China silencia. E alternativa ao dólar fica de fora

Discussão sobre substituição da moeda não evoluiu, mas não foi definitivamente abandonada

Andrei Netto, com Reuters, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

ECATERIMBURGO, RÚSSIAA China travou as discussões sobre a criação de uma nova moeda internacional para substituir o dólar no comércio exterior. O assunto, centro das atenções do mercado ontem, foi debatido pelos chefes de Estado e de governo de Brasil, Rússia, Índia e China. O presidente chinês, Hu Jintao, ficou em silêncio sobre as ideias do Kremlin a respeito da alternativa de moeda, o que poderia ser um sinal de divisão no grupo.Na preparação para a primeira cúpula dos Brics, o Kremlin afirmou que a agenda incluiria a necessidade de mais moedas de reserva de valor e a expansão dos Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional (FMI). Sem o aval da China - que possui quase US$ 2 trilhões de reservas em moeda estrangeira -, o tema não foi incluído na declaração oficial do evento. Com as gigantescas aplicações em títulos do Tesouro americano, Pequim não quer derrubar o valor de seus investimentos.A discussão sobre a eventual substituição do dólar como referência no comércio internacional não evoluiu, mas tudo indica que não foi abandonada. Nenhum avanço foi feito por ora, mas ninguém descartou a possibilidade. Pela manhã, antes mesmo do início oficial da Cúpula dos Brics, o chanceler brasileiro Celso Amorim evocava a proposta de uso das divisas nacionais em lugar do dólar. "Quem sabe?", afirmou à BBC. Arkady Dvorkovich, principal assessor econômico do presidente da Rússia, pediu que o FMI amplie a cesta dos Direitos Especiais de saque para incluir o yuan e moedas ligadas a commodities, como o rublo russo e os dólares australiano e canadense, além do ouro. O Direito Especial de Saque é um ativo internacional de reserva para os países-membros do FMI, e tem uma taxa de câmbio determinada por uma cesta de moedas que atualmente inclui dólar, euro, iene e libra. Está prevista uma revisão da cesta em novembro de 2010. Os líderes dos Brics debateriam sobre o investimento de suas reservas em moedas de outros países do grupo, abertura do comércio em moeda doméstica e acordos de swap cambial, acrescentou Dvorkovich.Manifestações semelhantes de autoridades chinesas e indianas deixaram o mercado tenso em grandes praças financeiras do mundo. Na Europa, o euro reverteu a tendência recente e voltou a ganhar terreno do dólar, fechando em 1,3843, ante 1,3793 na véspera. O alívio da pressão sobre a moeda americana só veio com a publicação da declaração final dos Brics.A ausência da menção, contudo, não significa que o assunto esteja encerrado no grupo dos emergentes. Em entrevista coletiva, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, foi ambíguo. Primeiro, afirmou que não via possibilidades de alterações da moeda de reservas internacional "em um futuro previsível". Em seguida, admitiu que a hipótese pode vir a ser estudada pelo país.

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