China tenta evitar crise financeira internacional

A economia da China deverá ter um pouso suave - "soft landing" - , com o governo evitando assim um ajuste mais drástico, que teria o potencial de gerar de uma crise financeira internacional, segundo a avaliação de analistas graduados das agências de classificação de risco Standard & Poors e Fitch Ratings baseados na Ásia. Em entrevista à Agência Estado, Ping Chew, analista-chefe da S&P para a China, e Brian Coulton, economista-chefe da Fitch para a Ásia, observaram no entanto que as medidas administrativas para conter o superaquecimento econömico adotadas até agora pelo governo chinês, como o aumento dos depósitos compulsórios dos bancos e as limitações do crédito para setores mais aquecidos, como o siderúrgico e construção civil, embora necessarias, poderão não ser suficientes para reduzir a expansão do PIB para a meta em torno dos 7% - atualmente a taxa está acima dos 9% e para alguns, acima de 10%.Além de outras medidas administrativas focadas em determinados setores da economia chinesa, há a expectativa de que o Banco Popular da China, que é o Banco Central do país, inicie em breve uma trajetória de elevação das taxas de juros, embora de maneira gradual. Uma eventual valorização do renmimbi, a moeda chinesa, se tornou menos necessária nos últimos meses diante da escalada inflacionária, mas se implementada, não deverá ser acentuada. Porém, os analistas alertam que a maior possibilidade de uma transição suave da economia chinesa traz riscos que não podem ser desconsiderados. No lado politico, por exemplo, o grande desafio do governo chinês é fazer com que o vertiginoso crescimento econômico se torne mais abrangente, com os trabalhadores rurais tendo acesso aos benefícios gerados pela economia de mercado nos grandes centros urbanos como Xangai e Pequim.Crescimento vertiginosoPara se ter ruma noção da explosão do consumo na China, alimentado pelo surgimento de uma classe média mais abastada e com demandas cada vez mais sofisticadas, basta se debruçar sobre alguns indicadores de vendas de bens duráveis num país cuja população é de 1,3 bilhão de habitantes. No ano 2000, apenas 20 em cada 100 famílias possuíam telefones celulares. No ano passado, esse número saltou para quase 80. Há quatro anos, apenas uma família em cem tinha um computador. Hoje, mais de 30% já contam com um PC em seus lares.Os chineses compravam no início de 2000 apenas cerca de trinta mil automóveis mensais. No final do ano passado, a venda de carros superou as duzentas mil unidades mensais. Essa explosão no consumo gerou um leque de fatores preocupantes para a sustentabilidade da estabilidade macroeconômica: o crescimento exagerado dos investimentos, pressões inflacionárias de curto prazo, o perigo de excesso de capacidade no médio prazo, riscos para a qualidade dos ativos dos bancos estatais, que contam com pesadas fatias de empréstimos podres.Diante desse cenário, as autoridades chinesas tomaram nos últimos meses medidas administrativas para conter o consumo. "A China, embora com algum atraso, já começou a administrar um ´soft landing´, mas somente veremos indicadores mais claros disso no segundo semestre, quando as medidas de contenção no crédito terão maior impacto´, disse Coulton, que é baseado em Hong Kong. Entre as medidas, está o aumento do depósito compulsório dos bancos de 6% para 7,5%, a elevação da taxa de redesconto de juros de 3% para 3,25%, a esterilação dos fluxos de capitais, e a limitação dos investimentos nos setores mais aquecidos, cujos efeitos já começam a ser notados. Mesmo assim, segundo Coulton, a economia chinesa continuou crescendo nos últimos meses num ritmo próximo aos 10%. A expectativa dele é que a expansão decline para cerca de 7,5% no segundo semestre. "Mas, para atingir isso, as medidas administrativas anunciadas até o momento são insuficientes, a inflação ao consumidor, cuja taxa anualizada está em 3,8%, deverá rapidamente atingir os 5% nos próximos meses por isso um aumento de juros gradual é muito provável", disse.Segundo o economista da Fitch, as autoridades monetárias chinesas deverão esperar pela elevação dos juros nos Estados Unidos antes de tomar qualquer iniciativa. "Um aperto monetário antes do Federal Reserve fazer o mesmo teria o feito de atrair ainda mais fluxos de capitais de curto prazo para a China, principalmente de caráter especulativo, o que aumentaria o problema para as autoridades chinesas." Outros riscos aliados ao aperto monetário seriam possíveis tensões dentro do governo chinês com a desaceleração econômica e um aperto exagerado no crédito. "Mesmo assim, considero que a trajetória de aumento de juros será inevitavelmente implementada, com mais de 50 pontos-base nos próximos três meses e dois a três pontos percentuais na taxa de redesconto ao longo do próximo ano", disse o analista da Fitch."Pouso suave para a China é 7% do PIB"Chew, da S&P, também acredita na maior possibilidade de um ´pouso suave´, embora observe que em se tratando da China, as definições econômicas precisam ser adaptadas. "Para qualquer país do mundo, um crescimento de 3%, 4%, seria positivo, mas para a China isso não basta, estamos falando aqui de um pouso suave com crescimento de 7%, pelo menos, como o governo quer", disse. A S&P prevê que o crescimento do PIB chinês deverá ficar acima do pretendido pelas autoridades, entre 8% e 9% em 2004. A inflação ao consumidor, segundo Chew, deverá passar os 5% nos próximos meses, embora a média anual deva ficar abaixo desse patamar. "Essa calibragem é complexa, mas certamente as autoridades chinesas já deram mostras que vão tentar isso com medidas administrativas, principalmente limitando o fluxo de investimentos e crédito, principalmente no setor varejista."Embora considere possível um aperto monetário, Chew salientou que seu impacto pode ser limitado. "É preciso lembrar que a China não tem uma economia de mercado, o controle monetário é parcial e as relações entre os governos regionais e Pequim afetam o ciclo econômico do país."Os dois analistas observam que sistema monetário chinês é complexo, seu processo decisório é de difícil acompanhamento, embora tenham sido anunciadas medidas para criar mais transparência. Há várias taxas ditadas pelo BC, como a redesconto, a para os depósitos, para os empréstimos. Além disso, as autoridades chinesas atuam diretamente limitando os juros cobrados no varejo. A autonomia do BC, segundo Coulton, é muito limitada. "O BC chinês começou a dar sinais desde o início do segundo semestre do ano passado sobre o superaquecimento da economia, mas as medidas concretas para se lidar com isso somente foram implementadas quando o governo abraçou essa percepção", explicou Coulton. "Ou seja, isso mostra o grau de autonomia."Os analistas não consideram como uma questão urgente uma possível valorização do renmimbi. "Não vejo como algo iminente, ainda mais diante da alta inflacionária e do menor crescimento", disse Chew. "Além disso, um impacto negativo nas exportações poderia acentuar uma desaceleração econômica doméstica que vem sendo cuidadosamente desenhada pelas autoridades." Segundo Coulton, uma eventual mudança no câmbio seria "discreta". "Talvez um pequeno aumento na banda de oscilação atrelada ao dolar, cujo limite hoje é de 1,3%, ou o atrelamento a uma cesta de moedas", disse Coulton. Ele observou que mesmo uma valorização de 1% a 3% criaria o risco de atrair mais fluxos de investimentos ao país pois isso poderia levar os agentes de mercado a especularem com novas valorizações futuras. Foco agora é na "qualidade do crescimento"Além de garantir que o país continue crescendo dentro de seus limites, evitando assim um crise financeira, o governo chinês tem demonstrado uma crescente preocupação com o impacto distributivo do ?boom? econômico. A inserção de crescentes camadas da população chinesa na moderna estrutura econômica do país é, talvez, o maior desafio de médio e longo prazos para o governo socialista. Para ser ter uma idéia da crescente distância entre a classe media beneficiada com a abertura econômica do país desde a década passada, e aqueles que ainda não conseguiram inserção no novo sistema econômico, principalmente os habitantes da zona rural e os demitidos das empresas estatais fechadas, basta se perambular pelo centro da capital Beijing. Grifes de roupas sofisticadas, concessionárias de carros de luxo e outros símbolos do luxo das grandes economias ocidentais são acessíveis a um crescente, mas ainda reduzido número de chineses que entraram no barco da reforma econômica do país. Mas na zona rural e mesmo nos centros urbanos afastados da costa Leste, a realidade, embora melhorada pelo intenso desenvolvimento econômico do país dos últimos anos, ainda é de salários ínfimos e condições de vida básicas. Fortes movimentos migratórios para os centros de riqueza poderiam gerar problemas similares aos vistos em São Paulo e outros centros urbanos brasileiros na segunda metade do século passado" O governo chinês está atento a isso e tanto que passou a focar não no ritmo do crescimento econömico, mas sim na qualidade desse crescimento", disse Coulton. "Os programas que visam fortalecer as regiões agrícola são prova dessa preocupação." Segundo o analista da Fitch, o governo chinês vem também realocando no interior consideráveis quantidades de migrantes que não conseguiram de adaptar economicamente nas grandes cidades.Ajuste vai doer, principalmente no exteriorO ajuste chinês, mesmo que admistrado com competência pelas autoridades de Beijing, terá um impacto externo relevante, segundo os analistas da S&P e Fitch. "Não á dúvida de que será doloroso, mas a extensão disso vai depender do grau do ajuste", disse Chew. "No entanto, ao invés do que ocorreu no início da década de 90, quando a desaceleração econômica afetou principalmente os chineses, dessa vez a dor será mais sentida com mais força lá fora." Ele observou que desde os anos 90 a economia chinesa se integrou ao cenário globalizado, atraindo enormes volumes de investimentos diretos estrangeiros e alimentando as exportações de países produtores de commodities, como é o caso do Brasil. Coulton, por sua vez, observou que a China, nos últimos anos, teve um peso muito maior do que o normal em alguns mercados globais de commodities. "O tipo de desaceleração que a China está buscando, focando em alguns setores específicos (aço, construção civil, automóveis, entre outros) vai afetar desproporcionalmente as suas importações dessas matérias primas", disse o analista da Fitch.

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