Chineses e governo francês vão assumir controle da Peugeot

Juntos, os dois sócios terão 28% da companhia; montadora confirmou o acordo após anunciar prejuízo de 2,3 bi

Andrei Netto, correspondente de Paris, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2014 | 02h09

O grupo automotivo PSA Peugeot Citroën, número 1 da França e um dos mais tradicionais do mundo, encerrou ontem uma era. Sob controle da família Peugeot desde 1896, quando de sua fundação, a montadora terá de abrir seu capital ao Estado francês e à companhia Dongfeng, a segunda maior montadora da China. Os investidores assumirão o controle majoritário e injetarão recursos para reverter as perdas, que em 2013 chegaram a € 2,3 bilhões.

O fim do domínio da família sobre as duas montadoras vinha sendo negociado desde 2013, por pressão do governo francês, que se recusava a participar de um aumento do capital da companhia se os Peugeot se mantivessem no poder. A solução proposta pelo Palácio do Eliseu era de uma repartição do controle, com três acionistas compartilhando o poder com 14% do capital: o Estado, o grupo Dongfeng e a própria família, que recuará de 25,4% do capital e 38,1% dos direitos de voto. Pelo acordo, a empresa receberá um total de € 3 bilhões em novos recursos - o poder público e a montadora chinesa investirão, cada um, € 800 milhões.

A negociação foi avaliada pelo Conselho de Supervisão da PSA Peugeot Citroën na terça-feira, e a informação veio à tona ontem. A resistência da família, que até janeiro ainda impunha restrições, foi vencida e a votação aconteceu por unanimidade, em um colegiado comandado por Thierry Peugeot, um dos decanos da família. Apesar da aprovação, o projeto ainda precisa passar pela Assembleia Geral da empresa, onde enfrenta a resistência da Associação de Defesa dos Acionistas Minoritários (Adam), que se sente prejudicada pela diluição do poder.

Em nota oficial, Thierry Peugeot reconheceu que a entrada de investidores chineses no capital representa uma revolução na empresa. "Trata-se de uma nova página na história de PSA Peugeot Citroën", afirmou, assegurando que a "perenidade" e "o crescimento futuro" dependiam da iniciativa. O grupo também comemorou a possibilidade de programar investimentos estratégicos, reforçar sua liquidez e reduzir os encargos de suas operações de refinanciamento.

Crise. A operação de troca de comando na PSA Peugeot Citroën, que será sacramentada pela chegada de um novo diretor-presidente, Carlos Tavares (ex-número 2 da concorrente Renault) é o apogeu de uma crise instalada na empresa há mais de dois anos. Atingida pela queda nas vendas - que só agora começa a se reverter - as montadoras do grupo sofreram com o excesso de dependência do mercado europeu, considerado por analistas saturado e com tendência de baixo crescimento.

Em 2013, as perdas do grupo caíram em mais de 50% - elas haviam sido de € 5 bilhões em 2012. Mas o excesso de capacidade instalada em fábricas ociosas na França ainda causa desequilíbrios. A empresa já fechou uma usina, na cidade de Aulnay-sous-Bois, na periferia de Paris, e reduziu pela metade a produção em Poissy e Mulhouse, investindo cada vez mais em suas unidades na China, onde a perspectiva é triplicar as vendas até 2020. Ainda assim, o programa de redução de custos do grupo prevê o corte de € 1,5 bilhão até 2015, que pode ser auxiliado pela parceria com a Dongfeng, número 2 chinesa. As sinergias entre os dois grupos são avaliadas em € 400 milhões por ano.

Poder público. Para o governo francês, a operação foi uma boa notícia. O primeiro-ministro da França, Jean-Marc Ayrault, celebrou a decisão, que dá ao Estado um papel protagonista em mais uma multinacional francesa. O poder público já é acionista majoritário da Renault, com 15,1%, 0,1% mais do que o grupo japonês Nissan.

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