China pode inflar nova bolha das commodities

Compras chinesas para estocagem têm pressionado os preços

Keith Bradsher, THE NEW YORK TIMES, HONG KONG, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

As frequentes compras feitas pela China ajudaram a elevar o preço das commodities em todo o mundo na última primavera, mas um número de indícios cada vez maior sugere que boa parte dessas compras tenha o objetivo de estabelecer estoques e esse consumo pode não ser sustentável.Ao menos 90 cargueiros repletos de minério de ferro estão ociosos nos portos chineses,esperando até duas semanas para desembarcar porque as operações de estocagem estão sobrecarregadas, disseram executivos de transporte marítimo. Ainda assim, a produção de aço está se recuperando muito lentamente na China e as exportações continuam enfraquecidas.Executivos do ramo das commodities e dos transportes marítimos descrevem o acúmulo chinês de uma gama de commodities, como o alumínio, cobre, níquel, latão, zinco, canola e soja. Em abril, a China começou a estocar quantidades significativas de petróleo.Os objetivos da China variam de acordo com cada commodity. As empresas chinesas compraram muito minério de ferro no mercado à vista, antecipando uma alta de preços nas negociações dos contratos anuais que se aproximam da conclusão. O governo chinês esteve acumulando petróleo e alguns metais por motivos estratégicos e adquiriu imensas quantidades de alumínio e canola para isolar os produtores domésticos da queda nos preços globais durante o inverno."Tem havido um imenso acúmulo de commodities" por parte da China e isso não pode continuar indefinidamente, disse Tim Huxley, diretor executivo da Wah Kwong Maritime Transport Holdings Ltd., uma grande empresa de transportes com sede em Hong Kong. Essas compras, que excedem as necessidade da China, ajudaram a reverter o colapso dos preços das commodities que se seguiu ao declínio econômico mundial, mas podem também limitar a recuperação.O Moody?s Investor Service anunciou na quarta feira que estabeleceria uma avaliação negativa para as indústrias de metais básicos, mineração e siderurgia da Ásia e do Pacífico, medida já adotada em relação às indústrias de outras regiões e do mesmo setor."As medidas adotadas pela China no sentido do acúmulo estratégico e da substituição de produtos domésticos de qualidade inferior por produtos importados de qualidade superior sustentaram o recente rali de preços de muitos metais básicos, mas não veremos uma reviravolta sustentável na demanda até que a economia dos EUA, da Europa e do Japão se recuperem", disse Terry Fanous, vice-presidente sênior da Moody?s, acrescentando que não é provável a recuperação dessas economias até o ano que vem.O índice GSCI da Standard & Poor?s, que avalia os preços mundiais das commodities, registrou aumento de 41% a partir do seu ponto mais baixo, em 18 de fevereiro, mas ainda está aquém da metade do ponto máximo, em 9 de junho de 2008.Um dos melhores indicadores do comércio internacional das commodities é o Baltic Exchange Dry Index, que mede o custo diário do aluguel de um cargueiro de grande capacidade. Enquanto o GSCI da Standard & Poor?s continuou a aumentar na semana passada, o índice dos cargueiros tinha caído 20% no mesmo período.Richard S. Elman, diretor do Noble Group, maior empresa de comércio de commodities diversificadas da Ásia, se levantou da mesa de reunião de seu escritório quando perguntado sobre as taxas de aluguel dos cargueiros, na entrevista realizada na manhã de terça feira. Ele foi até a escrivaninha que sustenta os três monitores que impedem a vista completa do Porto de Hong Kong e prontamente exibiu no monitor esquerdo uma lista de taxas diárias do aluguel de cargueiros. A lista mostrava os donos dos navios cobrando US$ 58 mil por dia, mas apenas US$ 24 mil por dia no ano que vem ou em 2011, indício de que nos próximos anos haverá mais oferta de navios do que demanda, especialmente agora que os estaleiros estão concluindo a construção de embarcações encomendadas durante os recentes anos de prosperidade.O Noble Group atua no ramo das commodities em todo o mundo, desde uma imensa usina de açúcar no Brasil até uma extensa operação de extração de carvão de coque na Austrália. O valor das suas ações quase quadruplicou desde o seu ponto mais baixo, em 24 de outubro. Elman manifestou otimismo em relação à economia chinesa e à demanda mundial por commodities, mas alertou que, para algumas commodities, "os preços futuros se anteciparam" aos da entrega física.A demanda por aço na China já está se recuperando, em se tratando dos tipos de aço empregados na construção civil, disse Elman. Agências dos governos locais, provinciais e nacional estão absorvendo rapidamente os investimentos como parte do programa de estímulo econômico.Mas, em se tratando do aço de melhor qualidade utilizado na produção de bens de consumo, a recuperação da demanda é mais lenta, apesar dos incentivos no valor de US$ 1 bilhão distribuídos pelo governo chinês para a compra de carros e eletrodomésticos, especialmente entre os residentes das áreas rurais.Alguns economistas se mostram obstinados diante do mercado de commodities porque acreditam que as economias dos Estados Unidos e da Europa estão a caminho da recuperação. "O rali de preços das commodities é real", disse Ajay Kapur, chefe de estratégia global da Mirae Asset, grande empresa financeira coreana. "Não espero que parta daqui uma grande correção."Outros executivos demonstram otimismo menor, principalmente os do ramo de transporte marítimo, que enxergam sinais da formação de uma bolha nas taxas de transporte e no preço das commodities que pode repetir o súbito aumento e queda dos preços verificado no ano passado. "As duas últimas semanas foram uma loucura e, em vez de nos animarmos com essa súbita recuperação no mercado de aluguel de cargueiros, estamos preocupados com a possibilidade de vermos a mesma bolha novamente", escreveu Kenneth Koo, presidente e diretor da Tai Chong Cheang Steamship Company. FRASETerry FanousVice-presidente sênior da Moody?s"As medidas adotadas pela China no sentido do acúmulo estratégico e da substituição de produtos domésticos de qualidade inferior por importados de qualidade superior sustentaram o recente rali de preços de muitos metais básicos, mas não veremos uma reviravolta sustentável na demanda até que EUA, Europa e Japão se recuperem"

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