Ng Han Guan/AP
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China vai dominar encontro do G-20 na capital da Turquia

Perigo de contágio global da crise asiática vai dar o tom dos debates na reunião de dois dias em Ancara

Ricardo Leopoldo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2015 | 02h04

ANCARA - Pela primeira vez nas reuniões do G-20, a situação econômica da China e o "perigo de contágio para os mercados emergentes" se tornou o principal foco para grande parte dos presentes na reunião preparatória do evento que reúne ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais desse grupo, que reúne os países mais industrializados do mundo. De acordo com uma autoridade europeia, "a China é importante" e o "comunicado final do encontro para ser crível precisa tratar da atual situação do país asiático. Fatos importantes ocorreram nos últimos dois meses".

Segundo essa fonte, é "preciso entender o máximo possível" o que ocorre com a economia da China, a fim de elevar a transparência do debate dentro do G-20. E isso será fundamental para que o mundo tenha mais informações e possa ter melhores condições para evitar que a alta volatilidade de ativos financeiros provocada pelas incertezas relativas ao país asiático avance muito e provoque prejuízos bem elevados sobre o nível de atividade global.

"A China interfere diretamente na demanda e nos preços mundiais de commodities, o que afeta as economias dos mercados emergentes", comentou a autoridade europeia. E para os países ricos, uma piora do poder de compra de países em desenvolvimento limita bem as suas exportações, em grande destaque de manufaturados, e reduz a perspectiva de crescimento, numa conjuntura marcada pela gradual e lenta recuperação do nível de atividade mundial. Já são oito anos depois que surgiu a Grande Recessão, em 2007, e somente Estados Unidos e Alemanha apresentam sinais mais evidentes de fortalecimento de seus respectivos PIBs.

"É muito relevante entender que talvez estejam subindo os riscos de desaceleração da economia da China e saber quais são os países que ficariam mais vulneráveis nesse processo, destacou a fonte.

A importância de avaliar a situação da China pelas autoridades do G-20 mereceu tanto destaque que ficaram bem menores a preocupação de autoridades sobre o processo de retomada da alta de juros nos EUA pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). "A expectativa de quem esteve na reunião não era de saber se o Fed vai subir os juros em setembro ou dezembro", disse. "O mais relevante é observar que esse é um movimento de longo prazo. A última vez que o banco central americano iniciou um ciclo de elevação dos juros isso ocorreu por 14 reuniões seguidas."

Na reunião de ontem do G-20, a premência de ouvir e debater o que ocorre com a China não deu espaço também para questões sobre a recessão e a crise política no Brasil. "Falamos de commodities, mas não diretamente sobre o País", comentou a fonte europeia. Um outro tema que não foi abordado é se a Europa precisa tomar providências imediatas para lidar com o grande movimento de pessoas que saem da África e Oriente Médio em busca da imigração no velho continente. "É uma situação triste. Mas este ainda não se tornou um tema econômico."

Advertência. Ainda ontem, relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um alerta sobre os riscos globais com a desaceleração da China, que tem forte capacidade de contágio na economia mundial, podendo reduzir o comércio internacional e provocar queda adicional dos preços das commodities. Outro risco é uma valorização adicional do dólar em meio ao processo de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). A divisa mais cara aumenta as preocupações com os passivos em moeda estrangeira das empresas dos países emergentes, que cresceram significativamente nos últimos anos, alerta o FMI. Captar recursos pelas companhias pode ficar mais difícil.

O FMI cita ainda, entre os riscos que rondam a economia mundial, a possibilidade de turbulência forte nos mercados financeiros, mudanças bruscas em preços de ativos e queda dos fluxos de capital internacional alimentados por preocupações com a China e com os juros nos Estados Unidos.

A redução do ritmo de crescimento da China, embora amplamente esperada, parece estar tendo consequências internacionais mais severas que o antecipado, afirma o documento do Fundo. O relatório destaca ainda que os emergentes já encontram condições financeiras mais duras, que podem piorar com o início do aumento dos juros nos Estados Unidos. / Colaborou Altamiro Silva Júnior, de Nova York

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