China pode receber mais investimentos externos em 2004

A expansão econômica da China continua aumentando o seu poder de atração sobre o capital estrangeiro. O fluxo de investimentos externos destinados ao país no primeiro bimestre deste ano atingiu US$ 8,3 bilhões, representando um aumento de 10% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo o ministério do Comércio da China, o aumento do ingresso dos recursos externos também foi observado no final do primeiro trimestre de 2003. No entanto, afirmam os especialistas chineses, a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda (Sars) reverteu a tendência dos investidores. Com isso, o país registrou a entrada de US$ 53,5 bilhões no ano passado, um aumento de 1,44% em relação a 2002. Para Jin Bosheng, pesquisador do ministério do Comércio, a China pode estabelecer um novo e significativo recorde na absorção de recursos externos em 2004. "Estamos abrindo o setor de serviços e de alta tecnologia para os investimentos estrangeiros. Além disso, nossas estatais estão renovando suas tecnologias e o seu perfil administrativo", declarou à imprensa chinesa. Cautela Os investidores, paradoxalmente, estão mais cautelosos. Por um lado, tentam concretizar as oportunidades oferecidas por uma economia emergente que gerou um PIB de US$ 1,3 trilhão no ano passado. Por outro, observam atentamente as nuances da política e a transparência das estatísticas oficiais chinesas. Para a maioria dos investidores, o risco se justifica. "A mão de obra barata, o fabuloso mercado consumidor, a facilidade para promover exportações e a estabilidade política chinesa continuam atraindo investimentos", afirma Jin. No entanto, os investidores exigiram a revisão dos métodos de cálculos baseados nos preços fixos - uma prática da antiga economia planificada -, obrigando o governo chinês a adotar um conjunto de indicadores econômicos recomendados pela ONU em 2004. Além disto, o governo teve de promover outras reformas e iniciar o reajuste de suas contas. O reconhecimento ao direito da propriedade privada, a injeção de US$ 40 bilhões de suas divisas externas na reestruturação bancária do país e o enfrentamento de um gigantesco déficit em conta corrente, gerado por empréstimos bancários considerados como "impagáveis" pelo próprio primeiro-ministro Wen Jiabao, lideram as medidas impostas pelo mercado. Porém, uma outra tendência - que beira mais ao surrealismo -, parece cristalizada entre analistas, operadores e observadores econômicos ou políticos que vivem ou visitam Pequim. "Na Europa, todos acreditam, por uma razão ou por outra, que o ritmo do crescimento chinês decairá muito após os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 ou da Expo 2010 de Shanghai. As apostas, agora, se dividem apenas entre acertar se o pouso econômico do dragão será suave ou forçado", diz uma experiente analista italiana em visita a Pequim. Efeitos colaterais De fato, o governo chinês já demonstra grande preocupação com os efeitos colaterais das consecutivas taxas de crescimento acumuladas nas últimas décadas. O país começa a compreender os limites conferidos ao seu desenvolvimento pelos danos ambientais, pelas pressões demográficas e por seus recursos naturais. E teme, ainda, as conseqüências políticas do vertiginoso aumento das disparidades sociais, o superaquecimento econômico e a volta da inflação. Os custos sociais impostos pela reestruturação econômica, por exemplo, são traumáticos. A velha economia socialista chinesa, outrora comandada pelas estatais e pela burocracia comunista, sucumbe cotidianamente ante as necessidades de mercado. Estima-se que mais de 32 milhões de chineses perderam seus empregos durante o processo de desestatização entre 1998 e o final de 2003. As disparidades sociais também são crescentes. Segundo o governo chinês, cerca de 80% da riqueza nacional se concentra nas mãos de 20% de sua população, menos de 10% dos chineses desfrutam de segurança social e a diferença da renda per capita entre a população urbana e rural do país é de seis vezes. A fim de desacelerar a economia e buscar políticas sociais e ambientais compensatórias, o governo estipulou a meta de crescimento para este ano em 7%, contra os 9,1% obtidos em 2003. No ano passado, impulsionado pelo poder de compra da classe média e pelo volume de obras públicas, o ritmo da construção civil assumiu avassaladoras proporções. Muito embora o PIB chinês tenha representado menos de 4% do PIB mundial, os níveis de consumo de ferro, aço e cimento do país corresponderam a 30%, 27% e 40% do total no planeta, respectivamente. Veículos A venda de veículos - o novo boom do mercado chinês - movimenta bilhões de dólares que beneficiam a indústria automobilística mundial e atrai ainda novos investimentos. No ano passado, o país produziu 3,9 milhões de veículos e importou mais de cem mil unidades. Em 2004, tanto a produção quanto as importações devem registrar novos recordes. Cerca de vinte províncias, regiões autônomas e municípios centrais chineses já absorveram investimentos de montadoras e fabricantes de autopeças. Além disto, em obediência às normas estipuladas pela Organização Mundial do Comércio (OMC), o país reduziu o valor das tarifas alfandegárias em cerca de 4,5% sobre os veículos importados e deve destinar US$ 10,5 bilhões para as importações deste ano. No entanto, o crescente papel econômico da indústria automobilística desencadeou uma série de transformações e impactos urbanos e sociais no país. Segundo um dos relatórios ambientais e econômicos divulgados durante a recente realização da X Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPCh), a gigantesca frota circulante de veículos obrigou o governo a redirecionar parte de seus investimentos para a construção de rodovias. No final do ano passado, a China já acumulava 29 mil quilômetros de estradas que consumiram, a cada mil metros, cerca de mil toneladas de betume, 400 toneladas de ferro e cimento e uma incalculável quantidade de pedras e areia. Segundo o mesmo relatório, a "abertura de rodovias está diminuindo sensivelmente a área de produção agrícola e elevando o custo do transporte das safras para as áreas urbanas do país". Além disto, os danos ambientais e o aumento da dependência externa de petróleo estão na mira do governo. As emissões de CO2, por exemplo, devem aumentar em 79% a poluição ambiental nas grandes cidades chinesas e provocar um aumento substancial de casos de tuberculose até 2005. O consumo de petróleo e de seus derivados desta frota poderá chegar a 256 milhões de toneladas em 2020, contra uma produção nacional estimada em 200 milhões de toneladas. De qualquer forma, para os que sonham conquistar uma fatia deste colossal mercado emergente, segue um recado. Mesmo com os olhos dos investidores se voltando aos últimos acontecimentos na ilha de Taiwan, ao desenlace de suas eleições e ao futuro relacionamento entre os dois lados do Estreito, o insaciável apetite de consumo do dragão asiático parece permanecer intacto e continua abrindo grandes perspectivas às exportações brasileiras. Setor de serviços No entanto, além da venda de produtos primários como minério de ferro ou grãos - cujos limites e dependências externas chinesas são conhecidas e crescentes -, das parcerias bem sucedidas como no caso da Embraer e da possibilidade da venda do álcool como uma alternativa sólida ao problema dos combustíveis e da poluição que acomete as grandes cidades, os brasileiros devem estar atentos à exploração de um novo filão econômico neste país: o setor de serviços. Nos próximos anos a China necessitará de um número crescente de assessorias e de novas tecnologias na área ambiental, no desenvolvimento e planejamento urbano, na saúde e nos programas de informatização e administração do sistema bancário. Afinal, a participação ativa em outras economias mundiais também é uma das melhores formas de atrair novos investimentos para o Brasil. Que o diga a recente história chinesa.

Agencia Estado,

26 Março 2004 | 12h07

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