China recebe volume de recursos recorde

Entrada de US$ 105 bi em 2010 complicou esforço do governo para conter inflação

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

A China recebeu o volume recorde de US$ 105,74 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto (IED) em 2010, com alta de 17,4% em relação ao ano anterior. A enxurrada de recursos aumentou a já alta liquidez do país e complicou os esforços do governo para conter a inflação e evitar o surgimento de bolhas no mercado imobiliário.

A quantidade de dinheiro em circulação na economia cresceu 50% nos últimos dois anos, impulsionada pela expansão nos empréstimos bancários, o superávit comercial, os investimentos estrangeiros e o fluxo de capital especulativo.

Como o câmbio chinês é mantido em patamar quase fixo pelo banco central chinês, os recursos externos que entram no país são comprados com a emissão de yuans, o que eleva a liquidez na economia.

Essa é uma das razões por trás da alta da inflação, que atingiu 5,1% em novembro, maior nível em 28 meses. Também está na origem do aumento dos preços dos imóveis, para o qual é canalizada parte dos recursos depositados nos bancos ou obtidos por meio de empréstimos.

Para tentar conter esses movimentos, desde o início de 2010, o governo aumentou sete vezes a quantidade de dinheiro que os bancos devem deixar parado, sem emprestar a seus clientes.

A elevação do depósito compulsório se transformou no principal instrumento de política monetária do Banco do Povo da China (o banco central), que costuma usar com mais parcimônia a alta dos juros, que pode atrair ainda mais capital especulativo, agravando o problema do excesso de dinheiro em circulação.

A mais recente alta do depósito compulsório ocorreu na sexta-feira da semana passada, depois da divulgação da estimativa de que os bancos chineses emprestaram 1 trilhão de yuans (US$ 151 bilhões) nas primeiras duas semanas de janeiro - a cifra equivale a quase três vezes os 360 bilhões de yuans que serão retirados do sistema financeiro com a decisão do banco central.

Índices. O volume recorde de IED evidencia a atratividade da economia chinesa, que manteve crescimento robusto em meio à crise financeira global, exatamente em razão da injeção de recursos promovida pelo governo.

Os dados sobre o crescimento do PIB em 2010 serão divulgados amanhã e analistas acreditam que o índice tenha ficado entre 10,1% e 10,2%. O resultado da inflação também sairá amanhã e a expectativa é que o índice tenha cedido um pouco em dezembro, para menos de 5%. De qualquer maneira, o acumulado do ano ficará acima da meta oficial de 3% - revista para 4% em 2011.

Muitos analistas sustentam que o caminho mais eficaz para combater a escalada de preços seria a valorização do yuan, que reduziria o valor das importações chinesas. Mas apesar de a moeda ter atingido ontem o patamar recorde de 6,5891 por US$ 1,00, é pouco provável que Pequim acelere de maneira significativa seu ritmo de apreciação.

A possibilidade ficou ainda mais remota depois das declarações do presidente Hu Jintao para o Wall Street Journal e para o Washington Post, segundo as quais a mudança no câmbio não é o caminho mais eficaz para enfrentar a inflação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.