Gilles Sabrid/The New York Times
Gilles Sabrid/The New York Times
Imagem Ana Carla Abrão
Colunista
Ana Carla Abrão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

China vai introduzir a primeira moeda digital oficial de um país

O yuan digital - chamado de eCNY -, emitido e controlado pelo Banco Central chinês, logo terá curso legal como o yuan em papel

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 04h00

Em tempos de pandemia e de vacinação, muito se fala da China. Além da acelerada retomada que já fez seu PIB crescer 18,3% no primeiro trimestre de 2021, em comparação com o mesmo período de 2020, é de lá que vêm os insumos das vacinas que têm garantido a imunização até aqui e ajudarão também na nossa retomada. Mas há algo mais acontecendo na China que nada tem a ver com a covid-19, mas que poderá significar uma mudança muito relevante – e de impactos ainda desconhecidos – na forma como se movimentam os fluxos financeiros. 

Foi na China do século XVII que as primeiras notas bancárias surgiram. Na mesma China, nos últimos anos, as carteiras digitais dominaram as transações financeiras no mercado de consumo, ampliando as possibilidades de pagamento. Agora, em 2021, é também a China que introduz a primeira moeda digital oficial, inaugurando um novo padrão. O yuan digital – chamado de eCNY –, emitido e controlado pelo Banco Central chinês, logo terá curso legal como o yuan em papel. Após testes que começaram no ano passado e que estão agora se expandindo para as grandes cidades chinesas, o eCNY terá seu lançamento oficial nas Olimpíadas de Inverno do ano que vem.

Parece longe e opaco? Sim, mas vale observar com atenção e buscar entender. Outros Bancos Centrais já discutem movimentos parecidos e alguns já se mexem nessa mesma direção. O eCNY sai na frente como a iniciativa pioneira de emissão CBDC's (Moeda Digital do Banco Central, em tradução livre), mas em breve deverá ser seguido por outros. Estamos falando aqui, diferentemente do badalado bitcoin, de moedas digitais que funcionam como dinheiro oficial, equivalentes ao papel moeda e reservas, com mesmo valor e regras de emissão das moedas locais, garantidas e governadas pelas autoridades monetárias e regulatórias oficiais. Os motivos pelos quais os Bancos Centrais do mundo todo estão avaliando a emissão de CBDC's vão desde ganhos de eficiência nos sistemas de pagamento até mesmo um potencial fortalecimento da política monetária, com a definição de taxas de juros para depósitos em CBDC's. Inclusão financeira, maiores controles antifraude e proteção da soberania (evitando que moedas digitais privadas assumam o protagonismo) também estão entre as motivações que têm mobilizado estudos e iniciativas.

Mas, como em todos os movimentos disruptivos, há também riscos. O mais óbvio deles é o potencial impacto sobre o sistema financeiro de um processo amplo de desintermediação. Mas há outros, tanto no campo individual quanto sistêmico. Alguns desafios são a eventual perda de privacidade; novos riscos cibernéticos; complexidades na gestão da identidade; repressão financeira como consequência da concentração de recursos depositados no Banco Central; e os efeitos da centralização nos controles e monitoramento de atividades ilícitas e de lavagem de dinheiro – hoje distribuídos nas instituições financeiras. 

Adicionalmente, para além da perda de receita, impactos relevantes podem ser observados na operação bancária. E não somente para o mal, ao contrário. Os desafios podem ser contrabalançados por um aumento da interoperabilidade entre os diversos mercados, gerando efeitos positivos nos fluxos locais e internacionais. Poderão emergir processos mais eficientes e simplificados de controle e prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, além da modernização dos processos de pagamento e a consequente digitalização de outros ativos financeiros e, consequentemente, das infraestruturas de mercado.

Há, contudo, mais incertezas do que certezas pela frente. A começar pelo grau de protagonismo dos Bancos Centrais frente à sedução que os ativos digitais vêm exercendo para muito além dos investidores destemidos. Mas, dissipada a nuvem de incertezas e controlado o efeito da sedução do desconhecido, haveremos de ver, cada vez mais, um mundo em que inclusão financeira, gestão integrada de dados, interoperabilidade, gestão eficiente de ativos e profundidade financeira serão uma realidade beneficiando cada vez mais o consumidor, seja ele bancário ou não.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

Tudo o que sabemos sobre:
moeda virtualChina [Ásia]Yuan

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.