Chineses negociam sociedade no leilão de Libra e em refinarias da Petrobrás

Estatal brasileira e as chinesas CNOOC e CNPC devem se juntar em um consórcio para fazer oferta pelo primeiro campo a ser licitado no pré-sal brasileiro, em um acordo que pode envolver também refinarias no Nordeste e participação em outros blocos de petróleo

Sabrina Valle / Rio, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2013 | 22h18

O maior leilão de uma área de petróleo no Brasil, o do campo de Libra, que será realizado nesta segunda-feira, 21, tem pelo menos um consórcio preparado para fazer lance. Reúne a Petrobrás e duas empresas chinesas que ainda não atuam no País, as estatais CNOOC e CNPC, além de outros dois grupos. E esse acerto, que deve garantir o sucesso do leilão, pode ser apenas parte de um acordo mais amplo costurado com a participação dos governos brasileiro e chinês.

Segundo fontes ouvidas pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, entram nesse pacote os projetos de refinarias da estatal brasileira na região Nordeste e a possibilidade de compra e venda de participação em blocos exploratórios que pertencem à Petrobrás. Além das duas estreantes chinesas, também a Sinopec, que já atua no Brasil, deve participar do acordo de intenções mais amplo com a Petrobrás.

As companhias chinesas, tidas como as grandes vedetes do leilão de Libra, devem participar de forma mais comedida do que o esperado inicialmente, e apenas foram convencidas a entrar na disputa depois de ser oferecida uma parceria além do leilão, mesmo que essa parceria ainda não esteja totalmente desenhada, segundo as fontes.

Discussões, A ideia está em maturação pelo menos desde 2012, antes mesmo de o governo anunciar os três aguardados leilões de petróleo e gás deste ano, sendo o mais importante o de amanhã, que inaugura o sistema de partilha e que renderá ao governo R$ 15 bilhões apenas em bônus de assinatura.

Ainda no ano passado, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, deu uma pista desse caminho, ao ser questionada no conselho de administração sobre os esforços para encontrar um parceiro que descongelasse o projeto das refinarias do Nordeste, contou um interlocutor.

Algumas questões, no entanto, ficam em aberto. Como e por que alguém investiria numa refinaria multibilionária, com interesses políticos envolvidos, que a própria Graça suspendera do plano de negócios, para revisão, por estar saindo cara demais? Pior: uma refinaria cujos combustíveis produzidos seriam vendidos por valores abaixo dos de mercado, já que os preços são controlados pelo governo?

Graça, segundo a fonte, tinha uma resposta pronta: a Petrobrás poderia fazer uma associação que envolvesse negociações com campos de petróleo do pré-sal. A parte não rentável da refinaria seria compensada com uma oferta de um ativo de petróleo.

As conversas entre a estatal brasileira e grupos chineses acontecem há tempos. O presidente da Sinopec, Fu Chengyu, por exemplo, esteve no Rio no ano passado com uma comitiva de uma centena de funcionários e assessores. Também se reuniu com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

Em meados deste ano, Graça viajou à China para fazer três apresentações, de várias horas cada, a executivos de três estatais. O tema foi principalmente o pré-sal, mas também a construção da refinaria Premium I, no Maranhão, segundo a própria presidente da Petrobrás.

"Fui e voltei da China em três dias. Não passei nem em hotel, tomei banho em aeroporto. O bom é que o celular não pega", brincou a executiva, em entrevista coletiva, há três semanas. "Tudo o que a gente tem feito com os chineses tem sido uma experiência boa."

Carta de intenções. Em 11 de junho, Graça e Fu formalizaram o acordo, com assinatura de uma carta de intenções entre Petrobrás e Sinopec para desenvolver estudo conjunto do projeto da refinaria maranhense.

O acerto pode ter seu pontapé se vencer o consórcio da Petrobrás com chineses na disputa da área gigante de Libra, um prospecto com reserva estimada entre 8 bilhões e 12 bilhões de barris, quase tão grande quanto todas as reservas provadas do País (15,7 bilhões de barris). Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), a estimativa é que a produção de petróleo no campo possa chegar a 1,4 milhão de barris por dia.

As negociações com a Sinopec, disse Graça, podem vir a ser estendidas para a Premium II, no Ceará, ambas com capacidade para processar 300 mil barris por dia. O projeto das refinarias ficou mais enxuto e menos oneroso após a contratação de uma consultoria americana para revisá-los.

O presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, Charles Tang, confirma que a negociação da Petrobrás com a Sinopec envolveu o governo. "Tive o privilégio de ser fomentador disso. O ministro (Lobão) me disse que não aguentava mais discutir com as empresas que estava discutindo, pois não chegavam nunca a uma conclusão", disse.

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