Chineses investem no projeto do Canal da Nicarágua

Chineses investem no projeto do Canal da Nicarágua

Passagem do Atlântico para o Pacífico está programada para entrar em operação em cinco anos e será muito maior do que a do Panamá

JENS GLUESING, DER SPIEGEL

13 de novembro de 2014 | 11h01

Trajando macacões laranja e chapéus de sol, os chineses chegaram ao Rio Brito de helicóptero antes de serem escoltados por soldados para a margem do rio - para o preciso lugar onde José Enot Solís costuma lançar sua rede de pesca. Os chineses perfuraram um buraco no solo, e depois outro e mais outro. "Eles fizeram buracos por toda a praia", diz o pescador. Ele aponta para uma abertura do tamanho de uma laranja grande na lama, com cerca de um metro de profundidade. Próximo a ele estão pedaços de papel escritos com caracteres chineses. Afora isso, porém, não há muito mais para ver do monumental e controvertido projeto que está para ser construído aqui: o Grande Canal Interoceânico, um segundo canal de navegação entre o Atlântico e o Pacífico.

O canal deve se estender do Rio Brito na costa do Pacífico, à foz do Rio Punta Gordas na costa do Caribe. Além disso, porém, pouco se sabe dos detalhes do projeto. Somente o presidente nicaraguense, Daniel Ortega, e seus assessores mais próximos sabem quanto dinheiro já foi investido, o que ocorrerá com as pessoas que vivem ao longo do percurso e quando chegarão os primeiros trabalhadores da construção da China. Inexistem estudos sobre o impacto ambiental da obra.

O cronograma é apertado, O primeiro navio está programado para navegar para o Rio Brito, que fará parte do canal, dentro de apenas cinco anos.

Quando estiver concluído, o canal será muito maior do que o Canal do Panamá ao sul. Uma zona de segurança de 500 metros de largura está planejada para os dois lados do canal. E ele permitiria a navegação das enormes embarcações de categorias que não existiam quando o outro canal foi construído, algumas com capacidade para mais de 18 mil contêineres.

Por enquanto, somente alguns especialistas chineses estão na Nicarágua realizando perfurações de teste na desembocadura do rio desde o fim do ano passado. Eles estão medindo a velocidade do rio, os níveis das águas subterrâneas e as propriedades do solo. Não faz muito tempo, a polícia estabeleceu um posto de vistoria no local e é possível que a área toda acabe sendo fechada.

Até agora, porém, a região continua sendo um paraíso para cientistas naturais e surfistas. Tartarugas marinhas depositam seus ovos na praia e uma floresta tropical seca se estende atrás dela para o sul, cruzando a fronteira com a Costa Rica. 

Sem respostas. O projeto criou uma grande incerteza para os que vivem na região e desde a chegada dos trabalhadores chineses, eles têm se perguntado quando serão reassentados e quanto o governo pagará como indenização. Por enquanto, não tiveram respostas. E não estão sozinhos: um total de 30 mil pessoas vive suficientemente perto do percurso planejado para o canal que provavelmente serão reassentadas.

Empregados de uma companhia chinesa estão batendo de porta em porta para coletar detalhes sobre moradores e propriedades, Mas com o crescimento da oposição ao projeto, eles estão sendo acompanhados por policiais e soldados armados de Kalashnikovs. Milhares começaram a protestar contra suas expropriações iminentes com várias manifestações nas últimas semanas. Muitos dos cartazes que carregam dizem: "Fora chineses!" 

Mas o desprezo pelo projeto não é universal, provocando uma grande divisão no país. Muitos nicaraguenses aprovam o investimento chinês e esperam que o canal traga empregos e prosperidade. Outros temem uma invasão de chineses.

Para piorar as coisas, há muitos questionamentos sobre o projeto. À primeira vista, a geografia parece ideal para o canal. O Lago Nicarágua oferece um canal natural no interior do país, com apenas 20 quilômetros separando o lago da foz do Rio Brito. Mas a escavação até o Caribe do outro lado promete dificuldades. A área é pantanosa, pouco desenvolvida e habitada por povos indígenas. Milhares de quilômetros quadrados de florestas teriam de ser derrubados.

Tampouco está claro se o empreendimento algum dia será lucrativo. O Canal do Panamá está sendo expandido atualmente e vários outros países centro-americanos estão planejando "canais secos" consistindo de linhas ferroviárias conectando os dois oceanos através do istmo. Para ser competitivo, o canal nicaraguense teria de transportar uma vasta quantidade de frete. Ademais, o pequeno país não tem nem dinheiro nem know-how para um projeto dessa magnitude. / Tradução de Celso Paciornik

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