Chinês não quer conquistar mercado só com carro barato

Fundador da Chery elogia indústria brasileira e diz que espera dominar 4% das vendas no País com produtos de qualidade

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Yin Tongyao, presidente mundial da montadora chinesa Chery

Temida pelos fabricantes já instalados no Brasil, a China finalmente fincou sua primeira raiz no setor automobilístico nacional com o início das obras da fábrica da Chery em Jacareí (SP). Como importadora, a marca já oferece um dos carros mais baratos do mercado, o QQ, vendido a R$ 23.990, todo equipado - atrativo que gera fila de espera de mais de três meses. A expectativa era de que a produção local resultaria em produtos ainda mais em conta. Mas o presidente mundial da Chery, Yin Tongyao, avisa que o grupo não quer conquistar o mercado com base em produto barato. O primeiro modelo a ser feito no País terá preço intermediário entre o QQ e o Face, que custa R$ 31,9 mil. O executivo garante, contudo, que sairá de fábrica mais equipado que os concorrentes. "Esse será o nosso diferencial." O plano da Chery é chegar a 4% do mercado brasileiro em até seis anos. Na tarde de terça-feira, Tongyao, fundador da Chery em 1997, recebeu o Estado no recém-adquirido escritório na Avenida Paulista, ainda sem mobília completa.

Por que as montadoras já instaladas no Brasil temem a chegada das chinesas?

Não se pode falar em temor, porque a indústria automobilística brasileira é muito desenvolvida. Com humildade, reconhecemos que temos muito a aprender com elas. Não queremos conquistar o mercado com base em carro barato, mas construir uma marca forte e competitiva. Nosso primeiro produto será mais caro que o QQ, mas com conteúdo e preço muito competitivo.

O Brasil já tem 17 fabricantes de automóveis e há mais uma dezena de interessados na produção local. Será difícil competir?

A competição no mercado chinês é muito maior que no Brasil. Ela é boa, pois quem ganha é o consumidor. Concorrência aumenta a eficiência, gera empregos, ajuda a ganhar escala, baixa os custos. Todos ganham com isso. Não há nenhuma indústria do ramo no mundo que não queira estar no Brasil hoje.

Testes de qualidade feitos com carros chineses, entre eles o QQ, foram bem negativos. Isso pode atrapalhar a imagem da Chery?

Nossos carros são vendidos em mais de 80 países, até na Europa. Temos consciência da nossa qualidade. Os modelos que serão feitos no Brasil serão muito mais avançados que o QQ e, com certeza, a qualidade será superior. Estamos empenhados em melhorar nosso processo produtivo e atingir padrões mundiais. Contratamos a consultoria JDPower para avaliar nossos produtos. O brasileiro tem cultura automobilística e é exigente, por isso precisamos fazer veículos com alta qualidade para satisfazê-lo.

Segundo estudo da Anfavea (associação das fabricantes), o custo China de produção é muito inferior ao custo Brasil. O sr. concorda?

O problema é que China e Brasil estão numa distância muito longa. O custo de transporte é alto. Apesar de o custo Brasil ainda ser maior, os custos da China estão em ascensão veloz. Para trazer carros para cá, é preciso ter capital de giro elevado. Os profissionais brasileiros têm ótima qualidade, até mais alta que o chinês. No futuro, com o aumento da produtividade isso vai compensar o problema do custo.

É possível produzir aqui com o mesmo custo da China?

Com certeza os custos daqui são maiores. Mas, se tiver de vender aqui trazendo de lá, levando em conta custos de logística, impostos e frete, compensa produzir aqui.

Além do S18 e Fulwin, que outros modelos serão feitos aqui?

Planejamos lançar um novo carro a cada ano, mas vamos analisar com uma consultoria quais os melhores produtos.

A Chery é a maior montadora independente (sem parceria com estrangeiras) na China. Qual a participação no mercado chinês e qual a meta para o Brasil?

Temos 5% do mercado de carros de passeio da China e queremos chegar a 10% até 2017. Aqui, queremos ter de 3% a 4% do mercado no mesmo período.

Quando o grupo espera retorno dos investimentos?

Em 2015, 2016. Estamos preparados para até seis anos de prejuízo, a partir daí, esperamos resultados positivos.

Há planos de ampliar o investimento anunciado de US$ 400 milhões?

Não temos ainda a previsão exata dos investimentos futuros. Faremos esse aporte inicial e vamos ver como será a resposta do mercado. Se não conseguirmos trazer lucro até 2016, os acionistas não vão querer aprovar novo investimento. Se conseguirmos, certamente vamos ampliar os investimentos.

Qual será o modelo de produção da fábrica?

Vamos criar um modelo só para o Brasil. A forma básica é bem parecida no mundo todo, e normalmente adotamos o modelo Toyota (de produção enxuta).

Na cerimônia da pedra fundamental, o sr. falou que o grupo pode trazer 20 fabricantes chineses para operar ao redor da fábrica. O que eles vão produzir?

Pretendemos trazer para o Brasil fornecedores de produtos de maior valor agregado. Mas é só uma ideia. Não temos ainda noção da cadeia local de autopeças. Caso encontremos fornecedores com alta qualidade e preço competitivo, não haverá necessidade de trazer de fora. O ideal seria não trazer nenhum fornecedor de lá e comprar tudo aqui.

Quem está desenvolvendo o motor flex que equipará o carro brasileiro?

Estamos desenvolvendo o motor flex na China especialmente para o mercado brasileiro, em parceria com a Delphi e a Magneti Marelli.

Quantos chineses virão ao Brasil acompanhar o projeto?

Ainda estamos em fase de planejamento, mas no máximo 100. No futuro, queremos ter só funcionários brasileiros.

A Chery está preparada para lidar com o sindicato de trabalhadores?

Temos fábricas em várias partes do mundo e nos outros países também há sindicatos. Estamos acostumados a lidar com eles.

Qual sua avaliação sobre o mercado brasileiro?

Acho que a economia brasileira e a australiana são singulares no contexto internacional. Durante a crise financeira, em 2008, Brasil e Austrália escaparam relativamente ilesos. Acredito que isso tenha ocorrido em parte devido às exportações de commodities. No caso do Brasil, também é preciso citar o governo Lula, que fez reformas políticas e estruturais que ajudaram o país a escapar da crise. O mercado brasileiro ainda vai crescer por alguns anos.

E o chinês?

Nos últimos anos, o mercado chinês cresceu a velocidades rápidas, não só por causa da demanda em si, mas em razão de políticas de incentivo do governo para desenvolver o mercado. Neste ano, porém, o mercado já está em queda.

Como foi sua trajetória na indústria automobilística?

Eu me formei em engenharia automotiva em 1984 e fui trabalhar na FAW, a primeira fabricante de veículos chinesa. Em abril de 1989 fui para os EUA conhecer a fábrica da Volkswagen local. Mandamos para a China um equipamento de produção desmontado, que foi remontado lá, dando início à uma joint venture com a VW. Em 1997, fui convidado pelo prefeito da cidade de Wuhu para criar uma montadora com dinheiro do Estado. Eu e mais oito colegas fundamos a Chery. Recebemos a licença do governo chinês para produzir e comercializar veículos de passageiros em 2001.

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