China pressiona montadoras estrangeiras

Governo intensifica a aplicação de normas antitruste contramultinacionais e o principal alvo são empresas como GM e Audi

KEITH BRADSHED, THE NEW YORK TIMES

14 de agosto de 2014 | 02h05

HONG KONG - A General Motors informou na terça-feira que foi contactada pelas autoridades chinesas que desencadearam uma investigação antitruste nos escritórios das companhias automotivas estrangeiras. No dia anterior, a Audi declarara que a rede de concessionárias de sua joint venture chinesa infringira as leis nacionais antitruste, e que seria punida pelo governo. As dificuldades das empresas são consequência de uma maior pressão das autoridades chinesas que decidiram intensificar a aplicação das normas antitruste. Grandes empresas, como Microsoft, Qualcomm, Accenture e algumas fabricantes de leite em pó infantil foram investigadas no ano passado.

As autoridades chinesas vêm examinando nas últimas semanas várias companhias automotivas, sem identificar todas. O objetivo da investigação é saber se as empresas obrigaram suas revendedoras a estabelecer preços fixos padronizados de peças de reposição produzidas pelas próprias montadoras.

A Insurance Association of China e a China Auto Maintenance and Repair Association informaram em abril que a reposição de todas as peças num sedã popular da Mercedes poderia custar 12 vezes o preço de um carro novo.

A Daimler, fabricante alemã da Mercedes-Benz, não quis discutir o custo das peças de reposição. A recente investida nos escritórios de Xangai ocorreu um dia depois de a companhia anunciar que baixaria 15% em média o preço das peças de reposição da Mercedes-Benz vendidas na China, em resposta às investigações antimonopólio.

A GM tentou contestar as críticas aos preços das peças, informando que o custo da substituição de todas as peças no Cadillac médio equivalia a 330% o preço de um modelo novo; no caso dos Buicks, o custo era de 284%; e no dos Chevrolets, 265%.

A principal subsidiária chinesa da GM, Shanghai General Motors, afirmou em nota que levou a informação à Comissão Nacional do Desenvolvimento e Reformas, a principal agência de planejamento econômico do país. "Desde 2012, a Shanghai General Motors sempre apoiou e cooperou com todas as investigações e com o trabalho de pesquisa realizado na indústria pelo departamento antimonopólio e de monitoramento de preços da Comissão."

A Audi, uma unidade da Volkswagen, afirmou em documento na segunda-feira que a rede de concessionárias da joint venture FAW-Volkswagen da Província de Hubei violara as leis nacionais contra o monopólio. A joint venture "tem cooperado com a investigação e aceitará eventual punição", acrescentando que, "os processos de gestão de vendas e a estrutura das concessionárias estão sendo aprimorados para prevenir incidentes desse tipo no futuro".

Problema recorrente. Os preços das peças de substituição automotivas constituem um problema há décadas nos Estados Unidos. Os advogados dos consumidores e as companhias de seguros americanas há muito tempo afirmam que as companhias automotivas dificultam a compra de peças genéricas pelos consumidores; por outro lado, alguns consumidores e advogados atacaram as seguradoras por relutarem em cobrir o custo das peças originais das fabricantes de veículos.

A investigação sobre peças de automóveis na China tornou-se também motivo de irritação para os consumidores chineses. Os preços dos automóveis no país são em geral muito mais elevados do que em outros mercados. A razão principal da discrepância está nos impostos muito altos que incidem sobre os carros naquele país.

Nem todas as montadoras estrangeiras estão sendo investigadas na China. A divisão chinesa da Ford Motor Co.ndicou num documento que não está na mira das autoridades. Alguns executivos de multinacionais disseram que têm a impressão de que as medidas antitruste estão sendo aplicadas de uma maneira discriminatória; poucas são as companhias nacionais investigadas. O Ministério do Comércio da China negou a acusação no fim de semana.

As fabricantes chinesas vêm perdendo fatia de mercado para as fabricantes estrangeiras, enquanto cada vez mais os consumidores chineses mais ricos escolhem marcas globais em detrimento dos modelos despojados chineses. As restrições ao número de placas emitidas anualmente em Pequim, Xangai e Guangzhou levaram também muitos compradores a escolher modelos mais caros, em geral fabricados por multinacionais, quando obtêm suas placas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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