China só promete, não cumpre

Há sete anos, a China promete investir no Brasil mas não investe. De acordo com dados do Banco Central, o estoque de investimentos chineses no Brasil está em US$ 0,3 bilhão, ou seja, apenas 0,2% do estoque total de investimentos diretos no Brasil. Não somos importantes para eles que se interessam mais na exploração de reversas minerais, petróleo e no fornecimento de commodities agrícolas para abastecer seu mercado interno de 1,3 bilhão de pessoas. A China se volve mais para a África, onde instituições políticas frágeis permitem uma exploração fácil e barata de suas riquezas e sua terras.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Agora, eles começam a ter algum interesse no Brasil. O petróleo do pré-sal e minérios do Brasil. Mas ainda somos parceiros marginais, um mercado para seus produtos industriais que exportam a preços subsidiados.

Em contrapartida, pela compra de commodities agrícolas, nos produtos acabados. Importam até couro do Brasil para exportar calçados, muitas vezes made in USA ou made in Italy (procure saber a origem real da sandália ou do sapato que você está usando e poderá ter algumas surpresas).

Agora vai... Sim, agora eles estão abrindo seus cofres para o Brasil. No primeiro trimestre, o total de investimento direto chinês ingressado no Brasil foi de US$ 359 milhões, ou seja, 6,1% do total. Mas isso continua sendo uma parcela irrisória diante do que estão investindo no mundo. As empresas chinesas investirão este ano, no exterior, nada menos que US$ 50 bilhões, um aumento de 15,5% sobre o ano anterior. E, apesar da crise, em 2008 esses investimentos chegaram a US$ 43,3 bilhões. Mais 6,5%. Enquanto isso, nós não recebemos quase nada.

Só na África, a China investiu mais de US$ 7,7 bilhões até 2008. Não saíram dados oficiais do ano passado, mas, pelos contratos firmados, devem ter passado de US$10 bilhões. Em 2003, os seus investimentos na África não passavam de US$ 490 milhões.

Só para ter uma ideia da pouca representatividade dos investimentos chineses, no Brasil, o Banco Central naquele ano o colocou na lista de "outros"...

Mais US$ 100 bilhões. Há mais dinheiro para investir no mundo. O governo acaba de anunciar que está aumentando de US$ 200 bilhões a US$ 100 bilhões o fundo fiduciário que mantém para financiar suas empresas no exterior. O objetivo desse fundo é descobrir novas oportunidades para atender à expansão do mercado interno e, principalmente, formar estoques estratégicos. Essa política de estoques, criada em 1999, ganhou força na crise mundial.

A China aproveitou a queda da cotação das matérias primas para fazer grandes estoques de petróleo, grãos, minérios. Tudo, enfim, que precisa além do que produz. Política que foi mantida, mesmo com a recente recuperação de 32% nos preços das commodities agrícolas e industriais.

Ainda agora, pensando alguns anos adiante, a empresa estatal chinesa fechou contrato de US$ 10 bilhões com a Petrobrás. Não é investimento. É compra antecipada de petróleo a ser fornecido quando o pré-sal começar a produzir.

Investimento desanima. Mas, esta semana, saíram mais dados desanimadores sobre os investimentos diretos, além da parcimônia chinesa. A indústria brasileira continua recebendo pouco investimento externo, mesmo dos Estados Unidos, que nosso maior parceiro nessa área.

Em março, a indústria absorveu apenas US$ 408 milhões, quase 80% menos do que no mesmo mês do ano passado. Não mais de 18,9% do total entrado no País.

O quadro não é melhor se analisado os investimentos na indústria no primeiro trimestre do ano, quando recebeu US$ 1,6 bilhão.

Ou seja, 27,6% do total. E não é melhor porque os fluxos líquidos de investimentos externos, (IED), só em março somaram US$ 2 bilhões, nada menos que 39,7% acima de igual mês do ano anterior.

Não contem comigo, meninos... É mais ou menos assim que se pode interpretar o que o presidente chinês Hu Jintao deve ter dito a Lula. Como em 2004, prometeu mas não cumpriu porque ainda não acreditava na seriedade do nosso governo brasileiro. Agora, quase 7 anos depois, promete de novo, mas pergunta por que se interessar pelo Brasil, que também não reconheceu a China como economia de mercado como prometera. Mas não importa, eles têm toda a África e a América Latina por explorar. No sentido real da palavra.

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