliário e será um grande desafio sair disso sem provocar enormes consequências econômicas. Essa é outra razão pela qual eles têm de liberalizar as taxas de juros sobre depósitos. Uma das razões pelas quais as pessoas investem em propriedades é porque não podem ganhar nada colocando dinheiro nos bancos. O retorno real sobre depósitos bancários tem sido em média negativo por quase 11 anos. Se as taxas dos depósitos forem liberalizadas, elas são mais atraentes do que foram no passado, o que pode desestimular o investimento no setor imobiliário.

E a questão do investimento excessivo como um todo?

A taxa de juros vai ser mais alta, o custo do capital vai aumentar e isso vai automaticamente levar à redução do nível de investimentos.

Mas há pessoas que veem o risco de um pouso forçado por causa da crise no setor imobiliário.

O setor imobiliário é o maior risco de curto prazo. Neste ano, eles estão investindo 12% do PIB só em imóveis residenciais. Isso é o dobro do que os Estados Unidos investiram no pico (da bolha imobiliária). A Espanha, no pico, investiu 9% do PIB, antes que houvesse o crash. O investimento em imóveis residenciais está na estratosfera. A Irlanda é o único país que investiu mais em propriedades residenciais do que a China.

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