China promete comprar do Brasil manufaturados

Comunicado assinado pelos dois países busca assegurar a reciprocidade no relacionamento comercial e ampliar parceria

Vera Rosa ENVIADA ESPECIAL / PEQUIM e Claudia Trevisan CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2011 | 00h00

A China se comprometeu a incentivar o aumento das importações de produtos manufaturados do Brasil, segundo comunicado dos dois países divulgado ontem, durante visita da presidente Dilma Rousseff. Com dez páginas e 29 itens, o comunicado é o mais longo já assinado por presidentes dos dois países e reflete a crescente institucionalização do relacionamento bilateral.

O comunicado, assinado por Dilma e pelo presidente da China, Hu Jintao, diz que os dois países reconhecem a necessidade de intensificar o diálogo sobre estruturas de comércio e diversificação da parceria bilateral.

"A parte chinesa manifestou disposição de incentivar suas empresas a ampliar a importação de produtos de maior valor agregado do Brasil. A parte brasileira reafirmou o compromisso de tratar de forma expedita a questão do reconhecimento da China como economia de mercado (...)" , informa o documento.

A cobrança dos chineses levou a presidente Dilma Rousseff a concordar com a inclusão do tema de reconhecimento da China como economia de mercado, embora o aceno seja mais retórico do que prático. O Itamaraty não mostra intenção em ver concluído o procedimento interno - iniciado em 2004, no governo Lula - para reconhecer a China como economia de mercado.

Depois de assinar acordos de cooperação com Hu Jintao, Dilma disse estar confiante em um superávit comercial "de outra qualidade" na aliança com a China. "Uma relação só vai para a frente quando beneficia os dois lados", afirmou ela, após brindar com o presidente Hu o que definiu como "novo capítulo" da parceria. "O que valer para o Brasil vale para a China, e vice-versa."

Tom duro. Ao longo do dia, no entanto, o tom adotado por Dilma foi mais duro. No encerramento de um seminário empresarial, a presidente disse que, no mercado globalizado do século 21, nenhuma nação deve agir como se interesses individuais estivessem acima do coletivo. "Nenhum país pode aspirar o isolamento nem assegurar sua prosperidade à expensa de outros", insistiu. "A estabilidade e o crescimento da economia mundial dependem de um relacionamento equilibrado entre as partes."

Dilma e Hu Jintao participaram de reunião de trabalho e de um banquete no Grande Palácio do Povo, o edifício em estilo soviético na Praça Tiananmen, coração político da capital chinesa.

Dilma deixou o encontro com acordos comerciais para venda de aviões, anúncios de investimentos no setor de tecnologia no Brasil, abertura do mercado local para carne suína e a promessa de diversificação das exportações brasileiras ao país asiático.

Queixas. A exigência de reciprocidade responde a queixas de empresas brasileiras que enfrentam barreiras para investir na China ou exportar produtos de maior valor agregado. "Precisamos agregar valor antes de exportar, e não achar que é absolutamente natural que só exportemos produtos básicos."

O aumento da participação de bens industrializados foi o principal objetivo comercial da visita. "Temos clareza de que queremos um superávit de outra qualidade, não só baseado em commodities", afirmou a presidente.

Segundo ela, a China se mostrou disposta a abrir espaço para produtos de valor agregado. O primeiro gesto será o envio ao Brasil, em maio, de uma "missão de compras" chefiada pelo ministro do Comércio, Chen Deming, cujo objetivo será adquirir produtos industrializados.

Dependência global

DILMA ROUSSEFF

PRESIDENTE

"Nenhum país pode aspirar o isolamento nem assegurar sua prosperidade à expensa de outros"

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