Chinês patrocina startups em Pequim

Empreendedor de 24 anos criou a 36Kr, que ensina o caminho do sucesso para jovens talentos e empresários iniciantes da internet

BERHARD ZAND / DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h06

A festa é no Basement, clube noturno de Pequim no bairro de Sanlitun. "Vamos balançar vocês", berram os alto-falantes enquanto cerca de 100 jovens chineses rodam na pista de dança. As mulheres usam faixas de cores vermelha, verde e azul vivo na cabeça. Os homens as filmam com seus iPhones. A empresa de internet 36Kr é a anfitriã da festa de despedida do ano da cobra, oferecida a clientes e funcionários. O terceiro ano da companhia, o mais bem-sucedido, está chegando ao fim.

Mais três músicas, e a banda faz o primeiro intervalo. Segue-se uma série de apresentações: um sujeito que engole fogo, uma stripper e um grupo de bailarinas de cancan. Chega o clímax da festa do ano-novo chinês: o sorteio da rifa. "Muito bem, todo mundo logado no Weixin!", diz o MC, "e sacudam seus celulares: três, dois, um, agora!"

O Weixin, o WeChat em inglês, é o aplicativo de bate-papo de maior sucesso na China, e todo mundo no Basement o instalou em seu celular. Quando o telefone sacode, o aplicativo mostra uma lista de todos os vizinhos em poucos segundos. Os que estão no topo da lista do moderador do Weixin são os vencedores: iPhones, dias de férias pagas, televisores de tela gigante. Um ganhador está tão deslumbrado que, com seu novo iPad na mão, começa a dançar break no palco. Então a banda volta para o bloco seguinte.

Por volta da meia-noite, saudado aos gritos de "Laoban", o chefe (laoban) sobe no palco. Liu Chengcheng é um jovem magro de 24 anos, veste uma camiseta com capuz, e parece um pouco tímido na frente de tanta gente. A companhia que ele fundou ajudou várias startups chinesas a encontrarem o sucesso: doze das companhias de software e hardware "30 sub 30" da China escolhidas pela Forbes tornaram-se famosas graças à 36Kr, diz Liu.

Quando criança, Liu estava mais interessado em histórias em quadrinhos, para desespero da mãe matemática. Ele gostava do super-homem, que vem do planeta Kripton. Evidentemente, o Kripton é um elemento químico, um gás raro com o número atômico 36. Daí o nome da companhia, 36Kr; é como Liu chama seus funcionários.

"Alô, Kriptons", diz Liu ao microfone com hesitação. "Espero que tenham se divertido. Desculpem se algum de vocês não ganhou nada. Peguem um táxi e voltem para casa. Peçam o recibo, serão reembolsados."

É um presente espontâneo. Liu Chengcheng, que se identifica como CC no lado inglês dos seus cartões de visita, pode se dar o luxo de mandar seus empregados para casa de táxi. Seu site e espaço de trabalho compartilhado tornaram-se lugares de encontro fundamentais para especialistas em computação de Pequim. Seu faturamento e sua equipe estão aumentando; os investidores o procuram por telefone, em vez do contrário.

Muitos deles, alguns do exterior, começaram a se interessar pelo cenário das startups chinesas. Akio Tanaka, um japonês de 43 anos, é um deles. Responsável pela segunda rodada de financiamento da 36Kr, sua companhia, sediada em San Francisco, financia projetos na Europa, Brasil e Rússia; já investiu US$ 5 milhões na firma de Liu.

"Quando cheguei a Pequim, há dez anos, a internet da China era horrível", conta Tanaka. "Agora, os sites de algumas fornecedoras chinesas são melhores que os americanos." Ele acaba de encomendar uma série de baterias especiais da loja online Taobao e ao mesmo tempo pode usar a função de chat do site para descobrir onde está seu pacote e quando chegará. A Amazon, afirma balançando a cabeça, "ainda me manda e-mails".

Tanaka diz que Pequim evoluiu e tornou-se o centro de startups mais importante fora dos EUA. "Aqui estão as pessoas, aqui está o dinheiro, aqui está o mercado." É a convicção compartilhada agora pelo universo online. Em julho, a presidente da Yahoo , Marissa Mayer, comprou a startup chinesa Ztelic, que coleta e analisa dados de redes sociais, e, em setembro do ano passado, a executiva do Facebook, Sheryl Sandberg, foi a Pequim para conhecer os principais expoentes da área de TI.

Gigantes da internet, como Microsoft e Oracle, operam centros de pesquisa e incubadoras em Pequim. Fundos de investimento como Intel Capital, Sequoia Capital e e.ventures investiram centenas de milhões de dólares em startups chinesas.

Encontro histórico. A história da Kriptons começa na cidade natal de Liu, Yancheng, perto de Xangai. Ainda na escola, começou a programar aplicativos simples para smartphone. Mais tarde, na universidade em Pequim, escreveu um blog de tecnologia no qual discutia novos aplicativos e gadgets sobre os quais ouvia falar ou lia. Depois de quatro anos, Liu Chengcheng passou a cursar a Academia Chinesa de Ciências na universidade Zhongguancun de Pequim. O bairro é considerado a resposta da China ao Vale do Silício. Desde os anos 80, engenheiros, programadores e investidores podiam estar sempre em contato.

Somente em Pequim, cerca de 22 mil pessoas formam-se anualmente nas universidades, e o Estado auxilia as que querem abrir empresas. Algumas das startups que começaram em Zhongguacun agora valem bilhões, como a Lenovo, fabricante de computadores, que adquiriu a divisão de PCs da IBM e comprou a Motorola do Google. O motor de busca Baidu e a fabricante de celulares Xiaomi também estão sediados lá.

No Natal de 2010, 19 escritores contribuíam regularmente para o blog de Liu. Foi então que ele conheceu Wang Xiao, um dos fundadores da Baidu, numa festa de ex-alunos da universidade. Foi um encontro histórico: Wang propôs investir 300 mil iuanes (US$ 54.500)em seu blog. "Eu nem sabia para que precisaria de um investidor", diz Liu. "O que poderia fazer com o dinheiro?" Ele ficou pensando nisso voltando para casa para as festas do ano-novo. Sua mãe o advertiu: "Somente um bobo ou um sacana daria tanto dinheiro para você. Não faça isso", ela disse.

Voltando a Pequim, ainda pensava naquilo. Ele sempre ouve o conselho dos pais, mas, acrescenta: "Minha mãe nem sabia o que é o Baidu!" Pegou o dinheiro, interrompeu os estudos na universidade e mergulhou nas startups com três dos seus escritores, e começou a apresentar as ideias mais originais no seu site. "No começo, trabalhamos como jornalistas", conta Liu. "Mas quanto mais apresentávamos startups no site, mais investidores entravam em contato. Eles queriam que nós reuníssemos todos eles."

Liu Chengcheng deixou há muito tempo seu apartamento de estudante e agora mora num studio, onde só vai dormir. Passa os dias no Templo da Tecnologia, um loft numa antiga fábrica que foi transformada em incubadora. É um escritório moderno num amplo espaço aberto, com um enorme bar espresso. Há cerca de 280 estações de trabalho onde jovens empreendedores, caçadores de talentos e investidores da China, Europa e EUA estão sentados na frente dos seus laptops. Cinquenta deles trabalham para a 36Kr. Numa porta de vidro está escrito: "Se você tem tudo sob controle, não está andando suficientemente rápido". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.