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China quer adoção de moeda global

Na proposta de Pequim, padrão não seria vinculado a nenhum país

Cláudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2009 | 00h00

Dez dias antes do início da reunião do G-20 em Londres, a China defendeu a criação de uma moeda internacional para substituir o dólar como reserva de valor, em mais um sinal da preocupação de Pequim com o fato de que pelo menos metade de seus US$ 2 trilhões em reservas internacionais está aplicada em papéis americanos.A moeda não seria vinculada a nenhuma nação específica e seria administrada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), de acordo com artigo assinado pelo presidente do banco central da China, Zhou Xiaochuan. Com o título "Reforma do Sistema Monetário Internacional", o texto foi divulgado na noite de segunda-feira na página da instituição na internet. Além de funcionar como reserva de valor, a nova moeda seria referência para a cotação de preços nos mercados globais e usada nos pagamentos das transações comerciais entre países."O objetivo desejável da reforma do sistema monetário é a criação de uma moeda de reserva internacional que seja desconectada de nações e capaz de permanecer estável no longo prazo, removendo assim as deficiências inerentes à utilização de moedas nacionais", escreveu Zhou Xiaochuan.A reforma do sistema financeiro mundial é um dos principais pontos da reunião do G-20, em especial o aumento da representação dos países em desenvolvimento no FMI. A China tem hoje poder de voto menor que o da Bélgica e gostaria de ampliar sua presença na instituição, aspiração compartilhada por outros países emergentes, entre os quais o Brasil.O presidente da China, Hu Jintao, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, terão um encontro durante o G-20, que ocorrerá nos dias 2 e 3 de abril na capital britânica. Hu também terá em Londres sua primeira reunião com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. A proposta de criação de uma moeda internacional mostra o desconforto da China com a dependência de suas aplicações em relação aos americanos, mas também com o fato de que o uso do dólar reflete a supremacia econômica dos EUA.No texto divulgado segunda-feira, Zhou Xiaochuan usou argumentos técnicos para defender a mudança. O presidente do BC chinês afirmou que o uso de uma moeda nacional como reserva de valor global cria conflitos insolúveis entre a política monetária doméstica e a demanda de outros países por reservas. Em nenhum momento o documento cita o dólar, mas é evidente que se refere à moeda.Michael Pettis, professor de Finanças Internacionais da Escola de Administração da Universidade de Pequim, disse que a discussão sobre uma moeda global surge a cada "10 ou 20 anos", e nunca levou a nenhuma transformação concreta. "O processo pelo qual uma moeda se transforma em reserva de valor internacional é extremamente complexo, e não depende de uma decisão administrativa ou política", disse ao Estado. Pettis ressaltou que o dólar não assumiu o lugar que tem hoje por determinação do governo americano, mas em razão do tamanho da economia dos Estados Unidos e da credibilidade conquistada pelo país.Na opinião do economista, uma moeda internacional traz problemas práticos de difícil solução, como definir quem vai gerir a política monetária para todo o mundo. "Quando se pensa numa moeda independente, o modelo mais próximo é o do padrão ouro, e as pessoas parecem ter se esquecido de como eram brutais os ajustes que aquele sistema exigia."O presidente do BC chinês reconheceu que a reforma levaria longo tempo. Zhou Xiaochuan defendeu como primeiro passo a utilização do Special Drawing Rights (SDR), versão rudimentar de uma reserva internacional criada pelo FMI em 1969, que tem cotação em relação às diferentes moedas nacionais. Com valor determinado com base numa cesta de moedas, o SDR destina-se à suplementação das reservas internacionais dos países-membros do FMI, na proporção de suas contribuições. "O SDR tem as características e o potencial para atuar como moeda de reserva suprassoberana", disse Zhou."Comparada à administração de reservas por países individuais, a gestão centralizada de parte das reservas globais por uma instituição internacional digna de confiança, com retorno razoável para encorajar a participação , será mais efetiva em impedir a especulação e estabilizar os mercados internacionais", concluiu.FRASEZhou XiaochuanPresidente do BC chinês"O objetivo desejável da reforma do sistema monetário é a criação de uma moeda de reserva internacional que seja desconectada de nações e capaz de permanecer estável no longo prazo, removendo assim as deficiências inerentes à utilização de moedas nacionais"

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